
A Cidade Depois das Seis
J.B. NETO
Há uma hora em que as cidades mudam de rosto.
Não acontece exatamente quando anoitece. A noite é apenas a consequência. A mudança começa antes, quando os comerciantes abaixam as portas, os funcionários deixam os escritórios, os últimos clientes saem das lojas e as ruas começam a perder aquele movimento apressado de quem ainda acredita que precisa chegar a algum lugar.
Em São Luís, essa hora sempre me pareceu mais evidente.

Depois das seis, o centro histórico começa a envelhecer diante dos nossos olhos.
Durante o dia, quase ninguém percebe. Há turistas fotografando fachadas, vendedores oferecendo lembranças, estudantes atravessando as ruas, funcionários carregando pastas, motocicletas disputando espaço com ônibus e pessoas entrando e saindo das lojas. As vozes se misturam aos motores. Os passos desaparecem no barulho. As portas abertas escondem as paredes antigas.
A cidade parece ocupada demais para lembrar que está envelhecendo.
Mas depois das seis, quando as portas começam a fechar, ela recupera uma espécie de silêncio que durante o dia fica escondido.
Eu gostava de caminhar por essas ruas nesse horário. Não tinha exatamente para onde ir. Talvez fosse justamente por isso. Há pessoas que caminham para chegar. Eu caminhava para observar.

Naquela tarde, saí de uma pequena livraria pouco antes das seis. O proprietário já recolhia algumas coisas da calçada. Cumprimentei-o e perguntei se ainda ficaria aberto.
— Mais dez minutos.
Olhei para dentro.
— Então ainda dá tempo.
Ele sorriu.
— Tempo sempre dá. O que falta é cliente.
Achei graça.
Entrei, embora soubesse que não compraria nada. Passei alguns minutos olhando os livros, lendo contracapas, fingindo que procurava alguma coisa. Quando ele começou a baixar a porta, saí.
O ruído metálico da persiana descendo pela fachada pareceu anunciar alguma coisa.
A cidade estava fechando.
Continuei caminhando pela Rua Grande. Algumas lojas ainda permaneciam abertas, mas havia uma pressa diferente nas pessoas. Os funcionários contavam dinheiro, desligavam computadores, guardavam mercadorias. Alguns comerciantes conversavam na porta enquanto esperavam o momento de fechar definitivamente.
Era curioso observar aquilo.
Durante o dia, aquelas lojas pertenciam aos clientes. Depois das seis, voltavam a pertencer aos donos.
E talvez toda cidade fosse assim. Durante o dia, pertence a quem passa. À noite, pertence a quem fica.
Passei por uma igreja. A porta ainda estava aberta, mas quase ninguém entrava. Do lado de dentro, algumas pessoas permaneciam sentadas em silêncio. Não pareciam rezar exatamente. Talvez estivessem apenas descansando.

Sempre achei interessante a maneira como algumas pessoas procuram uma igreja quando já não sabem onde colocar determinadas coisas.
Uma mulher estava sentada sozinha em um dos bancos. Tinha uma bolsa no colo e olhava fixamente para o altar. Não sei por quanto tempo ficou ali. Não sei quem esperava.
Talvez ninguém.
Talvez Deus.
Talvez uma resposta.
Continuei andando.

Na esquina, um vendedor recolhia suas mercadorias. Havia frutas, pequenos pacotes, algumas garrafas de água. Perguntei se já estava indo embora.
— Hoje foi fraco.
Olhei para a rua.
— Amanhã melhora.
Ele sorriu.
— Amanhã sempre promete.
Gostei daquela frase.
Amanhã sempre promete.
Talvez fosse por isso que continuávamos acordando.
A cidade começava a esvaziar. Os ônibus ainda passavam cheios, carregando trabalhadores para bairros que eu conhecia apenas pelos nomes. Pessoas saíam apressadas dos pontos. Algumas caminhavam com sacolas. Outras falavam ao telefone. Um rapaz corria porque havia perdido o ônibus anterior.
Eu observava tudo.
Era uma espécie de espetáculo que ninguém havia planejado.

Uma mulher discutia com alguém ao telefone. Um homem carregava uma caixa de papelão. Dois estudantes riam alto. Um velho caminhava devagar, apoiado em uma bengala. Uma moça esperava sozinha diante de uma farmácia.
Todos pareciam carregar alguma coisa invisível.
Talvez fosse apenas impressão minha.
Mas comecei a perceber que as cidades são feitas disso: de pequenas histórias que nunca chegam aos jornais.
O homem que perdeu o emprego. A mulher que recebeu uma notícia ruim. O rapaz que decidiu não voltar para casa. A senhora que ficou viúva. O estudante que não sabe o que fará da própria vida.
A cidade está cheia de tragédias que ninguém vê.
E, talvez por isso, cheia também de pequenas resistências.
Uma porta que se abre. Um café servido. Um ônibus que chega. Uma ligação atendida. Uma pessoa que decide continuar.
Passei diante de uma casa antiga. A fachada estava descascada. Alguns azulejos haviam desaparecido. As janelas permaneciam fechadas.

Fiquei olhando durante alguns segundos.
Conhecia aquela casa havia muitos anos. Ou pelo menos achava que conhecia.
Quando criança, eu passava por ali e imaginava quem morava dentro. Naquela época, as fachadas pareciam enormes. As portas eram altas. As ruas pareciam compridas. As pessoas pareciam saber mais sobre a vida.
Depois descobri que não sabiam.
A gente cresce e percebe que os adultos também estavam improvisando.
Talvez seja isso que mais envelhece uma pessoa: descobrir que ninguém sabia exatamente o que estava fazendo.
Continuei caminhando.
O céu já estava escuro e as primeiras luzes dos postes começaram a se acender. A iluminação amarela transformou as fachadas antigas. Os azulejos refletiam pequenas manchas de luz. As paredes pareciam ainda mais velhas.
São Luís ficava bonita naquele horário.
Não bonita como nas fotografias.
Bonita de uma maneira mais difícil.
Uma beleza marcada pelo tempo.
Havia rachaduras, tinta descascada, portas gastas, calçadas irregulares. Mas havia também alguma coisa que permanecia.
Talvez fosse isso que eu procurava quando caminhava por ali.
Não é a cidade que existia.
A cidade que insistia em existir.
Passei diante de um bar. Algumas mesas ocupavam a calçada. Homens conversavam sobre futebol. Um deles gesticulava como se estivesse discutindo uma questão de Estado. Outra ria. Um terceiro permanecia em silêncio, olhando para o copo.

O garçom passava entre as mesas com a familiaridade de quem conhecia aquelas pessoas havia anos.
Parei por um instante.
Não entrei.
Fiquei observando da calçada.
Sempre me interessaram esses lugares onde as pessoas se sentam para fingir que estão apenas bebendo, quando na verdade estão tentando esquecer alguma coisa.
Talvez todos os bares tenham um pouco disso.
A cidade continuava escurecendo.
Uma igreja fechou as portas. Depois, uma loja. Depois outra.
Uma por uma.
Como se alguém estivesse apagando lentamente as luzes de uma enorme casa.
Foi então que percebi uma coisa estranha.
Eu conhecia aquele movimento.
Não da cidade.
De mim.
Também havia passado anos fechando portas. Algumas por necessidade. Outras por orgulho. Algumas porque alguém foi embora. Outras porque eu simplesmente não sabia mais como mantê-las abertas.
Havia pessoas com quem deixei de falar, lugares aos quais nunca mais voltei, projetos que abandonei, versões de mim mesmo que ficaram em algum ponto do caminho.
Talvez envelhecer seja aprender a conviver com as portas que não abriremos novamente.
Parei diante de uma janela.

O vidro refletia a rua atrás de mim.
Por alguns segundos, não soube se estava olhando para a cidade ou para o meu próprio rosto.
Foi quando pensei que algumas cidades envelhecem exatamente como as pessoas.
Primeiro perdem o movimento. Depois algumas cores. Depois certas vozes. Algumas portas deixam de abrir. Algumas pessoas partem. Outras chegam.
E, um dia, percebemos que já não reconhecemos completamente o lugar onde passamos boa parte da vida.
Mas ainda reconhecemos alguma coisa.
Talvez uma esquina. Uma janela. O cheiro de uma padaria. O som distante de um sino. Uma música saindo de um bar.
Pequenas coisas que sobrevivem ao tempo.
Continuei andando.
Já passava das oito. O centro estava quase vazio. Os turistas haviam desaparecido. Os comerciantes tinham ido embora. Os vendedores recolheram suas coisas. As portas estavam fechadas.
Restavam alguns bares, algumas igrejas iluminadas e pessoas que pareciam não ter pressa de voltar para casa.
Pensei que talvez fossem essas pessoas que pertenciam verdadeiramente à noite.
Os que trabalham até tarde. Os que não querem voltar. Os que não têm para onde voltar. Os que ainda precisam esperar alguma coisa.
Ou simplesmente os que descobriram que não existe razão para ter pressa.
Sentei em um banco e fiquei olhando a rua.

A cidade estava silenciosa.
Não completamente.
Nunca está.
Havia um ônibus ao longe. Uma motocicleta passou. Alguém fechou uma porta. Um cachorro latiu. Uma conversa atravessou a rua.
Depois tudo voltou ao silêncio.
Pensei na cidade durante o dia. Cheia, barulhenta, apressada.
Depois pensei nela agora.
Vazia, escura, cansada.
E percebi que talvez nenhuma das duas fosse a verdadeira.
A cidade era as duas.
Como nós.
Também somos aquilo que mostramos quando há gente olhando e aquilo que sobra quando finalmente ficamos sozinhos.
Levantei e continuei caminhando sem pressa.
Na esquina, olhei para trás.
As fachadas antigas estavam iluminadas pelos postes. Algumas janelas permaneciam acesas. Outras já estavam completamente escuras.
Por um instante, tive a impressão de que a cidade respirava.
Devagar.
Com dificuldade.
Mas respirava.
Talvez fosse isso que mais me comovesse em São Luís.
Ela não parecia interessada em parecer jovem.
Carregava suas marcas, suas rachaduras, suas ausências, suas histórias.
E continuava.
Eu também.
Caminhei mais algumas ruas.

Depois das seis, a cidade não fica apenas mais silenciosa. Ela fica mais honesta.
Talvez porque, quando as portas fecham, já não seja necessário fingir que tudo está funcionando.
Algumas coisas permanecem abertas.
Outras não.
E talvez envelhecer seja justamente aprender que isso não significa necessariamente perder. Às vezes, significa apenas aprender a caminhar por uma cidade diferente.
A cidade que sobra depois das seis.
A cidade que ninguém fotografa.
A cidade que lembra.
A cidade que espera.
A cidade que, como nós, continua envelhecendo enquanto tenta descobrir o que ainda vale a pena manter aceso.