
Crônica: A Última Mesa do Bar
J.B.NETO
Há lugares que a gente frequenta por hábito. Outros, por necessidade. E existem aqueles aos quais voltamos porque alguma coisa ficou para trás.
Nunca soube exatamente por que comecei a sentar naquela mesa.
Era a última mesa do bar, encostada na parede, perto da janela que dava para a rua. Não era a melhor mesa, evidentemente. A luz chegava mal, o vento trazia o cheiro da chuva, e quando o movimento aumentava, alguém sempre esbarrava na cadeira. Mas eu gostava dela.
Talvez porque ninguém quisesse aquela mesa.

E eu sempre tive uma certa simpatia pelas coisas que ninguém quer.
O bar ficava numa dessas ruas antigas de São Luís onde as paredes parecem ter mais memória que os homens. Os sobrados envelheciam sem pressa, os azulejos refletiam a luz amarela dos postes e, depois das seis, a cidade começava a adquirir aquele aspecto de fotografia antiga que alguém esqueceu dentro de uma gaveta.

Eu chegava sempre no fim da tarde.
O garçom já sabia.
— A de sempre?
Eu fazia que sim.
Ele trazia a bebida sem perguntar mais nada.
Havia uma espécie de acordo silencioso entre nós. Ele não perguntava por que eu bebia e eu não perguntava por que ele continuava trabalhando naquele lugar.
Talvez ambos soubéssemos a resposta.
Era preciso sobreviver ao dia.
Naquela época eu ainda acreditava que algumas coisas poderiam voltar.
Uma mulher.
Um amigo.
Uma época.
Uma parte de mim.
Sentava naquela mesa e ficava olhando para a rua.
Passavam ônibus, fuscas, táxis, vendedores, estudantes, homens de paletó, mulheres apressadas, crianças puxadas pela mão. Todos pareciam saber para onde estavam indo.
Eu não.
Eu apenas esperava.
Esperava sem saber exatamente o quê.
Talvez alguém aparecesse e dissesse:
— Vamos embora.
E eu iria.
Não perguntaria para onde.
Havia noites em que o bar ficava cheio. Homens discutiam futebol, política, dinheiro. Alguém sempre tinha uma solução para o país. Outro sabia exatamente como acabar com a inflação. Um terceiro explicava por que o mundo estava perdido.
Eu gostava de ouvi-los.
Não porque acreditasse em alguma coisa que diziam, mas porque era reconfortante perceber que existiam pessoas capazes de ter certeza.
Eu tinha perdido essa capacidade.
Com o passar dos anos, descobri que a certeza é um luxo da juventude.
Depois dos trinta, a gente começa a negociar com as dúvidas.
Depois dos quarenta, aprende a conviver com elas.
Depois dos cinquenta, talvez descubra que algumas perguntas nunca tiveram resposta.
Eu ainda não tinha cinquenta.
Mas já desconfiava.
Na mesa ao lado costumava sentar um homem chamado Antônio.

Não sei se esse era realmente seu nome. Pode ter sido outro. Naquela época eu dava nomes às pessoas conforme a necessidade das histórias que inventava.
Antônio chegava sempre às sete.
Pedia café.
Ficava vinte minutos.
Depois ia embora.
Durante meses não trocamos uma palavra.
Até que um dia ele perguntou:
— O senhor espera alguém?
Olhei para ele.
— Por quê?
— Porque o senhor olha muito para a porta.
Aquilo me incomodou.
Não pela pergunta.
Pela precisão.
Passei a olhar menos para a porta.
Durante alguns dias, funcionou.
Depois descobri que havia outras maneiras de esperar.
Esperava pelo telefone.
Esperava uma carta.
Esperava uma notícia.
Esperava que alguém se lembrasse de mim.
Esperava que alguma coisa acontecesse.
O problema é que a vida tem uma péssima relação com nossas expectativas.
Ela acontece enquanto esperamos outra coisa.
Certa tarde, choveu muito.
A água descia pelas ruas carregando folhas, papéis e pequenas coisas que ninguém reclamaria de perder. Os carros passavam devagar, espalhando água pelas calçadas.
Fiquei olhando.
Uma mulher atravessou correndo.
Um menino protegeu a cabeça com um jornal.
Um velho ficou parado debaixo de uma marquise, esperando a chuva diminuir.
Pensei que talvez toda a humanidade pudesse ser resumida àquelas três pessoas.
Os que correm.
Os que se protegem.
E os que esperam.

Eu pertencia ao terceiro grupo.
O garçom colocou meu copo sobre a mesa.
— Hoje está triste.
Olhei para ele.
— Hoje?
Ele sorriu.
— É verdade.
Não respondi.
Talvez fosse mesmo um homem triste.
Mas havia dias em que a tristeza era tão antiga que já não parecia tristeza.
Parecia apenas personalidade.
Naquela noite, Antônio não apareceu.
No dia seguinte também não.
Perguntei ao garçom:
— O homem que sentava ali?
— Antônio?
Então era Antônio mesmo.
— Esse.
— Morreu.
Disse aquilo com a naturalidade de quem anuncia que acabou o gelo.
— Morreu quando?
— Semana passada.
Fiquei olhando para a cadeira vazia.

Era curioso.
Durante meses eu havia convivido com aquele homem sem conhecê-lo.
Agora que ele estava morto, parecia que alguma coisa havia desaparecido da cidade.
Talvez fosse apenas uma cadeira.
Talvez fosse uma testemunha.
Naquela noite não consegui beber.
Fiquei olhando para a mesa ao lado.
Pensei na quantidade de pessoas que atravessam nossas vidas sem realmente entrar nelas.
Sentam perto.
Falam alguma coisa.
Sorriem.
Reclamam.
Pedem café.
Depois desaparecem.
E nós continuamos.
Como se continuar fosse uma obrigação.
Foi então que compreendi por que gostava daquela mesa.
Ela era a última mesa do bar.
Depois dela havia apenas a porta.
E, do lado de fora, a rua.
Talvez eu tivesse escolhido aquela mesa porque, inconscientemente, gostava da ideia de estar perto da saída.

Durante anos achei que estava esperando alguém entrar.
Naquela noite descobri que talvez estivesse esperando coragem para sair.
Paguei a conta.
O garçom estranhou.
— Vai embora cedo?
— Acho que sim.
Ele sorriu.
— Amanhã o senhor volta.
Parei junto à porta.
Olhei para trás.
A mesa estava vazia.
Pela primeira vez, não parecia estar esperando ninguém.
Saí.

A chuva tinha parado.
As luzes dos postes refletiam nas pedras molhadas e São Luís parecia uma cidade recém-saída de um sonho.
Caminhei sem pressa.
Não sabia para onde ia.
E, pela primeira vez em muitos anos, isso não me incomodou.
Atrás de mim, o bar continuava aberto.
A última mesa continuava lá.
Talvez alguém estivesse sentado nela.
Talvez outro homem tivesse começado a esperar.

A cidade sempre encontra alguém para ocupar os lugares vazios.
Eu apenas espero que ele não demore tanto quanto eu.