UM FIM DE TARDE EM SÃO LUÍS — 1981

Persisto em louvar o tempo, embora ele nunca tenha me tratado com delicadeza. Espero a iniciativa dos outros para satisfazer desejos que talvez nem devessem existir. Tento alimentar desesperadamente uma esperança naquilo que me parece mais sublime e, justamente por isso, mais cruel: esta mulher.
Esta mulher que persisto em esperar, mesmo sabendo que não quer voltar.
Ela possui na face um lirismo angelical, uma serenidade quase santa, dessas mulheres que parecem ter sido pintadas à mão sobre vidro antigo. Mas no coração carrega o cinismo frio de uma máquina destruidora. Uma criatura capaz de abandonar alguém sem sequer olhar para trás.
Meus olhos grudados na rua observam os que vão e os que voltam. Gente apressada, vendedores cansados, motoristas irritados. Os carros passam deixando rastros luminosos sobre o asfalto molhado pelo chuvisco fino que cai desde o começo da tarde. A água acumula nos buracos das calçadas e distorce as luzes da avenida como se a cidade estivesse derretendo lentamente.
Tenho vontade de gritar.
Gritar contra tudo isso que me separa dela. As pessoas com suas censuras morais, o marido com seus ciúmes, os olhares tortos, os comentários sussurrados nas esquinas. Tenho necessidade de me atordoar para não enxergar minha própria miséria incrustada no tempo que passa.
Porque detesto esperar.
— Mais uma com limão!
O garçom nem pergunta mais. Apenas serve. Talvez já tenha reconhecido em mim aquele tipo de homem que bebe não pelo gosto, mas pela tentativa inútil de apagar uma ausência.

As luzes de mercúrio começam a acender por toda a avenida. Uma após outra. Lentamente. Como velas acesas para um morto importante.
A cidade inteira me parece um grande velório.
Antigos sentimentos retornam à cabeça como relâmpagos violentos. Recordações quebradas. Risos dela ecoando em algum domingo distante. Seus dedos segurando um cigarro. O vestido amarelo balançando perto do cais. Depois, no final de tudo, sobra apenas angústia.
São Luís, ilha dos amores e desamores, eu te saúdo com toda a indiferença de um bêbado.
Rua 28 de Julho. Rua Grande. Rua Herculano Parga. Ruas que o tempo consome lentamente, como ferrugem mastigando ferro velho. Os azulejos portugueses grudados nas fachadas parecem guardar a umidade de séculos inteiros. Na meia-luz do começo da noite, refletem uma tristeza silenciosa.
As pessoas se arrastam entre sobrados antigos e monumentos cansados, restos de sonhos históricos de eternidade. Tudo aqui parece tentar sobreviver ao desaparecimento.
E eu continuo esperando.
— Outra com limão!
Mulher sacana.
Ela dança diante do meu pensamento como uma miragem debochada. Não compreendo essa força que me prende a ela, esse delírio absurdo, esse desejo que me ensurdece os ouvidos e cega meus olhos.
Já faço parte de uma tentativa que não deu certo.
Mesmo assim continuo imaginando seu corpo bronzeado se despindo lentamente para mim, como se o desejo fosse capaz de ressuscitar aquilo que a realidade matou há muito tempo.

Do outro lado da rua um mendigo atravessa a avenida arrastando os pés. A sola do sapato parece prestes a abandonar o resto do corpo. Ele caminha entre poças d’água e fumaça de ônibus como alguém que perdeu até o direito de chegar a algum lugar.
— Mais uma dose. A última.
Toda última dose é uma mentira.
Espero a juventude alegre de uma mulher. Espero o ritual acrobático e sensual de um amor impossível. Espero aquilo que já nasceu condenado ao fracasso.
A noite chegou.
E ela não veio.
Talvez tenha sido engolida por esse trânsito louco, violento e sem sentido. Talvez tenha mudado de ideia no último instante. Talvez nunca tenha pretendido vir.

Ou talvez eu apenas precise inventar desculpas para continuar sentado aqui.
Penso então que este mundo seria melhor se fosse menos mecânico e mais humano. Se os homens andassem devagar. Se o tempo tivesse paciência.
Imagino um país trocando o fusca pelo jegue.
Nada de filas em postos de gasolina. Nada de crise do petróleo. Acabaríamos com o Conselho Nacional do Petróleo e criaríamos a gloriosa Jeguebrás.
Os jornais anunciariam:
“Subiu o preço do capim.”
“Falta de jegues no Nordeste ameaça o carnaval.”
“O ministro promete novas estradas de barro.”
Imagino casais apaixonados passeando montados num jegue pela beira-mar. Não seria elegante, é verdade. Mas certamente seria mais romântico. O amor talvez sobrevivesse melhor em velocidades menores.
Dou risada sozinho.
O garçom me olha com pena.
Já não sei mais se estou sentado ou deitado. As vozes do bar começam a se misturar ao barulho distante dos carros. As luzes giram lentamente acima da minha cabeça.
Engraçado.
Parece que colocaram o mundo inteiro dentro de uma centrífuga.
E nem assim ela veio.