
Há Movimento
Um Poema Sobre Chuva, Tempo e Solidão
J.B. NETO
Hoje há movimento,
Como havia ontem,
no corpo deitado, aparentemente imóvel,
que ocupa o instante
da linda menina
com as pernas de fora.

Mas persiste a indiferença,
pois não há alegria no olhar
da linda menina
com as pernas de fora.

Nesta noite, como em tantas outras,
lágrimas silenciosas molham-lhe o rosto,
enquanto espera, na solidão,
Por alguém que não volta.

Da superfície dos lábios
nada mais é dito,
nada que mereça ser ouvido
Ao longo de uma vida.

E a menina continua,
na solidão aparente,
com as lindas pernas de fora,
a pele lisa, aderente,
guardando, sob o tempo,
um segredo que não se revela.

Da chuva que cai ligeira no chão,
como ligeira passas por mim,
sem que eu consiga deter-te,
Ferindo o meu enigma coração.

E eu, como um animal errante,
caminho simplesmente,
sem rumo, sem destino,
no amargo compasso da loucura.

Há movimento na inércia do tempo,
do malvado relógio que marca as horas,
indiferente à minha velhice,
à vida que escorre
sem jamais se despedir.

E tudo se alonga
na eternidade de um instante:
a noite, a espera, o silêncio,
a linda menina
com as pernas de fora.

Hoje há movimento,
Como havia ontem.