
O SIGNIFICADO SOCIOCULTURAL DOS ESPAÇOS, DA CASA E DA RUA E O MOVIMENTO FEMINISTA
A Inserção das Mulheres no Espaço Público Brasileiro
Resumo: Este artigo analisa o significado sociocultural das categorias “casa” e “rua” na sociedade brasileira, relacionando-as à divisão entre os espaços privado e público, às relações de gênero e à inserção histórica das mulheres na vida pública. Parte-se da interpretação de Roberto DaMatta, para quem casa e rua não constituem apenas lugares físicos, mas domínios morais, simbólicos e institucionais que organizam práticas, relações e valores sociais. A casa é compreendida como espaço de proteção, intimidade e pertencimento, mas também como ambiente marcado por hierarquias, desigualdades e, frequentemente, violência contra as mulheres. A rua, por sua vez, representa o espaço público, da circulação, do trabalho, da política, das manifestações e das disputas por reconhecimento. Entretanto, a separação entre esses domínios é relativa, pois valores patriarcais produzidos no âmbito doméstico também se projetam sobre as instituições, o mercado de trabalho e a vida política. O artigo discute a formação histórica do patriarcado, a experiência diferenciada de mulheres negras, indígenas e brancas durante a colonização e o Império, bem como as ondas do movimento feminista. Como exemplo da apropriação política da rua, examina-se a Marcha das Vadias realizada em Brasília em junho de 2013. Também são incorporados dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que demonstram a permanência das desigualdades de gênero no trabalho, na participação política e na violência doméstica. Conclui-se que a inserção das mulheres no espaço público brasileiro não significou o desaparecimento das desigualdades, mas a abertura de novas frentes de luta, negociação e transformação social.
Palavras-chave: Casa. Rua. Gênero. Patriarcado. Feminismo. Espaço público. Brasil.
1. Introdução
Os espaços que habitamos — a casa e a rua — nunca foram neutros. Eles carregam significados socioculturais que moldam comportamentos, delimitam papéis e revelam relações de poder. Historicamente, a casa foi associada ao espaço privado, ao cuidado e ao trabalho invisível das mulheres, enquanto a rua representava o espaço público, a política e a visibilidade masculina. O movimento feminista, ao questionar essas fronteiras, ressignifica ambos os ambientes: transforma a casa em lugar de reflexão e resistência, e a rua em palco de reivindicação e luta. Assim, compreender a dimensão simbólica desses espaços é essencial para entender como o feminismo reconfigura identidades e desafia estruturas sociais.

A relação entre a casa, a rua e o movimento feminista pode parecer, inicialmente, composta por temas distintos. A casa remete ao ambiente doméstico, familiar e privado; a rua é normalmente associada ao espaço público, à circulação e à convivência entre desconhecidos; o movimento feminista, por sua vez, refere-se à luta histórica das mulheres contra a desigualdade, a dominação e a exclusão. Contudo, quando esses três elementos são analisados de maneira articulada, torna-se possível compreender como as relações sociais de gênero são produzidas, reproduzidas e contestadas em diferentes espaços da vida brasileira.
A casa e a rua não são somente espaços geográficos. Elas também constituem categorias simbólicas e sociológicas por meio das quais a sociedade organiza práticas, expectativas, comportamentos e relações de poder. A casa é identificada como lugar de intimidade, proteção, afetividade e pertencimento. A rua, em oposição, costuma ser associada à impessoalidade, à circulação, à liberdade, ao trabalho, à política e ao conflito. Essa oposição, entretanto, não é absoluta. A casa depende da rua para existir socialmente, pois necessita de caminhos, serviços, instituições e relações públicas. A rua, por sua vez, é ocupada por casas, famílias, comércios, igrejas, escolas, fábricas, monumentos e outras edificações.
No Brasil, essa relação é particularmente importante porque a formação histórica da sociedade foi marcada por uma profunda confusão entre os interesses privados e os interesses públicos. O patrimonialismo, a herança patriarcal, o personalismo e as relações de favor contribuíram para a dificuldade de estabelecer uma separação clara entre aquilo que pertence à esfera coletiva e aquilo que pertence à esfera particular. Essa confusão também afetou as relações de gênero, pois a autoridade masculina construída no interior da família projetou-se sobre as instituições, o trabalho, a política e a ocupação das cidades.
A inserção das mulheres no espaço público deve, portanto, ser compreendida como um processo histórico de disputas. As mulheres não estiveram simplesmente ausentes da rua. Mulheres negras escravizadas e libertas trabalharam, circularam, comercializaram produtos e sustentaram famílias em diferentes momentos da história brasileira. Mulheres indígenas participaram de atividades econômicas e comunitárias, embora submetidas à violência colonial. Mulheres brancas das elites e dos grupos médios foram, em diversos períodos, submetidas a rígidos controles familiares, conjugais e morais. Assim, a experiência feminina no espaço público sempre foi marcada por diferenças de raça, classe, origem, condição jurídica e posição social.
O movimento feminista tornou visíveis essas desigualdades e questionou a ideia de que a divisão entre casa e rua seria natural. Ao reivindicar educação, trabalho, autonomia, direitos civis, participação política, liberdade sexual, proteção contra a violência e reconhecimento do trabalho doméstico, o feminismo deslocou questões antes consideradas privadas para o campo da discussão pública. A formulação “o pessoal é político” sintetiza essa transformação: problemas vividos no interior da casa passaram a ser compreendidos como questões sociais, jurídicas e políticas.
O objetivo deste artigo é discutir o significado sociocultural da casa e da rua no Brasil, relacionando essas categorias à construção das desigualdades de gênero e à inserção das mulheres no espaço público. Busca-se também compreender como o movimento feminista transformou a rua em lugar de manifestação, denúncia e reivindicação. Para isso, são mobilizadas contribuições de Roberto DaMatta, Sérgio Buarque de Holanda, Gerda Lerner e Carla Cristina Garcia, além de dados recentes do IBGE e do Ipea.
2. Casa e Rua como Categorias Socioculturais

Roberto DaMatta afirma que, para os brasileiros, “casa” e “rua” não designam simplesmente espaços físicos ou geográficos. Elas são entidades morais, esferas de ação social e domínios culturais dotados de significados próprios. A casa e a rua despertam emoções, reações, leis, orações, músicas e imagens porque representam formas distintas de organizar a vida social (DAMATTA, 1997).
A casa, nesse sentido, não é somente o local onde uma família reside. Ela é também um espaço de pertencimento, memória, afetividade e identidade. É nela que as pessoas aprendem valores, práticas, crenças, hierarquias e modos de comportamento. A casa aparece como lugar de proteção contra as intempéries, contra os perigos externos e contra “os de fora”, considerados desconhecidos ou indesejáveis. No ambiente doméstico, as relações tendem a ser apresentadas como pessoais, afetivas e baseadas na confiança.
A rua, em contrapartida, é normalmente definida como espaço público, aberto e orientado por normas gerais. Nela circulam pessoas que não necessariamente possuem laços de parentesco ou intimidade. A rua é associada à liberdade de locomoção, ao anonimato, ao trabalho, ao comércio, à política e à diversidade. É também o espaço dos conflitos, das disputas, das manifestações e da exposição pública.
Apesar dessa oposição simbólica, casa e rua encontram-se permanentemente integradas. Uma casa sem caminho ou acesso à rua torna-se praticamente inviável. Do mesmo modo, a rua não existe sem casas, instituições e atividades que lhe atribuem significado. A casa é uma dimensão privada inserida em uma estrutura pública mais ampla; a rua, por sua vez, é ocupada e interpretada por pessoas formadas no interior de suas casas.
Essa integração produz uma relação de continuidade entre o privado e o público. Valores domésticos, códigos de autoridade e hierarquias familiares não permanecem confinados às paredes da casa. Eles podem influenciar comportamentos no trabalho, na política, na religião, na escola e nas instituições públicas. Do mesmo modo, transformações ocorridas no espaço público podem modificar relações familiares, expectativas conjugais e formas de organização doméstica.
No caso brasileiro, a dificuldade de distinguir plenamente o público do privado está relacionada à formação histórica do Estado e das relações sociais. Sérgio Buarque de Holanda observa que, em uma sociedade marcada pela herança patriarcal, os detentores de funções públicas muitas vezes tiveram dificuldade de compreender a diferença entre os domínios particular e coletivo. Segundo o autor, para o funcionário patrimonial, a gestão política podia apresentar-se como assunto de interesse pessoal, e os cargos e benefícios públicos eram tratados como direitos privados (HOLANDA, 2014).
Essa herança ajuda a compreender tanto a apropriação indevida dos bens públicos quanto a permanência de práticas de favor, personalismo e autoridade particularista. A expressão popular “isso é do governo”, utilizada para justificar a destruição ou o mau uso de um bem coletivo, revela uma compreensão distorcida do patrimônio público. O bem público não pertence exclusivamente ao governo; pertence à coletividade. A rua, nesse caso, é percebida como algo sem dono, quando deveria ser compreendida como espaço de todos.
Essa dificuldade de reconhecer o caráter coletivo da rua também pode ser relacionada às desigualdades de gênero. Se a rua é percebida como espaço de ninguém, determinados grupos passam a ser considerados intrusos quando tentam ocupá-la. As mulheres, historicamente associadas à casa grande, foram frequentemente vistas como pessoas deslocadas quando circulavam sozinhas, trabalhavam, participavam da política ou expressavam opiniões em público.
3. A Casa, o Patriarcado e a Desigualdade

A casa também pode ser um espaço de desigualdade. Embora seja representada como lugar de proteção e afeto, ela pode abrigar relações de poder, controle e violência. A família não é uma instituição homogênea ou necessariamente igualitária. Dentro dela existem diferenças de idade, autoridade, dependência econômica, raça, gênero e posição social.
DaMatta chama a atenção para o fato de que a família pode ser apresentada como uma unidade integrada, embora seja internamente atravessada por conflitos e desigualdades. Essa observação é fundamental para compreender a condição das mulheres. A casa pode proteger, mas também pode controlar. Pode oferecer pertencimento, mas também pode limitar a autonomia. Pode ser lugar de afeto, mas também pode ocultar agressões, ameaças e abusos.
A análise de Gerda Lerner demonstra que o patriarcado não é apenas uma relação individual entre homens e mulheres. Trata-se de uma estrutura histórica sustentada por instituições como a família, a religião, a escola e as leis. De acordo com Lerner, o patriarcado ensinou que as mulheres seriam naturalmente inferiores e estabeleceu que o trabalho doméstico deveria ser realizado por elas sem remuneração e sem reconhecimento social (LERNER, 2019).
A divisão sexual do trabalho é um dos principais mecanismos de reprodução dessa desigualdade. Aos homens foram atribuídas atividades consideradas produtivas, públicas e remuneradas. Às mulheres foram destinadas tarefas domésticas, cuidados com crianças, idosos e doentes, preparação de alimentos e manutenção da casa. Essas atividades, embora fundamentais para a sobrevivência da sociedade, foram classificadas como obrigações naturais femininas.
A naturalização do trabalho doméstico produz consequências econômicas e simbólicas. Quando o trabalho realizado dentro de casa não é reconhecido como trabalho, a mulher aparece como dependente, mesmo quando dedica grande quantidade de tempo à manutenção da família. Além disso, a ausência de remuneração dificulta a autonomia financeira e pode aumentar a dependência em relação ao companheiro ou a outros familiares.
A casa patriarcal também regula os corpos e a sexualidade das mulheres. A autoridade masculina pode determinar com quem a mulher deve se relacionar, quando pode sair, como deve se vestir, onde pode trabalhar e quais comportamentos são considerados aceitáveis. A moralidade patriarcal costuma responsabilizar a mulher pela violência sofrida, associando sua roupa, sua sexualidade ou sua circulação pública à agressão cometida por homens.
Essa lógica transforma o corpo feminino em objeto de controle e exploração. A mulher é reduzida à função reprodutiva, ao cuidado do lar ou à disponibilidade sexual. Em situações extremas, o controle pode resultar em violência física, psicológica, sexual, patrimonial e feminicídio. Portanto, a casa não pode ser interpretada automaticamente como espaço de segurança. Para muitas mulheres, o espaço doméstico é justamente o local onde ocorre a maior parte das agressões.
Dados recentes confirmam essa contradição. O Atlas da Violência reúne informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade e do Sistema de Informações de Agravos de Notificação para analisar a violência no Brasil, incluindo a violência contra as mulheres (IPEA, 2025). Dados divulgados a partir desses levantamentos indicam que a residência permanece como um dos principais locais de ocorrência das agressões contra mulheres. Essa realidade demonstra que a oposição entre casa segura e rua perigosa precisa ser questionada.
4. A Rua, o Espaço Público e a Autoridade Masculina

A rua é frequentemente apresentada como espaço de liberdade, mas essa liberdade não é distribuída de maneira igualitária. Homens e mulheres ocupam a cidade de formas distintas. A circulação feminina é condicionada por horários, iluminação, transporte, presença de outras pessoas, medo da violência e risco de assédio. A possibilidade de transitar pela rua não é apenas uma questão de mobilidade física; é também uma questão de reconhecimento social e segurança.
Em muitas situações, a mulher que circula sozinha é submetida a julgamentos morais. Sua presença em determinados lugares pode ser interpretada como provocação, disponibilidade ou desvio dos padrões de comportamento considerados adequados. A rua, que deveria ser um espaço público comum, transforma-se em território marcado por vigilância sobre o corpo feminino.
A presença feminina no mundo do trabalho também revela essa desigualdade. As mulheres conquistaram maior participação em atividades profissionais e educacionais, mas continuam concentradas em ocupações menos valorizadas, recebem rendimentos inferiores e assumem parte significativa do trabalho doméstico. O IBGE organiza indicadores sobre trabalho, rendimento, educação, saúde, participação política, cargos gerenciais, uso do tempo e direitos humanos das mulheres (IBGE, 2024).
A edição de 2024 das Estatísticas de Gênero do IBGE utiliza dados de fontes como a PNAD Contínua, a Pesquisa Nacional de Saúde, o Censo, registros administrativos e informações do Tribunal Superior Eleitoral, do Congresso Nacional, do Conselho Nacional de Justiça e do Ministério da Saúde. O estudo demonstra que as desigualdades de gênero devem ser analisadas conjuntamente com raça, classe, deficiência, localização urbana ou rural e outras condições sociais.
Um exemplo expressivo está na participação em cargos gerenciais. Dados sistematizados pelo IBGE mostram que, em 2020, as mulheres ocupavam 37,4% dos cargos gerenciais, enquanto os homens ocupavam 62,6%. O número evidencia que a maior presença feminina no mercado de trabalho não significa igualdade no acesso às posições de comando (IBGE, 2020).
A situação é ainda mais desigual quando se considera raça. Mulheres negras enfrentam simultaneamente o sexismo e o racismo, além de maiores dificuldades de acesso a postos de maior remuneração e prestígio. O espaço público, portanto, não é homogêneo: mulheres diferentes ocupam posições diferentes e enfrentam obstáculos específicos.
A relação entre casa e rua também se manifesta na dupla jornada. A mulher pode trabalhar fora de casa e, ao retornar, continuar responsável pela maior parte das tarefas domésticas. Nesse sentido, a entrada na rua não elimina a obrigação doméstica; muitas vezes, apenas acrescenta novas responsabilidades às antigas. A conquista do emprego remunerado não representa, por si só, a superação da divisão sexual do trabalho.
5. Patriarcado, Colonialismo e Experiências Diferenciadas

A formação do patriarcado antecede a sociedade capitalista e a propriedade privada moderna. Gerda Lerner argumenta que a apropriação masculina da capacidade sexual e reprodutiva das mulheres ocorreu antes da formação da propriedade privada e da sociedade de classes. Para a autora, o estabelecimento do patriarcado foi um processo longo, desenvolvido ao longo de aproximadamente 2.500 anos, entre 3100 e 600 a.C. (LERNER, 2019).
Essa perspectiva permite compreender que a dominação masculina não surgiu de um único acontecimento. Ela foi construída por meio de práticas, instituições, leis, crenças religiosas, normas familiares e representações culturais. Ao longo do tempo, essas estruturas foram naturalizadas e passaram a ser apresentadas como se fossem resultado de diferenças biológicas inevitáveis.
No Brasil, o patriarcado foi articulado ao colonialismo, à escravidão e ao racismo. A sociedade colonial organizou-se a partir de uma estrutura extremamente desigual, na qual a casa-grande simbolizava o poder senhorial, enquanto a senzala expressava a exploração e a desumanização da população escravizada. As mulheres negras e indígenas estiveram submetidas a formas específicas de violência, exploração do trabalho e controle de seus corpos.
As mulheres negras escravizadas eram utilizadas no trabalho doméstico, agrícola, sexual e reprodutivo. Sua maternidade podia ser controlada pelos proprietários, e seus vínculos familiares eram constantemente ameaçados pela venda, separação e violência. Mesmo após a abolição, a desigualdade racial continuou a limitar o acesso dessas mulheres à educação, à propriedade, à proteção legal e a empregos valorizados.
Ao mesmo tempo, as mulheres brancas pertencentes às elites também estavam submetidas à autoridade patriarcal. Eram frequentemente controladas pelos pais, maridos ou outros homens da família. Sua posição social podia oferecer privilégios raciais e econômicos, mas não eliminava sua subordinação de gênero. Muitas eram educadas para o casamento, a maternidade e a administração doméstica, com reduzida autonomia sobre sua vida pública.
Essas experiências não devem ser confundidas. As mulheres negras enfrentaram a exploração do trabalho, a violência racial, a pobreza e a desumanização, enquanto as mulheres brancas das elites estavam submetidas principalmente ao controle familiar e à exclusão da vida pública. Entretanto, essas experiências coexistiram dentro do mesmo sistema patriarcal e colonial.
Por isso, não existe uma única experiência feminina no Brasil. O feminismo precisa considerar as diferenças entre mulheres negras, indígenas, brancas, trabalhadoras rurais, mulheres das periferias, mulheres com deficiência, mulheres migrantes e mulheres pertencentes às elites. As demandas podem convergir, mas não são idênticas.
A mulher negra, por exemplo, esteve historicamente mais presente no espaço público por necessidade de sobrevivência. Durante o período colonial e imperial, mulheres negras escravizadas ou libertas trabalhavam como vendedoras, quitandeiras, lavadeiras, cozinheiras, amas de leite e prestadoras de serviços. Muitas sustentavam suas famílias e, em alguns casos, exerciam a chefia do domicílio.
Essa presença pública não significava liberdade plena. A circulação podia ser acompanhada de exploração, violência, racismo e sexualização. Ainda assim, a experiência das mulheres negras revela que a associação entre mulher e casa nunca foi universal. Para muitas delas, a rua era simultaneamente lugar de trabalho, sobrevivência, risco e autonomia relativa.
6. A Formação Histórica do Movimento Feminista

A luta das mulheres contra a desigualdade não é recente. Embora o termo feminismo tenha adquirido sentidos específicos em diferentes períodos, mulheres de várias sociedades questionaram sua subordinação, defenderam educação, denunciaram abusos e reivindicaram participação política.
Carla Cristina Garcia organiza a história do feminismo em grandes períodos. A autora identifica um feminismo pré-moderno, no qual aparecem as primeiras manifestações da polêmica feminista; um feminismo moderno ou primeira onda, relacionado à obra de Poulain de la Barre e às mulheres da Revolução Francesa; uma segunda onda associada aos movimentos sociais do século XIX; e um feminismo contemporâneo ou terceira onda, vinculado aos movimentos das décadas de 1960 e 1970 e às tendências surgidas no final dos anos 1980 (GARCIA, 2011).
Essa divisão em ondas é útil porque permite observar mudanças nas pautas, nas organizações e nas estratégias de mobilização. Contudo, ela não deve ser aplicada de maneira rígida ou exclusivamente europeia. As mulheres negras, indígenas e trabalhadoras desenvolveram formas próprias de resistência que nem sempre aparecem nas narrativas tradicionais do feminismo.
A primeira onda esteve associada sobretudo à reivindicação de direitos civis e políticos, como educação, propriedade, participação eleitoral e reconhecimento jurídico. A segunda onda ampliou o debate para o trabalho, a sexualidade, a reprodução, o casamento, a violência e a divisão doméstica. A terceira onda questionou a ideia de uma mulher universal e destacou as diferenças de raça, classe, sexualidade e nacionalidade.
No Brasil, as reivindicações feministas também se relacionaram às transformações sociais e políticas do país. Mulheres participaram de movimentos abolicionistas, educacionais, trabalhistas, sufragistas e democráticos. Durante a ditadura militar, muitas atuaram na resistência política e na defesa dos direitos humanos. Posteriormente, as lutas feministas contribuíram para a criação de políticas públicas de enfrentamento à violência e para a ampliação da participação das mulheres na vida institucional.
O feminismo também modificou o significado da casa. Questões antes consideradas privadas, como violência conjugal, estupro no casamento, divisão do trabalho doméstico e controle reprodutivo, passaram a ser discutidas publicamente. Essa transformação foi decisiva para que o Estado reconhecesse a necessidade de políticas de proteção e responsabilização dos agressores.
A luta feminista não consiste apenas em levar mulheres para a rua. Ela também busca transformar as relações existentes dentro da casa. O objetivo é que a casa deixe de ser um espaço de obediência e controle e se torne um espaço de convivência, cuidado compartilhado, respeito e autonomia.
7. A Rua como Espaço de Manifestação Feminista

A rua é um dos principais espaços de expressão do movimento feminista. Marchas, protestos, vigílias, intervenções artísticas, performances e campanhas públicas transformam a cidade em lugar de denúncia e reivindicação. Ao ocupar a rua, as mulheres afirmam que seus corpos, suas vozes e suas experiências fazem parte da vida pública.
Um exemplo significativo ocorreu em Brasília, em junho de 2013, com a realização da Marcha das Vadias. A manifestação reuniu cerca de 3 mil pessoas, segundo estimativas divulgadas pela imprensa e pela Polícia Militar. O grupo partiu das proximidades do Conjunto Nacional, percorreu áreas centrais da cidade e seguiu em direção ao Eixo Monumental e à Torre de TV. A manifestação reuniu mulheres, homens, famílias e crianças e foi considerada pacífica pelas autoridades (CORREIO BRAZILIENSE, 2013).
A Marcha das Vadias surgiu como resposta a discursos que responsabilizavam as mulheres pela violência sexual com base em suas roupas ou comportamentos. O próprio uso da palavra “vadia” pretendia inverter um insulto utilizado para controlar a sexualidade feminina. Ao ocupar a rua, as manifestantes questionavam a associação entre liberdade feminina e desvio moral.
A marcha também expressava uma disputa pelo direito de circular. A cidade, os transportes, as praças e os monumentos deixavam de ser espaços neutros e passavam a ser compreendidos como territórios atravessados por relações de poder. A presença das manifestantes interrompia o fluxo cotidiano e chamava a atenção para problemas que muitas vezes permaneciam invisíveis.
O protesto também demonstrava que a rua pode ser apropriada para produzir novas narrativas. A mulher deixa de aparecer apenas como vítima, objeto de desejo ou figura doméstica e passa a ser sujeito político. O corpo, que anteriormente era regulado por normas patriarcais, transforma-se em instrumento de expressão e contestação.
Entretanto, a ocupação da rua não elimina os riscos. Mulheres que protestam podem sofrer assédio, violência, ridicularização e tentativas de deslegitimação. A própria necessidade de organizar manifestações para afirmar o direito de circulação demonstra que esse direito ainda não é plenamente garantido.
A Marcha das Vadias também revela a conexão entre escalas locais e globais. O movimento dialoga com mobilizações feministas de diferentes países, mas assume características próprias em cada cidade. Em Brasília, a manifestação adquiriu significados relacionados à arquitetura monumental, à centralidade política da cidade, aos protestos de 2013 e às disputas em torno dos direitos sexuais e reprodutivos.
8. Dados Atuais e Permanências da Desigualdade

A análise sociocultural da casa e da rua precisa ser complementada por dados estatísticos. O IBGE destaca que as desigualdades de gênero aparecem em diferentes dimensões: trabalho, renda, educação, saúde, vida pública, tomada de decisão, segurança, direitos humanos e uso do tempo (IBGE, 2024).
A publicação Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil foi organizada a partir do Conjunto Mínimo de Indicadores de Gênero das Nações Unidas. O estudo reúne indicadores quantitativos e qualitativos e procura observar as condições de vida das mulheres de maneira ampla. Também busca desagregar os dados por cor ou raça, localização, deficiência e outros fatores que produzem desigualdades.
Esses dados demonstram que o acesso à educação não se converte automaticamente em igualdade econômica e política. As mulheres brasileiras ampliaram sua escolaridade e sua presença no mercado de trabalho, mas permanecem sub-representadas em cargos de liderança e recebem rendimentos menores em diversas ocupações.
A desigualdade é ainda mais acentuada para mulheres pretas ou pardas. Dados do IBGE indicam que a cor ou raça influencia o acesso a posições gerenciais e a remunerações mais elevadas. A intersecção entre gênero e raça limita oportunidades e reforça a concentração de mulheres negras em trabalhos domésticos, informais, precários e mal remunerados.
No campo político, a participação feminina também continua inferior à masculina. A presença de mulheres em parlamentos, governos e órgãos decisórios aumentou ao longo do tempo, mas ainda não corresponde à proporção de mulheres na população. Essa sub-representação significa que decisões sobre orçamento, saúde, educação, segurança, trabalho e planejamento urbano continuam sendo tomadas majoritariamente por homens.
A cidade também é construída a partir de desigualdades de gênero. Transporte público, iluminação, calçadas, segurança, creches e equipamentos de saúde afetam de modo diferente homens e mulheres. Uma mulher que precisa conciliar trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidados familiares pode depender de longos deslocamentos e enfrentar maiores riscos no trajeto.
A violência constitui outra dimensão central. A casa, que deveria ser o espaço da proteção, pode ser o local de agressões praticadas por companheiros, familiares ou pessoas próximas. A rua, por sua vez, pode ser cenário de assédio, violência sexual, perseguição e discriminação. A separação entre violência doméstica e violência pública não deve ocultar sua origem comum em relações de poder e controle sobre o corpo feminino.
O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, utiliza dados oficiais de mortalidade e notificações de saúde para analisar a violência no país (IPEA, 2025). A importância desse tipo de publicação está em demonstrar que a violência contra as mulheres não é apenas um problema privado ou familiar, mas uma questão de saúde pública, segurança, justiça e direitos humanos.
9. Casa e Rua: Uma Relação em Transformação

A oposição entre casa e rua não deve ser entendida como separação absoluta. Esses espaços são interdependentes e se transformam mutuamente. A casa é atravessada por normas públicas, políticas sociais, relações econômicas e instituições jurídicas. A rua, por sua vez, é marcada por valores aprendidos na família, na escola, na religião e em outros espaços de socialização.
O movimento feminista atua justamente nessa zona de contato. Ao denunciar a violência doméstica, transforma um problema familiar em questão pública. Ao reivindicar creches, transporte seguro e divisão das tarefas domésticas, mostra que a vida privada depende de políticas públicas. Ao ocupar ruas e praças, demonstra que o espaço público deve ser acessível a todos.
A transformação da casa exige a redistribuição do cuidado. Não basta permitir que as mulheres trabalhem fora se continuam sendo responsabilizadas quase sozinhas pelas tarefas domésticas. É necessário reconhecer que o cuidado é uma responsabilidade social compartilhada entre homens, mulheres, famílias, empregadores e Estado.
A transformação da rua exige segurança, mobilidade, iluminação, transporte acessível e combate ao assédio. Também requer mudanças culturais que reconheçam as mulheres como sujeitos autônomos, não como corpos disponíveis ou pessoas que precisam de autorização masculina para circular.
A democracia depende dessa transformação. Uma sociedade não pode ser considerada plenamente democrática se metade da população encontra obstáculos para participar da política, trabalhar, circular, ocupar cargos de liderança ou viver sem violência. A democracia deve alcançar tanto as instituições públicas quanto as relações familiares.
A relação entre casa e rua também precisa ser pensada de maneira interseccional. Mulheres negras, indígenas, pobres, com deficiência, lésbicas, trans e moradoras de periferias enfrentam obstáculos específicos. Uma política pública universal pode ser insuficiente se não considerar as desigualdades concretas que organizam a experiência social.
10. Considerações Finais

A casa e a rua são categorias socioculturais fundamentais para compreender a sociedade brasileira. Elas não são apenas espaços físicos, mas domínios morais, simbólicos e políticos que organizam relações de pertencimento, autoridade, proteção, conflito e circulação.
A casa representa intimidade, memória, afeto e proteção, mas também pode reproduzir hierarquias patriarcais e ocultar violências. A rua simboliza liberdade, anonimato, trabalho, política e participação, mas permanece atravessada por desigualdades que limitam a circulação e a autonomia das mulheres.
A formação histórica brasileira produziu uma forte interpenetração entre o privado e o público. A autoridade patriarcal construída na família projetou-se sobre o Estado, o mercado de trabalho, as instituições e a organização urbana. A distinção entre público e privado foi frequentemente confundida por relações de favor, personalismo e patrimonialismo.
A inserção das mulheres no espaço público ocorreu de maneira desigual. Mulheres negras e indígenas estiveram presentes em atividades de trabalho e sobrevivência desde o período colonial, mas essa presença foi marcada pela exploração e pela violência. Mulheres brancas das elites foram submetidas a formas distintas de controle familiar e exclusão política. Essas experiências não são equivalentes, mas fazem parte de uma estrutura histórica de dominação patriarcal e colonial.
O movimento feminista questionou a ideia de que a mulher deveria permanecer restrita à casa. Ao reivindicar educação, trabalho, direitos civis, participação política, liberdade sexual e proteção contra a violência, o feminismo transformou a condição feminina em questão pública. A frase “o pessoal é político” expressa essa passagem: relações vividas no interior da casa passaram a ser interpretadas como problemas sociais e institucionais.
A Marcha das Vadias de Brasília, realizada em junho de 2013, exemplifica a apropriação da rua como espaço de manifestação. A presença de aproximadamente 3 mil pessoas demonstrou que a cidade pode ser utilizada para denunciar o machismo, questionar a culpabilização das vítimas e reivindicar autonomia sobre o corpo.
Os dados do IBGE e do Ipea mostram, contudo, que a inserção das mulheres no espaço público ainda não significou igualdade. Persistem desigualdades no trabalho, na renda, nos cargos de liderança, na representação política, na divisão do cuidado e na segurança. A casa continua sendo local de violência para muitas mulheres, enquanto a rua permanece marcada por assédio, medo e restrições à circulação.
A superação dessas desigualdades exige transformar simultaneamente a casa e a rua. É necessário construir relações domésticas baseadas na igualdade, redistribuir o trabalho de cuidado, ampliar a participação política, garantir condições de mobilidade e combater todas as formas de violência. A luta feminista continua sendo indispensável porque questiona não apenas a presença ou ausência das mulheres nos espaços públicos, mas as próprias regras que definem quem pode circular, falar, decidir e ser reconhecido como sujeito.
Referências
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: página do IBGE sobre Estatísticas de Gênero. Acesso em: 13 set. 2026.
CORREIO BRAZILIENSE. “Marcha das Vadias” mobiliza três mil pessoas pelas ruas de Brasília. Brasília, 22 jun. 2013. Disponível em: Correio Braziliense. Acesso em: 13 set. 2026.
DAMATTA, Roberto. A casa & a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
GARCIA, Carla Cristina. Breve história do feminismo. São Paulo: Claridade, 2011.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 27. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
IPEA; FBSP. Atlas da violência 2025. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025. Disponível em: Repositório do Ipea. Acesso em: 13 set. 2026.
LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. São Paulo: Cultrix, 2019.
Autor e pesquisador: Josué Barros Neto
Área de conhecimento: Ciências Sociais
Disciplina: Antropologia Brasileira
Organização: Centro de Estudos Históricos Antropológico Sociocultural – CEHASC