
ENTRE MAGIA E MECANICISMO: CURADORES, BARBEIROS-CIRURGIÕES
E A DISPUTA PELO SABER MÉDICO NA EUROPA MODERNA (SÉCULOS XVI–XVIII)
Resumo: Este artigo analisa as transformações da medicina europeia entre os séculos XVI e XVIII, com ênfase nas relações entre medicina erudita, práticas populares de cura, barbeiros-cirurgiões e instituições de controle religioso. O objetivo é revisar criticamente a interpretação de que a medicina moderna teria surgido por uma ruptura linear entre superstição e ciência. A pesquisa é bibliográfica e histórico-documental, articulando estudos sobre Portugal, Inglaterra, França e a circulação europeia de saberes médicos. O caso português recebe atenção especial porque os processos da Inquisição contra curandeiros e saludadores (antigos curandeiros ou benzedores que, nos séculos passados na Espanha e em Portugal, afirmavam ter poderes sobrenaturais de cura), sobretudo entre 1715 e 1770, evidenciam a sobreposição entre ortodoxia religiosa, concorrência profissional e construção de novas autoridades científicas. A análise também examina a posição ambivalente dos barbeiros-cirurgiões: embora fossem frequentemente desqualificados como trabalhadores manuais, sua experiência com ferimentos, sangrias, extrações e amputações contribuiu para a constituição da cirurgia moderna. Andreas Vesalius e Ambroise Paré são discutidos como exemplos de uma transição na qual observação, experiência, impressão e autoridade textual coexistiram. Argumenta-se que a profissionalização médica não eliminou imediatamente as curas populares nem substituiu de uma só vez o galenismo, mas reorganizou hierarquias de conhecimento, acesso e legitimidade. Conclui-se que a história da medicina moderna deve ser compreendida como processo de disputa institucional e epistemológica, no qual a produção da verdade médica esteve ligada tanto à experimentação quanto à exclusão de determinados agentes e práticas.
Palavras-chave: história da medicina; medicina popular; Inquisição portuguesa; barbeiros-cirurgiões; profissionalização; Europa moderna.
1 INTRODUÇÃO

A medicina europeia dos séculos XVI, XVII e XVIII costuma ser apresentada como uma trajetória ascendente que teria conduzido da superstição à racionalidade científica. Nessa narrativa, a Renascença teria recuperado a observação, a Revolução Científica teria substituído cosmologias antigas por explicações mecânicas e o Iluminismo teria consolidado a medicina experimental. Embora contenha elementos verdadeiros, essa sequência é insuficiente. Ela transforma um processo irregular, conflituoso e socialmente desigual em uma história de progresso automático. Também tende a tratar como irracionais práticas que, para diferentes grupos sociais, constituíam formas concretas de cuidado, proteção e interpretação da doença.
O problema central deste artigo é compreender como diferentes agentes disputaram o direito de definir o que era uma cura legítima na Europa moderna. A questão envolve, simultaneamente, ideias sobre o corpo, formas de tratamento, posições sociais e mecanismos de autoridade. Médicos formados em universidades, cirurgiões, barbeiros, parteiras, boticários, clérigos e curandeiros atuavam em um mesmo espaço social, mas não possuíam o mesmo prestígio, acesso institucional ou capacidade de registrar e impor suas versões dos fatos.
O estudo concentra-se em três eixos. O primeiro diz respeito às práticas populares, muitas vezes classificadas como mágicas ou supersticiosas, que funcionavam como uma rede de cuidado em regiões com escassez de médicos. O segundo examina os barbeiros-cirurgiões, cuja atuação evidencia a proximidade entre o saber manual e a produção de inovações práticas. O terceiro analisa a Inquisição portuguesa como instituição de controle que, ao perseguir determinados curandeiros, articulou preocupações religiosas, políticas e profissionais.
A hipótese defendida é que a medicina moderna não nasceu simplesmente quando a ciência derrotou a magia. Ela foi produzida por uma reordenação gradual das fronteiras entre saberes, na qual procedimentos empíricos foram incorporados, práticas concorrentes foram deslegitimadas e determinados profissionais passaram a controlar diplomas, tribunais, hospitais e espaços de ensino. O caso português é especialmente útil porque permite observar que a repressão inquisitorial não agiu de maneira isolada. Conforme a pesquisa de Timothy Walker, a perseguição aos curandeiros ocorreu em um momento de crescimento da presença de médicos e cirurgiões profissionalmente formados junto ao aparelho inquisitorial.
A abordagem adotada é bibliográfica e histórico-documental. Foram consultados estudos especializados sobre a Inquisição portuguesa, a medicina popular, a cirurgia europeia e a reforma do ensino médico. Também foram utilizadas fontes institucionais para verificar marcos da organização profissional dos cirurgiões ingleses e publicações acadêmicas sobre Ambroise Paré e a tradição anatômica associada a Vesalius. A utilização de fontes recentes não significa projetar categorias contemporâneas sobre o passado. Ao contrário, permite revisar afirmações simplificadoras e distinguir evidências documentais de interpretações retrospectivas.
2 MEDICINA, SOCIEDADE E PLURALIDADE DE SABERES

Entre os séculos XVI e XVIII, a palavra “medicina” não designava um sistema homogêneo. Havia uma medicina universitária baseada em textos clássicos, uma medicina prática desenvolvida em hospitais e campos de batalha, uma farmácia vinculada a boticários e uma ampla variedade de terapias domésticas, religiosas e comunitárias. O galenismo, baseado na autoridade de Galeno e na teoria dos humores, continuava influente, embora fosse reinterpretado e contestado. A sua permanência não deve ser entendida como simples ausência de pensamento crítico. O galenismo oferecia uma linguagem sistemática para explicar febres, desequilíbrios corporais, dietas, sangrias e propriedades dos medicamentos.
A chamada Revolução Científica também não produziu uma troca instantânea de modelos. Estudos sobre o período mostram a convivência entre observação, astrologia, alquimia, filosofia natural, religião e mecanicismo. A própria história das ideias científicas evidencia que autores posteriormente considerados fundadores da ciência moderna trabalhavam em contextos intelectuais ainda marcados por correspondências entre corpo, cosmos e forças naturais. Por isso, o contraste entre magia e ciência deve ser utilizado com cautela. Em muitos casos, a categoria “magia” foi aplicada posteriormente por adversários que buscavam desqualificar uma prática ou por historiadores que adotaram a linguagem dos vencedores.
A pluralidade também se explicava pelas condições concretas de acesso à saúde. Médicos licenciados eram mais numerosos em centros urbanos, portos, cortes e regiões economicamente dinâmicas. Em aldeias e áreas rurais, famílias recorriam a parteiras, curandeiros, cirurgiões práticos, boticários e redes de ajuda doméstica. A resenha da investigação de Walker, publicada em periódico da área de saúde coletiva, destaca que muitas localidades rurais portuguesas não contavam com o número de médicos previsto pela legislação. A ausência de atendimento regular não era um detalhe administrativo. Ela criava a necessidade social de agentes capazes de oferecer cuidados imediatos, ainda que sem formação universitária.
Nesse contexto, uma benzedura, uma oração, uma dieta, uma infusão ou um ritual não pode ser analisado apenas pela pergunta contemporânea sobre sua eficácia biomédica. É necessário perguntar que problema a prática procurava resolver, quem a realizava, quais substâncias utilizava, como era transmitida e por que determinada comunidade confiava nela. Algumas práticas possuíam dimensão simbólica e religiosa evidente. Outras incorporavam conhecimento acumulado sobre plantas, alimentação, partos, feridas e doenças infantis. Muitas reuniam essas dimensões sem considerar que houvesse uma contradição entre o ritual e o remédio.
A medicina erudita também não estava separada de crenças e procedimentos hoje considerados não científicos. A astrologia médica, a teoria dos humores, o uso de amuletos e a crença em propriedades ocultas da natureza atravessavam diferentes níveis da cultura letrada. A distinção entre “ciência” e “superstição” foi, portanto, historicamente construída. Ela ganhou força à medida que grupos profissionais passaram a definir critérios de credenciamento, linguagem especializada e formas autorizadas de prova.
3 CURAS POPULARES, SALUDADORES E A INQUISIÇÃO PORTUGUESA

A pesquisa de Timothy Walker constitui uma referência indispensável para compreender as curas populares em Portugal durante o Iluminismo. O autor examinou documentação preservada em arquivos de Lisboa, Évora e Londres, além dos registros dos três tribunais regionais da Inquisição portuguesa. Segundo a síntese publicada por Menezes, esse conjunto documental compreende mais de quarenta mil casos, embora o recorte específico sobre magia e cura popular seja mais restrito. A pesquisa desloca o foco de uma história abstrata da bruxaria para os conflitos concretos entre curandeiros, pacientes, médicos, cirurgiões, denunciantes e agentes inquisitoriais.
Um dado importante é a cronologia. Os processos por feitiçaria aumentaram no final do século XVII e alcançaram um pico por volta de 1750. Entre 1715 e 1770, mais de quinhentas pessoas acusadas de feitiçaria foram julgadas pelos tribunais da Inquisição portuguesa, sem que nenhum dos acusados fosse executado. Esses números qualificam a imagem de uma perseguição portuguesa idêntica às caças às bruxas de outras regiões europeias. A repressão foi real, mas assumiu formas específicas, frequentemente relacionadas a penas, banimentos, penitências e vigilância.
O termo saludador designava, no contexto português do século XVIII, um tipo de praticante associado a curas populares. A atuação desses agentes podia incluir orações, benzeduras, dietas, remédios caseiros e tratamentos baseados na experiência. O caso de Joana Baptista, apresentado na análise de Walker, é ilustrativo: parteira e cuidadora de crianças, ela utilizava uma oração e um ritual conhecidos como “rosca de três Marias”. Sua trajetória demonstra que a acusação não atingia apenas personagens masculinos associados à imagem literária da bruxa. Mulheres pobres, jovens, casadas, parteiras e migrantes também estavam expostas à criminalização.
A perseguição não pode ser explicada exclusivamente por intolerância religiosa. As acusações eram formuladas em linguagem religiosa, mas os conflitos envolviam concorrência por clientela e reconhecimento. A partir do final do século XVII e, principalmente, no século XVIII, médicos e cirurgiões com formação universitária passaram a buscar posições que lhes conferiam prestígio e privilégios junto à Inquisição. Walker sustenta que a atuação desses profissionais contribuiu para uma supressão sistemática de formas populares de cura. Isso não significa que todos os médicos tenham participado da repressão ou que a Inquisição tenha sido apenas um instrumento corporativo. Significa que as instituições religiosas podiam ser mobilizadas por interesses profissionais em transformação.
Essa interação produziu um paradoxo. O Iluminismo valorizava a investigação da natureza e criticava explicações consideradas supersticiosas. Ao mesmo tempo, em Portugal, a exclusão de certos curadores ocorreu por meio de um tribunal religioso. A promoção da modernidade médica não foi necessariamente acompanhada por instituições modernas no sentido liberal ou secular. A definição do conhecimento válido podia depender de mecanismos disciplinares tradicionais.
É importante evitar uma conclusão exagerada. A Inquisição não eliminou as curas populares em Portugal. A própria pesquisa de Walker indica que esses agentes continuaram atuando. A repressão alterou sua visibilidade, seus riscos e sua relação com as comunidades, mas não dissolveu a demanda social que os sustentava. Onde o médico era escasso, caro ou inacessível, a medicina popular continuava a desempenhar funções práticas. A sobrevivência dessas práticas mostra que a autoridade institucional não se converte automaticamente em autoridade social.
4 BARBEIROS-CIRURGIÕES: SABER MANUAL E HIERARQUIA PROFISSIONAL

Os barbeiros-cirurgiões ocupavam uma posição intermediária e ambígua. Eles cortavam cabelos e barbas, realizavam sangrias, extraíam dentes, tratavam feridas, aplicavam ventosas e, em certos contextos, participavam de amputações. A reunião dessas atividades não deve ser interpretada como sinal de confusão profissional absoluta. Ela expressava a organização corporativa e econômica de um período em que os serviços relacionados ao corpo estavam distribuídos entre ofícios próximos.
A cirurgia dependia de habilidades manuais. Era preciso manejar lâminas, controlar sangramentos, suturar, preparar instrumentos e reconhecer alterações visíveis nos tecidos. Entretanto, a cultura universitária frequentemente associava o trabalho manual a um status inferior. Médicos que se dedicavam ao diagnóstico e à teoria buscavam preservar uma distância social em relação aos profissionais que tocavam diretamente o sangue e a carne. Essa hierarquia não era apenas simbólica. Ela influenciava remuneração, acesso a cargos, autorização para exercer a profissão e capacidade de publicar.
Ambroise Paré exemplifica a tensão entre formação prática e autoridade acadêmica. Segundo Drucker, Paré começou como barbeiro-cirurgião e desenvolveu parte decisiva de sua experiência no atendimento a feridos de guerra. Em 1537, durante o cerco de Turim, teria abandonado o tratamento convencional de feridas por projéteis com óleo fervente e cauterização quando ficou sem a substância. Utilizou uma mistura mais suave, baseada em gema de ovo, óleo de rosas e terebintina, e observou melhores condições nos pacientes tratados. O episódio é importante não porque prove a existência de uma medicina moderna pronta, mas porque mostra a capacidade da experiência comparativa de questionar uma autoridade estabelecida.
Paré também contribuiu para difundir técnicas de ligadura em amputações, tratamentos de feridas e procedimentos destinados a reduzir o sofrimento. Seu princípio não era simplesmente rejeitar toda a tradição. Ele conhecia o galenismo, utilizava conceitos de sua época e construiu sua autoridade a partir da combinação entre observação, prática, escrita e reconhecimento institucional. Sua escolha de publicar em francês, em vez de restringir-se ao latim, ampliou o alcance de seus textos entre outros barbeiros-cirurgiões e profissionais práticos.
A experiência de Paré demonstra que inovação e profissionalização não foram fenômenos exclusivamente universitários. O campo de batalha, o hospital e a oficina também produziram conhecimento. Ao mesmo tempo, a publicação de livros e a incorporação gradual de práticas experimentais permitiram que certas experiências fossem reclassificadas como ciência. O reconhecimento não dependia apenas de ter observado um procedimento, mas de registrar, explicar, ilustrar e inserir a observação em uma rede de autoridade.
A transformação anatômica associada a Andreas Vesalius constitui outro marco. A publicação de De humani corporis fabrica em 1543 reforçou a importância da dissecação e da observação direta do corpo. Vesalius criticou erros atribuídos à anatomia galênica e defendeu uma relação mais próxima entre ensino, imagem e manipulação do cadáver. Todavia, a mudança não eliminou imediatamente a autoridade textual. A obra de Vesalius ainda dialogava com autores antigos, e a própria possibilidade de dissecar dependia de permissões, instituições e circunstâncias sociais específicas.
A história inglesa confirma o caráter gradual da separação profissional. A Company of Barber-Surgeons, estabelecida em Londres em 1540, funcionava como corporação de ofício, formando aprendizes e examinando candidatos. Em 1745, uma lei parlamentar dividiu barbeiros e cirurgiões em duas entidades, a pedido dos próprios cirurgiões. A nova Corporation of Surgeons criou um espaço com teatro anatômico próximo à prisão de Newgate, onde cadáveres de criminosos executados podiam ser utilizados para ensino e dissecação. Esse episódio demonstra que a profissionalização dependia de instituições, legislação, cadáveres disponíveis e recursos de ensino.
A separação de 1745 não deve ser descrita apenas como vitória do conhecimento científico sobre o artesanato. Ela também ampliou a distinção social entre profissões. O cirurgião procurou elevar seu estatuto aproximando-se do médico e afastando-se do barbeiro. A separação foi, portanto, técnica, institucional e simbólica. O trabalho manual passou a ser legitimado quando acompanhado de formação, exames, literatura e associação corporativa.
5 DO GALENISMO À OBSERVAÇÃO: CONTINUIDADES E RUPTURAS

A transformação da medicina europeia envolveu mudanças nas formas de prova. Durante um longo período, o conhecimento médico era validado por uma combinação de autoridade textual, tradição, experiência clínica e coerência filosófica. Entre os séculos XVI e XVIII, observações, instrumentos, dissecações, relatos de casos e experimentos adquiriram maior peso. Isso não significou que os livros deixaram de importar. A novidade foi a reorganização da relação entre texto e experiência.
O galenismo continuou a fornecer categorias explicativas, mas seus conteúdos foram revisados. A anatomia de Vesalius contestou descrições antigas; a cirurgia de Paré valorizou resultados observados; botânicos e boticários ampliaram o repertório de substâncias; hospitais e exércitos produziram situações de comparação. A crítica às tradições ocorreu por dentro de práticas concretas e não mediante uma simples decisão filosófica.
O mecanicismo também deve ser tratado como uma linguagem em construção. Ele ajudou a interpretar o corpo como estrutura, movimento e funcionamento, mas coexistiu com teorias dos humores, concepções religiosas e explicações de propriedades ocultas. A passagem do hermetismo ao mecanicismo não foi abrupta. Ela envolveu traduções, apropriações e conflitos entre diferentes maneiras de definir a natureza.
A centralidade da observação teve, contudo, efeitos sociais ambíguos. De um lado, abriu espaço para a correção de erros e para o aperfeiçoamento de técnicas. De outro, a linguagem da experiência podia ser monopolizada por grupos letrados que decidiam quais observações eram dignas de crédito. A prática de uma parteira, de um curandeiro ou de um barbeiro podia ser aproveitada, mas o reconhecimento final tendia a ser atribuído ao médico ou ao cirurgião diplomado que a registrava e classificava.
Esse processo revela uma diferença entre produção e legitimação do conhecimento. Pessoas sem títulos podiam produzir observações válidas, desenvolver técnicas e acumular conhecimento terapêutico. Porém, universidades, academias, tribunais e corporações tinham maior capacidade de transformar esse conhecimento em autoridade pública. A modernização da medicina, portanto, não se limitou à descoberta de novas técnicas. Ela envolveu o controle dos meios de validação.
6 PORTUGAL, REFORMAS E LIMITES DA IDEIA DE “ATRASO”

O caso português frequentemente é descrito em termos de atraso em relação à França, à Inglaterra ou às Províncias Unidas. Essa comparação pode ser útil, mas deve ser utilizada com cautela. Portugal participou das redes imperiais, comerciais e científicas da época. Médicos, cirurgiões, boticários e informações terapêuticas circulavam pelo império português. Pesquisas sobre a presença desses profissionais no espaço imperial mostram que a difusão do conhecimento médico ocorreu por diferentes canais, incluindo hospitais, Misericórdias, exércitos, viagens e administração colonial.
A reforma pombalina da Universidade de Coimbra, em 1772, constitui um marco importante para a reorganização do ensino. A reforma introduziu novas disciplinas e alterou a estrutura da universidade, incluindo faculdades relacionadas à matemática e à filosofia natural. No campo médico, ela favoreceu uma pedagogia mais vinculada à observação, à matéria médica e à anatomia. Contudo, não é correto afirmar que a modernização começou somente naquele momento. Havia disputas anteriores e circulação de novidades, assim como resistências posteriores.
A própria coexistência entre repressão inquisitorial e reformismo ilustrado demonstra que as instituições não podem ser classificadas como simplesmente modernas ou arcaicas. Um Estado poderia patrocinar ensino renovado e, ao mesmo tempo, manter mecanismos de controle religioso. Médicos poderiam defender a observação e participar de estruturas de perseguição. Curandeiros poderiam utilizar práticas rituais e também possuir conhecimentos empíricos eficazes. Essas combinações desafiam classificações binárias.
A noção de “atraso” também oculta diferenças internas. A experiência de Lisboa não era idêntica à de aldeias rurais; o atendimento de um porto não correspondia ao de uma comunidade camponesa; a medicina da corte não era igual àquela praticada por barbeiros e parteiras. A disponibilidade de médicos, remédios, hospitais e cirurgiões variava conforme renda, localização e posição social. A história da medicina precisa integrar essas desigualdades, pois uma inovação pode existir em uma instituição sem estar acessível à maioria da população.
7 DISCUSSÃO: CONHECIMENTO, PODER E EXCLUSÃO
A ilustração no formato 16:9, representando a disputa entre conhecimento institucional, experiência prática, autoridade médica, critérios de validação e exclusão de saberes populares.

A análise dos três eixos permite identificar uma estrutura comum. A disputa sobre a cura era também uma disputa sobre quem podia falar em nome do corpo. A medicina erudita ganhou autoridade mediante títulos, livros, exames, academias, hospitais e relações com o Estado. A cirurgia ganhou reconhecimento ao se afastar do estatuto de ofício manual e aproximar-se da ciência. A Inquisição ofereceu um mecanismo de denúncia e punição que, em certos casos, ajudou a deslocar práticas populares para a categoria de crime.
Isso não implica reduzir a ciência a uma conspiração corporativa. Houve ganhos efetivos de observação anatômica, documentação de casos, aperfeiçoamento de técnicas e sistematização do ensino. A crítica histórica precisa reconhecer tanto a dimensão cognitiva quanto a dimensão social da medicina. O fato de uma teoria ou técnica ter sido favorecida por instituições não prova que seja falsa. Do mesmo modo, o fato de uma prática popular ter sido perseguida não prova que fosse eficaz. O ponto é outro: critérios de eficácia e legitimidade nunca foram distribuídos de maneira neutra.
A relação entre médicos e Inquisição ilustra essa ambivalência. A repressão às curas mágicas podia ser justificada como combate à fraude, ao dano ou à superstição. Em alguns casos, práticas perigosas poderiam de fato causar sofrimento. Entretanto, a criminalização ampla de curandeiros não distinguia necessariamente entre fraude, ritual religioso, cuidado doméstico e observação terapêutica. Além disso, a utilização de um tribunal religioso para controlar concorrentes revela que a fronteira entre ortodoxia espiritual e regulamentação profissional era porosa.
Os barbeiros-cirurgiões oferecem uma imagem complementar. Eles foram desvalorizados por sua proximidade com o trabalho manual, mas sua prática era indispensável. A cirurgia só se tornou uma profissão de maior prestígio quando conseguiu converter habilidades corporais em credenciais, textos e instituições. O caso de Paré mostra que a inovação podia partir de um profissional situado fora da elite médica, mas também mostra que seu legado foi consolidado mediante escrita e reconhecimento.
A história das curas populares e a história da cirurgia convergem em um ponto: a modernidade médica não eliminou a experiência; ela a redistribuiu. Certas experiências foram incorporadas ao currículo e às corporações. Outras foram silenciadas, criminalizadas ou reclassificadas como folclore. O processo foi produtivo e excludente ao mesmo tempo.
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A medicina europeia entre os séculos XVI e XVIII deve ser compreendida como um campo de transição, mas não como uma marcha linear da superstição à ciência. Nesse período, práticas religiosas, explicações mágicas, teoria dos humores, anatomia, cirurgia prática, filosofia natural e mecanicismo coexistiram e se confrontaram. A mudança ocorreu por acumulação, crítica, apropriação e exclusão.
As curas populares atendiam necessidades concretas em contextos de escassez médica. Curandeiros, saludadores e parteiras não eram apenas sobrevivências irracionais de um passado medieval. Eles faziam parte das redes sociais de cuidado e articulavam rituais, remédios caseiros, dietas e experiências transmitidas entre gerações. Sua repressão em Portugal, especialmente no século XVIII, esteve relacionada à ortodoxia religiosa, mas também à afirmação de profissionais formados e à disputa por autoridade.
Os barbeiros-cirurgiões, por sua vez, mostram que o saber manual foi indispensável à transformação da medicina. A cirurgia se desenvolveu em oficinas, hospitais, campos de batalha e corporações antes de alcançar o prestígio acadêmico posterior. Ambroise Paré demonstra que a observação prática podia questionar tratamentos consagrados e produzir técnicas menos agressivas. Vesalius evidencia a importância da dissecação e da imagem para renovar o ensino anatômico. Nenhum desses autores, contudo, pertenceu a um mundo totalmente separado das tradições antigas.
A Inquisição portuguesa não foi a única causa das dificuldades da medicina em Portugal, nem pode ser tratada como explicação total para qualquer diferença em relação a outros países. Seu papel foi paradoxal: atuou como instrumento de repressão, mas também como espaço em que interesses profissionais e religiosos se cruzaram. A reforma pombalina posterior confirma que a renovação institucional ocorreu de maneira gradual e contraditória.
A principal contribuição desta revisão é mostrar que a legitimidade médica é histórica. Ela depende de práticas de cuidado, mas também de instituições capazes de definir quem pode curar, ensinar, publicar e julgar. Reconhecer essa dimensão não significa relativizar toda diferença entre conhecimento confiável e afirmação infundada. Significa analisar com maior precisão como evidências são produzidas, quais agentes são ouvidos e quais são excluídos. A história da medicina moderna, ao revelar essas disputas, ajuda a compreender que a ciência se fortalece não pela negação de sua história social, mas pela explicitação crítica de seus critérios e limites.
REFERÊNCIAS
[11] ROSSI, Paolo. The birth of modern science. Oxford: Blackwell, 2001.