Como a Pesquisa Científica Pode Construir um Futuro Mais Justo
Por Equipe CEHASC – Publicado em 19 de novembro de 2025

Evidências, Métodos e Impactos Sociais
Em um mundo ainda atravessado por desigualdades estruturais de gênero, raça, classe, território, deficiência e orientação sexual, a pesquisa científica comprometida com a justiça social deixa de ser uma prática restrita à academia: torna-se um mecanismo concreto de transformação coletiva. A ciência, quando guiada por princípios éticos e metodológicos rigorosos, atua como lente crítica, denúncia estruturada e instrumento de intervenção pública.
Mais do que produzir conhecimento “neutro” — mito já contestado por diversas correntes epistemológicas — ela identifica injustiças, revela padrões sistêmicos, orienta decisões estatais, fortalece lutas sociais e constrói alternativas viáveis para mundos possíveis. A seguir, ampliamos e aprofundamos sete dimensões centrais nas quais a pesquisa científica contribui decisivamente para sociedades mais equitativas, com conceitos, enquadramentos metodológicos e exemplos brasileiros e internacionais.
Identificando Desigualdades Invisíveis

A desigualdade, tal como compreendida em abordagens contemporâneas, é um fenômeno multidimensional que envolve a distribuição assimétrica de renda, oportunidades, liberdades, acesso a políticas, capacidade de decisão e bem-estar. Segundo Amartya Sen (1999), trata-se da desigualdade de capacidades – aquilo que os indivíduos podem ou não ser e fazer em suas vidas.
A pesquisa, ao articular dados estatísticos, análises espaciais, metodologias interseccionais (Crenshaw, 1989) e indicadores de vulnerabilidade, torna visível o que historicamente permaneceu invisibilizado. É nesse ponto que ciência e justiça social se encontram: medir é reconhecer; reconhecer é responsabilizar; responsabilizar é transformar.
Exemplo ampliado:
O Mapa da Desigualdade 2024, desenvolvido pelo Instituto Casa Flávio e pela Rede Nossa São Paulo, escancarou assimetrias extremas: enquanto em Pinheiros a expectativa de vida é de 80,7 anos, em Cidade Tiradentes ela cai para 57,4 – um abismo de 23 anos em apenas 35 km, produto direto da segregação urbana, da violência institucional e de políticas públicas desiguais. Pesquisas desse tipo vêm sendo replicadas em Recife, Salvador e Bogotá, criando padrões comparáveis de monitoramento social.
Informando Políticas Públicas Baseadas em Evidências

O paradigma das políticas públicas baseadas em evidências surge para qualificar a ação governamental mediante uso sistemático de métodos científicos, especialmente avaliações de impacto, séries temporais, estudos de coorte e ensaios randomizados controlados (RCT). O Nobel de Economia de 2019, concedido a Banerjee, Duflo e Kremer, consolidou essa abordagem no debate global.
A qualidade de uma política depende não apenas de sua intenção, mas de sua eficácia comprovada, de sua capacidade de reduzir desigualdades e de sua viabilidade orçamentária.
Exemplo ampliado:
As avaliações do Bolsa Família demonstraram impactos substanciais na saúde, educação e renda. Entre 2007 e 2010, estudos do IFPRI indicaram:
- Redução de 8 p.p. na pobreza extrema;
- Aumento de 16% na frequência escolar;
- Redução da evasão escolar de meninas em áreas rurais;
- Melhora significativa de indicadores nutricionais infantis.
Essas evidências foram cruciais não só para a expansão do programa para 14 milhões de famílias, mas para blindá-lo de descontinuidade, garantindo continuidade em gestões ideológicas distintas — um exemplo sólido de política sustentada pela credibilidade científica.
Empoderando Comunidades por Meio da Pesquisa-Ação Participativa

A pesquisa-ação participativa (PAP) rompe com a lógica extrativista tradicional, na qual pesquisadores coletam informações sem retorno social. Inspirada em Fals Borda e Rahman (1991), ela pressupõe coautoria epistemológica, horizontalidade e decisão coletiva, devolvendo à comunidade o lugar de sujeito, e não de objeto da investigação.
A PAP opera simultaneamente como produção de conhecimento e intervenção transformadora.
Exemplo ampliado:
O Data_Labe, no Complexo da Maré (RJ), tornou-se uma referência global. Em 2022, jovens pesquisadores mapearam zonas críticas de confrontos armados, impactos no cotidiano e falhas na atuação policial. O estudo subsidiou uma ação civil pública que obrigou o Estado do Rio a instalar câmeras em viaturas — uma conquista inédita e exemplo emblemático de como dados produzidos por moradores alteram políticas de segurança.
Disseminando Conhecimento e Combatendo a Desinformação

Em tempos de pós-verdade e proliferação de fake news, a democratização do conhecimento se torna um imperativo ético e político. O conceito de knowledge translation propõe tornar evidências complexas acessíveis, compreensíveis e úteis ao público leigo, a jornalistas, gestores e movimentos sociais.
Produzir boa ciência é importante; comunicá-la bem é essencial.
Exemplo ampliado:
O Observatório Covid-19 BR desempenhou papel crucial ao divulgar análises semanais sobre contágio, letalidade e desigualdades estruturais. Sua atuação ajudou a:
- Pressionar o Ministério da Saúde a incluir raça/cor em boletins oficiais;
- Ampliar a cobertura da imprensa sobre desigualdades raciais na pandemia;
- Reduzir a circulação de notícias falsas por meio de comunicação clara e infográficos acessíveis.
Gerando Inovações Social e Culturalmente Sustentáveis

A inovação socialmente sustentável articula tecnologia, saberes tradicionais, soluções de baixo custo e respeito ambiental. O conceito de tecnologia social, difundido pelo ITS Brasil, destaca soluções replicáveis, comunitárias e contextualizadas.
O princípio é simples: nem toda inovação depende de alta tecnologia; muitas dependem de alta sensibilidade social.
Exemplo ampliado:
O programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) transformou o semiárido a partir de tecnologias ancestrais de convivência com a seca. Avaliações de 2024 mostram que o programa:
- Reduziu em até 70% o risco de colapso hídrico familiar;
- Ampliou a autonomia hídrica e alimentar de mais de 7 milhões de pessoas;
- Contribuiu para melhorias em escolarização, saúde e permanência de famílias no campo.
É um caso emblemático de inovação baseada em saberes tradicionais e pesquisa aplicada.
Fornecendo Base Técnica e Jurídica a Movimentos Sociais

Laudos antropológicos, relatórios técnicos, notas científicas e pareceres são instrumentos que traduzem reivindicações sociais em linguagem legítima para o Estado e para o Judiciário.
A Constituição Federal de 1988, no artigo 231, exige estudos antropológicos para demarcação de terras indígenas — reconhecimento explícito de que a ciência pode ser ferramenta de garantia de direitos.
Exemplo ampliado:
O laudo de João Pacheco de Oliveira foi decisivo no julgamento da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (2009). Em 2023, estudos coordenados pelo ISA subsidiaram a derrubada da tese do marco temporal no Congresso e no STF, garantindo a continuidade de processos de demarcação.
Sem a produção científica rigorosa, fundamentada em história, antropologia e geografia, essas vitórias seriam inviáveis.
Avaliando e Monitorando Programas para Garantir Efetividade

Avaliar não é apenas medir: é interpretar efeitos, identificar desigualdades internas e orientar aperfeiçoamentos. As avaliações contemporâneas combinam métodos quantitativos e qualitativos, integrando narrativas, etnografias, regressões e análises contrafactuais.
Exemplo ampliado:
A avaliação do Mais Médicos (2013–2018), conduzida por Ipea e UFMG, mostrou:
- Redução de 15% a 20% nas internações por condições sensíveis à atenção básica;
- Melhora na continuidade do cuidado;
- Redução de desigualdades entre municípios de baixa e alta renda.
O estudo orientou ajustes no programa, evidenciando que monitoramento contínuo é condição para efetividade.
Um Alerta Necessário: Quando a Ciência Reproduz Injustiças

A ciência não é automaticamente emancipatória. Epistemologias decoloniais (Quijano, Mignolo), estudos feministas negros (Patricia Hill Collins, bell hooks) e antropologias críticas denunciam como o conhecimento ocidental foi usado historicamente para legitimar colonialismo, racismo e desigualdades.
Por isso, protocolos éticos contemporâneos exigem:
- consulta prévia (Convenção 169 da OIT);
- consentimento livre e esclarecido;
- repartição de benefícios;
- coautoria e devolutivas;
- respeito aos saberes tradicionais e modos próprios de produção de conhecimento.
Pesquisas que ignoram esses princípios acabam reforçando assimetrias que pretendem combater.
Ciência como Prática Ética, Política e Emancipatória

A pesquisa científica contribui para um futuro mais justo quando assume explicitamente seu compromisso com a redução das desigualdades, com os direitos humanos, com a sustentabilidade e com a diversidade de formas de conhecer. No CEHASC, defendemos uma ciência com as pessoas, para as pessoas e, sobretudo, pelas próprias pessoas afetadas pelos problemas que estudamos.
Que este artigo seja mais do que um texto acadêmico:
Um chamado à ação.
Pesquisadores, educadores, movimentos sociais, gestores públicos, comunicadores e cidadãos — todos integramos o ecossistema do conhecimento. Todos somos responsáveis por transformar evidências em políticas, políticas em impacto, impacto em justiça.
Construir um futuro mais igualitário, sustentável e humano exige, acima de tudo, uma ciência ética, rigorosa e comprometida com a vida.