Os Dirigíveis Fantasmas de 1896-1897
Por Equipe do CEHASC Doc.X
No alvorecer da era aeronáutica, quando os céus ainda eram domínio exclusivo dos pássaros e dos sonhos humanos, uma onda de relatos misteriosos abalou a América do Norte. Entre o final de 1896 e a primavera de 1897, centenas de testemunhas — de fazendeiros a editores de jornais — afirmaram avistar “dirigíveis fantasmas”: estranhos aparelhos aéreos luminosos, movendo-se com graça sobrenatural sobre cidades e campos.

A Primeira Onda OVNI na América do Norte
Esses eventos, frequentemente interpretados como avanços secretos em aviação ou até visitas de marcianos, representam a primeira grande “onda OVNI” documentada, precedendo em meio século o icônico avistamento de Kenneth Arnold em 1947. Neste artigo Doc.X, exploramos os relatos iniciais, analisamos como inovações do século XIX foram confundidas com fenômenos extraterrestres e traçamos paralelos com fraudes modernas, destacando o foco na história aeronáutica pré-1900 e nos embustes perceptivos que moldaram nossa percepção do inexplicável.
O Contexto Aeronáutico do Final do Século XIX: Sonhos de Voo e Medos Coletivos
O período de 1896-1897 coincide com o auge da febre dos dirigíveis, inspirada por inventores como Henri Giffard (França, 1852) e os irmãos Montgolfier, mas adaptada ao contexto americano. Os EUA, em plena Revolução Industrial, viam a aviação como símbolo de progresso: balões esféricos e cilindros rígidos eram testados em feiras e competições, como a Exposição Colombiana de Chicago (1893). No entanto, a ausência de motores potentes e a dependência de ventos tornavam os voos imprevisíveis, alimentando rumores de “máquinas secretas”.
A onda começou em novembro de 1896, no Oeste americano, e se espalhou para o Meio-Oeste e Leste. Jornais como o Sacramento Bee e o San Francisco Call publicaram relatos diários, misturando excitação com pânico. Testemunhas descreviam aparelhos de 30-50 metros de comprimento, com luzes elétricas piscantes e formas cilíndricas, voando a 50-100 km/h — velocidades impressionantes para a época, mas plausíveis com protótipos de ar quente. O que elevava o mistério era a ausência de ruído e a capacidade de manobras contra o vento, sugerindo “tecnologia marciana” em uma era fascinada por H.G. Wells (A Guerra dos Mundos, 1898, publicado logo após).
Relatos Iniciais: De Sacramento a Chicago, os Fantasmas Aéreos

Os avistamentos começaram em 17 de novembro de 1896, em Sacramento (Califórnia), quando o editor do Sacramento Bee, James Allen, avistou um “dirigível” sobrevoando a cidade à noite, com luzes vermelhas e brancas. Relatos se multiplicaram: em 21 de novembro, fazendeiros em Santa Rosa viram um cilindro “como um charuto gigante” pairando sobre vinhedos, emitindo faíscas. A onda migrou para o leste, atingindo o Kansas em abril de 1897, com o caso de Yates Center: o fazendeiro Alexander Hamilton alegou que um “navio aéreo” levou sua vaca para o céu, rasgando-a ao retornar — um relato que inspirou cartuns e debates sobre “sequestros animais”.
Para visualizar a dispersão, veja a tabela abaixo com avistamentos chave (baseada em compilações de Charles Fort e jornais da época):
| Data | Local | Descrição Principal | Testemunhas Notáveis |
| 17/11/1896 | Sacramento, CA | Cilindro luminoso com luzes elétricas; voo silencioso. | James Allen (Sacramento Bee) |
| 21/11/1896 | Santa Rosa, CA | Aparelho pairando sobre campos; faíscas observadas. | Fazendeiros locais (10+). |
| 01/04/1897 | Yates Center, KS | “Navio” com ganchos; vaca “sequestrada” e devolvida mutilada. | Alexander Hamilton e vizinhos. |
| 09/04/1897 | Chicago, IL | Dirigível sobre o Lago Michigan; manobras evasivas. | Equipe do Chicago Tribune. |
| 19/04/1897 | Eau Claire, WI | Luzes em formação; suposto pouso em fazenda. | Patrulha policial local. |
Esses relatos, embora isolados na época, formam um padrão: objetos noturnos, luminosos e erráticos, frequentemente confundidos com balões experimentais de Thomas Edison (que negou envolvimento).
Confusão com Avanços Aeronáuticos: Inovação vs. Ilusão Extraterrestre

A interpretação extraterrestre surgiu de uma lacuna tecnológica: os EUA não tinham dirigíveis viáveis até 1900, levando a especulações sobre “invenções secretas” ou marcianos. Jornais como o New York Sun publicaram “confissões” de inventores anônimos, alimentando histeria. Embustes perceptivos foram comuns: lanternas chinesas (balões de papel acesos) ou refletores de trens a vapor criavam ilusões de “luzes flutuantes”. Um caso notório em Aurora, Texas (19/04/1897): um “dirigível marciano” teria colidido com um moinho, matando o piloto alienígena — enterrado localmente, segundo o Dallas Morning News. Investigação moderna (1997, por UFO Files) revelou um hoax para vender jornais, com o “corpo” sendo um macaco empalhado.
Paralelos com fraudes modernas são evidentes: assim como os “balões do Projeto Mogul” explicaram Roswell (1947), os dirigíveis de 1896 ecoam deepfakes de hoje, onde vídeos virais de “OVNIs” são drones ou CGI. A psicologia social explica isso como “contágio midiático” (Allport e Postman): um relato inicial priming o público para ver o extraordinário no ordinário.
Legado: Da Aeronáutica Pré-1900 à Ufologia Contemporânea
Essa onda pavimentou o caminho para a ufologia: Charles Fort citou dezenas de casos em The Book of the Damned (1919), unindo-os como “anomalias condenadas”. Influenciou pioneiros como os irmãos Wright, que em 1900 mencionaram “máquinas misteriosas” como motivação. Hoje, com drones e IA redefinindo o céu, esses embustes nos lembram: o que era “extraterrestre” em 1897 era inovação mal compreendida. Para o CEHASC, esses fantasmas aéreos destacam como a história aeronáutica entrelaça progresso e ilusão, convidando-nos a questionar: os céus de ontem eram prelúdio dos mistérios de amanhã?
Referências Principais:
- Fort, Charles. The Book of the Damned (1919) — PDF Gratuito: Archive.org.
- Cohen, Daniel. The Great Airship Mystery (1981) — Análise de embustes.
- Arquivos do San Francisco Call (1896-1897) — Digitalizados na Library of Congress: chroniclingamerica.loc.gov.
CEHASC Doc.X: Preservando a memória aeronáutica e os enigmas do ar. Contribuições para editoriais@cehasc.com.