Cultura, Paisagem e Pertencimento: A Geografia Simbólica do Lugar

Espaço como Espelho da Alma
Como a experiência sensível e simbólica do espaço molda identidades e memórias coletivas
O Espaço como Espelho da Alma Humana
O espaço não é apenas uma extensão física — é também uma extensão do ser.
Cada rua, montanha ou praça guarda marcas de afetos, histórias e significados que ultrapassam o visível. Na Geografia Humana contemporânea, essa dimensão simbólica e estética do território ganha centralidade: compreender o lugar é compreender a forma como as pessoas o sentem, o narram e o vivem.
Em tempos de globalização e mobilidade intensa, o sentimento de pertencimento torna-se um ato político e existencial.
Mais do que localizar-se, o ser humano busca enraizar-se, reconstruindo laços com paisagens que evocam identidade, memória e comunidade.
O CEHASC – Centro de Estudo Histórico Antropológico Sociocultural, ao propor o estudo da geografia simbólica, convida à reflexão sobre como as paisagens — naturais e urbanas — são também narrativas coletivas, escritas por gestos cotidianos, práticas culturais e memórias compartilhadas.
1. O Conceito de Lugar: Da Geografia Física à Geografia do Sentir
Na tradição geográfica clássica, o espaço era compreendido como cenário neutro, mensurável e homogêneo.
Mas autores como Yi-Fu Tuan, Edward Relph e Milton Santos ressignificaram esse paradigma ao introduzirem o conceito de lugar — não apenas como posição geográfica, mas como experiência vivida.
Para Tuan, o lugar nasce quando o espaço é investido de significado afetivo e simbólico; para Relph, o sentimento de “insideness” (estar dentro) diferencia o pertencimento da alienação; e para Milton Santos, o espaço é “um híbrido de materialidade e intencionalidade”, onde o humano imprime sua historicidade.
Assim, o lugar é uma construção ontológica e cultural: um ponto de ancoragem da existência.
Em cada gesto — o caminho percorrido até a escola, o cheiro do mercado, o som do sino na igreja ou o batuque no terreiro —, o ser humano territorializa o tempo, transformando o mundo em casa.
2. Paisagem como Linguagem: Ver, Sentir e Interpretar o Território
A paisagem é o rosto visível do espaço.
Mas ela é também um texto, que pode ser lido e interpretado.
Segundo o geógrafo Augustin Berque, toda paisagem é um espelho cultural — o resultado da interação entre a natureza e as formas simbólicas que a sociedade projeta sobre ela.
No campo, a disposição das casas, o traçado das plantações e o ritmo das festas religiosas expressam cosmovisões locais.
Nas cidades, os murais, monumentos e parques funcionam como marcadores de identidade, lugares de memória e, às vezes, de disputa.
A paisagem, portanto, não é neutra: ela revela quem tem o poder de nomear e representar o território.
Como mostra a antropologia urbana, os grafites nas periferias, os altares improvisados nas calçadas e os espaços de convivência popular são expressões da estética da resistência, onde o cotidiano se torna arte e o espaço ganha voz.
3. Pertencimento e Identidade: O Afeto como Forma de Cartografia
O pertencimento é a cartografia do afeto.
É a forma como os sujeitos inscrevem-se em um espaço, criando vínculos emocionais que conferem sentido à existência.
Estudos em geografia humanista mostram que o sentimento de “lugar” não depende apenas da geografia física, mas da experiência relacional — da convivência, da memória e do reconhecimento.
Comunidades quilombolas, povos indígenas e populações ribeirinhas, por exemplo, possuem no território não apenas o solo produtivo, mas a própria história encarnada.
Cada rio, árvore ou pedra carrega narrativas transmitidas oralmente, constituindo uma geografia espiritual que transcende o mapa.
Em contextos urbanos, o pertencimento se reconfigura: moradores de periferias constroem territórios simbólicos de identidade, transformando a vulnerabilidade em potência coletiva — seja por meio de festas populares, saraus, feiras ou ocupações culturais.
O lugar, nesse sentido, não é dado: ele é construído pelo habitar.
4. Memória e Patrimônio: Quando o Espaço se Torna Testemunha
A memória é o tempo inscrito no espaço.
Cada rua antiga, ruína ou praça guarda fragmentos de histórias pessoais e coletivas que, quando reconhecidas, tornam-se patrimônio.
A geografia da memória, inspirada em Pierre Nora e seus “lugares de memória” (lieux de mémoire), propõe que o território é um repositório vivo de lembranças, onde passado e presente dialogam em múltiplas camadas.
No contexto brasileiro, essa discussão ganha densidade ao abordar patrimônios imateriais — como festas populares, modos de fazer e tradições orais — que reconfiguram a ideia de monumento.
Ao reconhecer o terreiro, o samba, a feira e o quilombo como patrimônios, o país amplia sua noção de espaço histórico e cultural, valorizando as vozes invisibilizadas pela narrativa eurocêntrica.
Assim, o ato de preservar não é apenas conservar — é recontar o mundo a partir de outras perspectivas.
5. A Geografia da Emoção: Entre o Local e o Global
Vivemos (ou melhor, habitamos) uma era de deslocamentos, migrações e conexões instantâneas.
O lugar, antes físico e delimitado, torna-se fluido, atravessado por redes digitais e fluxos globais.
A “geografia das emoções”, conceito emergente nas ciências sociais, analisa como os sentimentos — nostalgia, medo, orgulho, pertença — moldam nossas percepções do espaço em um mundo hiperconectado.
Plataformas digitais como Google Earth, redes sociais e metaversos criam lugares virtuais de encontro, redefinindo o conceito de território e presença.
Mas, paradoxalmente, também geram saudades do lugar real: a praça, o quintal, o cheiro do café da esquina.
A cultura digital, portanto, desafia a geografia a repensar o espaço como experiência híbrida, onde o físico e o simbólico se entrelaçam em novas formas de habitar.
6. CEHASC e a Cultura do Pertencimento: Educação, Pesquisa e Memória Viva
O CEHASC, como laboratório interdisciplinar de cultura e território, propõe a integração entre Geografia Humana, Antropologia e História Cultural para compreender o espaço como construção social e sensível.
Projetos como Mapas da Memória Local, Cartografias Afetivas de Bairro e Redes de Patrimônio Cultural Vivo aproximam comunidades, pesquisadores e escolas na construção de geografias participativas.
Essas iniciativas reforçam uma visão educativa: o espaço não é só estudado — ele é vivido, contado e transformado.
Assim, o CEHASC reafirma sua missão de conectar conhecimento científico e experiência humana, formando cidadãos críticos e conscientes de seu papel na preservação do território como bem comum.
O Lugar como Essência do Ser
O lugar é a forma como o mundo nos acolhe — e como o devolvemos à vida.
Entre montanhas, becos, rios e ruas, projetamos nossas esperanças e cicatrizes, construindo paisagens de significado.
A Geografia Humana, quando sensível às dimensões culturais e simbólicas, revela que pertencer não é apenas estar em um ponto do mapa: é sentir-se parte de uma história compartilhada.
Em um planeta em constante movimento, o desafio contemporâneo é cultivar raízes móveis — uma consciência planetária que reconhece a diversidade dos lugares e a interdependência entre todos eles.
O CEHASC convida à construção de uma Geografia do Pertencimento, onde cultura, memória e espaço formam uma unidade viva — uma geografia ética, estética e humana.
Referências Essenciais:
- Tuan, Yi-Fu. Space and Place: The Perspective of Experience. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1977.
- Relph, Edward. Place and Placelessness. London: Pion, 1976.
- Santos, Milton. Por uma Geografia Nova. São Paulo: Hucitec, 1978.
- Nora, Pierre. Les Lieux de Mémoire. Paris: Gallimard, 1984.
- Berque, Augustin. Écoumène: Introduction à l’étude des milieux humains. Paris: Belin, 2000.
- CEHASC (2025). Cultura, Território e Pertencimento: Perspectivas Interdisciplinares da Geografia Humana Contemporânea.