Concepções do Pensamento Histórico, a Dinâmica Historiográfica e Sua Influência no Ensino da História
Caminhos para uma Educação Histórica Inclusiva, Crítica e Transformadora
O artigo “Concepções do Pensamento Histórico, a Dinâmica Historiográfica e Sua Influência no Ensino da História” discute as transformações teóricas e metodológicas do pensamento histórico e suas implicações no processo de ensino-aprendizagem. A partir de uma abordagem crítica, analisa-se como diferentes concepções de história — do positivismo às correntes marxistas, Annales e Nova História — redefiniram o papel do historiador e a interpretação do passado. O texto evidencia que a historiografia é dinâmica, influenciada por contextos políticos, culturais e epistemológicos, moldando a produção do conhecimento histórico. No ensino, essas mudanças impactam práticas docentes, currículos e a formação da consciência histórica dos estudantes. Propõe-se a necessidade de um pensamento histórico crítico e contextualizado, capaz de formar cidadãos conscientes de seu papel na construção da memória e da identidade coletiva.

Uma Visão Transformadora para a Educação Histórica
O ensino de História no Brasil contemporâneo reflete uma tensão constante entre tradições positivistas e abordagens críticas. As transformações teóricas e historiográficas das últimas décadas ampliaram o papel da História como ciência social e prática educativa voltada à formação cidadã e à consciência histórica.
Desde os anos 1970, com o avanço da História Oral, da micro-história e das perspectivas subalternas, o pensamento histórico passou a privilegiar competências como a análise de fontes, a compreensão de temporalidades múltiplas e a empatia multicultural. Essa virada epistemológica encontra ressonância na Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017), que propõe uma educação voltada à pluralidade cultural, à sustentabilidade e aos direitos humanos.
No contexto do CEHASC, que valoriza a educação transformadora e a preservação da memória social, este artigo analisa como as concepções contemporâneas do pensamento histórico moldam o ensino da História. O texto examina cinco eixos fundamentais: pensamento histórico e historiografia, memória e oralidade, currículo inclusivo, tecnologias educacionais e avaliação formativa. A análise, baseada em pesquisas recentes (2023–2025), demonstra avanços expressivos, mas também revela desafios regionais e institucionais que ainda dificultam a consolidação de uma historiografia verdadeiramente inclusiva e emancipatória.
1. O Pensamento Histórico e a Dinâmica Historiográfica no Ensino da História
O pensamento histórico contemporâneo ultrapassa a mera cronologia de eventos para incorporar dimensões filosóficas, epistemológicas e críticas. Inspirado por autores como Walter Benjamin, Michel Foucault e Jörn Rüsen, esse campo enfatiza que a História é uma construção social e interpretativa, em que o passado é constantemente reconfigurado pelas demandas do presente.
No Brasil, a historiografia pós-ditadura deslocou o foco da “história dos grandes homens” para uma história vista de baixo, que valoriza a experiência de grupos subalternizados — indígenas, quilombolas, camponeses e mulheres. A BNCC reforça essa perspectiva ao propor a “literacia histórica”, ou seja, a competência de compreender e interpretar diferentes versões do passado por meio de múltiplas fontes e linguagens.
Segundo estudos recentes da SciELO (2024), essa abordagem reduz o eurocentrismo curricular e estimula a criticidade, embora ainda enfrente obstáculos. Cerca de 60% dos professores brasileiros relatam dificuldades em aplicar metodologias teóricas mais complexas, como a micro-história de Carlo Ginzburg, que explora experiências individuais como espelhos de estruturas sociais amplas. Essa lacuna evidencia a necessidade de formação docente continuada e de políticas educacionais que integrem teoria e prática de modo mais equilibrado.
2. Memória, Oralidade e Cotidiano: Fontes Vivas do Saber Histórico
A integração entre memória, oralidade e cotidiano representa uma das inovações mais significativas no ensino contemporâneo da História. Esses elementos humanizam o processo educativo ao transformar experiências individuais e coletivas em fontes vivas de conhecimento.
A História Oral, introduzida no Brasil nos anos 1970 por instituições como o CEPEDOC/FGV, democratizou a produção do saber histórico ao incluir vozes antes silenciadas — trabalhadores rurais, migrantes, comunidades indígenas e populações urbanas periféricas. A partir de conceitos como memória coletiva (Halbwachs) e representações sociais (Moscovici), a escola passou a reconhecer o valor das narrativas pessoais como instrumentos de compreensão identitária e social.
Práticas pedagógicas como entrevistas com ex-alunos, registro de tradições locais ou produção de podcasts sobre histórias comunitárias permitem que estudantes se tornem sujeitos da própria memória. Um estudo (CEARÁ, 2025) revelou que projetos baseados em oralidade fortaleceram o senso de pertencimento e empatia entre jovens de escolas públicas.
Os desafios residem na validação acadêmica dessas fontes e na necessidade de formação metodológica para evitar subjetivismos.
| Abordagem | Descrição | Exemplo no Ensino Brasileiro |
| Memória Coletiva | Reconstrução de identidades grupais por meio de narrativas compartilhadas. | Projetos com comunidades quilombolas sobre heranças africanas. |
| Oralidade como Fonte | Entrevistas, podcasts e relatos como registros históricos. | “Seminários da Prainha” (CE, 2014–2025). |
| Cotidiano Histórico | Análise da vida diária como reflexo de estruturas sociais. | Diários reflexivos sobre rotinas familiares e tradições locais. |
Essas práticas, alinhadas à BNCC, contribuem para uma história viva, participativa e plural, essencial à coesão social e ao fortalecimento da memória coletiva.
3. Currículo Inclusivo e Novas Abordagens Metodológicas
O currículo de História no Brasil tem passado por uma profunda reconfiguração. Sob a orientação da BNCC e de legislações como as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, temas como cultura, gênero, direitos humanos, meio ambiente, história local e diversidade étnico-racial passaram a ocupar lugar central no processo educativo.
A incorporação de abordagens interseccionais — que articulam raça, gênero e classe — tem possibilitado a análise das múltiplas formas de opressão e resistência na sociedade. Em regiões como o Oeste catarinense, projetos escolares têm mapeado perfis étnicos regionais, conectando o legado da escravidão colonial às violências contemporâneas contra mulheres indígenas e migrantes haitianas.
A educação patrimonial e a história local surgem como estratégias de valorização identitária e comunitária, enquanto metodologias ativas — como aprendizagem baseada em problemas e micro-história — estimulam protagonismo e criticidade.
Pesquisas (2025) apontam que tais práticas reduzem preconceitos em até 30% e aumentam a engajamento discente ao promover o diálogo entre passado e presente.
4. Tecnologias Digitais e o Ensino de História
As Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) ampliam as possibilidades de ensino e aprendizagem, oferecendo novos meios de narrar e compreender o passado. Ferramentas como podcasts, plataformas digitais, vídeos interativos e realidade virtual permitem experiências imersivas e colaborativas.
Aplicativos como StoryCorps e projetos de história oral digital adaptados à realidade brasileira possibilitam registrar memórias locais com apoio de Inteligência Artificial. No entanto, a eficácia pedagógica depende da mediação docente, para que o uso da tecnologia não se limite à reprodução de conteúdo, mas favoreça a reflexão crítica.
Segundo estudos da Revista Ensino em Perspectivas (2024), o uso mediado de TICs pode aumentar em 25% o engajamento dos alunos e estimular a produção autônoma de conhecimento histórico. O desafio persiste na desigualdade digital: cerca de 40% das escolas rurais ainda carecem de infraestrutura tecnológica adequada.
5. Avaliação no Ensino de História: Entre a Reflexão e a Cidadania
A avaliação no ensino de História vem se distanciando do modelo tradicional de provas conteudistas para adotar uma perspectiva formativa, reflexiva e política. O foco desloca-se da memorização para o desenvolvimento de competências históricas e cidadãs.
Instrumentos como portfólios, rubricas analíticas, autoavaliações e diários reflexivos têm sido incorporados a experiências pedagógicas que valorizam a análise crítica e o pensamento histórico.
Contudo, pesquisas (ResearchGate, 2025) indicam que 70% dos docentes ainda utilizam avaliações tradicionais, o que limita a expressão de narrativas plurais e reflexivas.
Iniciativas inovadoras, como avaliações gamificadas e projetos interdisciplinares, vêm demonstrando impactos positivos — como a redução de 15% nas desigualdades de desempenho e maior envolvimento dos estudantes nos processos avaliativos.
Rumo a uma Historiografia Educativa Inclusiva
A evolução do pensamento histórico e das práticas de ensino no Brasil evidencia um movimento em direção a uma historiografia educativa mais democrática e inclusiva. O diálogo entre memória, currículo, tecnologia e avaliação fortalece a formação de cidadãos críticos, conscientes e empáticos.
No contexto do CEHASC, essas reflexões reafirmam a educação como instrumento de justiça social e reconstrução da memória coletiva.
Para o futuro, é essencial que pesquisas e políticas públicas invistam em formação docente regionalizada, ampliem o acesso digital e consolidem metodologias interdisciplinares que façam da História não apenas uma disciplina, mas uma experiência de cidadania e pertencimento.
Referências Selecionadas
- SciELO: Competência do pensamento histórico
- Rev. Pemo: Práticas Educativas, Memórias e Oralidades
- Em Tempos: Relações étnico-raciais e integração curricular
- Ensino em Perspectivas: Ensino de História e novas tecnologias
- ResearchGate: Avaliação da aprendizagem no Ensino de História
- Educação Pública: Repensando o ensino de História
- BNCC Caderno Meio Ambiente
- Outros Tempos: O ensino de história na atualidade
- ANPUH: A BNCC e o ensino fundamental
- Monografias UFOP: Educação patrimonial e história local