Linguística – Estrutura, Sentido e Poder da Linguagem
Conexões com Narrativas da Memória, Sociolinguística e Semiótica
Introdução
A Linguística, como ciência voltada ao estudo da linguagem humana, ultrapassa a mera descrição de sons e regras gramaticais para investigar as dimensões mais profundas da comunicação: a estrutura que organiza o discurso, o sentido que ele produz e o poder que exerce sobre indivíduos e coletividades. Em um mundo cada vez mais interconectado e desigual, compreender essas dimensões não é apenas um exercício teórico, mas uma necessidade ética e política. A linguagem, afinal, não é neutra — ela constrói realidades, preserva memórias, legitima hierarquias e impulsiona resistências.
Este artigo propõe uma reflexão integrada sobre estrutura, sentido e poder da linguagem, articulando essas vertentes com três campos fundamentais: as Narrativas da Memória, a Sociolinguística e a Semiótica. Inspirado em abordagens contemporâneas, como as apresentadas no Simpósio Internacional de Estudos da Linguagem (SIEL 2025), o texto busca demonstrar que a linguagem é um organismo vivo, dinâmico e historicamente situado. Ao compreender suas múltiplas conexões, revelamos a Linguística como ciência do humano em sua plenitude — um campo que interpreta o mundo, mas também o recria, contribuindo para práticas educacionais e sociais voltadas à equidade e à diversidade.
A Estrutura da Linguagem: Fundamentos e Conexões Interdisciplinares
A estrutura da linguagem refere-se ao sistema que organiza os elementos linguísticos — fonemas, morfemas, sintaxe e semântica — em padrões de significação coerentes. No estruturalismo saussuriano, a língua é concebida como um sistema de diferenças, no qual o valor de cada signo decorre de suas relações com os demais. Essa perspectiva, apresentada por Ferdinand de Saussure em Curso de Linguística Geral (1916), moldou toda a tradição linguística moderna. No entanto, ao ser reinterpretada por abordagens contemporâneas, a estrutura deixa de ser um conjunto fixo de regras e passa a ser vista como um campo dinâmico, permeado por cultura, história e ideologia.
Conectada às Narrativas da Memória, à Sociolinguística e à Semiótica, a estrutura linguística revela-se não apenas como arcabouço formal, mas como expressão de experiências sociais e cognitivas. A estrutura gramatical, longe de ser neutra, carrega marcas de pertencimento e de memória, transformando-se em espelho das práticas comunicativas e dos contextos históricos que a sustentam.
Narrativas da Memória: Estrutura e Recordação Coletiva
As Narrativas da Memória — relatos orais ou escritos que preservam experiências individuais e coletivas — funcionam como estruturas linguísticas de preservação simbólica. Elas organizam o caos do passado em sequências coerentes e emocionais, utilizando recursos sintáticos e lexicais recorrentes que reforçam identidades e continuidades culturais. No contexto brasileiro, as narrativas quilombolas exemplificam esse poder estruturante: verbos no pretérito imperfeito, repetições e expressões metafóricas mantêm viva a memória ancestral e reafirmam a resistência de comunidades historicamente marginalizadas.
Estudos neurolinguísticos demonstram que a memória episódica e a linguagem compartilham redes cognitivas, evidenciando que a estrutura linguística é também um instrumento de recordação. A pesquisa contemporânea, como as apresentadas no Encontro Nacional de Análise de Discurso (ENAPOL 2023), amplia essa compreensão ao incluir narrativas em Línguas de Sinais, revelando gramáticas visuais como alternativas legítimas de memória coletiva. Assim, a estrutura linguística, quando integrada à memória e à cultura, torna-se um instrumento de preservação e resistência simbólica.
Sociolinguística: A Estrutura Social da Linguagem
A Sociolinguística insere a linguagem em seu contexto social, mostrando que variações linguísticas — regionais, de classe, gênero ou etnia — não são desvios, mas formas legítimas de estrutura comunicativa. Pioneiros como William Labov demonstraram, nos anos 1960, que a variação fonológica obedece a padrões sistemáticos relacionados ao status social e à identidade do falante. No Brasil, pesquisas do Grupo de Trabalho em Sociolinguística (GT-SOL) têm revelado como as estruturas linguísticas presentes em contextos periféricos ou prisionais expressam pertencimento e resistência, desafiando modelos normativos da língua.
Essas análises mostram que a estrutura linguística é também uma estrutura de poder: ela reflete hierarquias sociais e ideológicas, ao mesmo tempo em que oferece caminhos para sua transformação. As discussões no SIEL 2025, sobre políticas linguísticas inclusivas, reforçam esse compromisso ético: reconhecer e valorizar os dialetos regionais e as variantes sociais é fundamental para combater o preconceito linguístico e promover a democratização da linguagem.
Semiótica: A Estrutura dos Signos e o Sentido Cultural
A Semiótica, herdeira de Saussure e desenvolvida por pensadores como Charles Peirce e Roland Barthes, amplia o conceito de estrutura linguística para o campo dos signos visuais, culturais e ideológicos. Em Mitologias (1957), Barthes demonstra como elementos cotidianos — como o vinho francês ou o automóvel — funcionam como signos de identidade e poder. Ao transpor essa lógica para a linguagem, compreendemos que a estrutura sintática é também uma estrutura de sentido, onde cada signo atua como mediador entre o real e o simbólico.
No Brasil, os estudos em semiótica discursiva têm revelado a potência dos signos poéticos e artísticos na construção de memórias alternativas e narrativas contra-hegemônicas. Dessa forma, a semiótica reforça a ideia de que toda estrutura linguística é também uma estrutura cultural, em permanente diálogo com a estética, a política e a subjetividade.
O Sentido da Linguagem: Construção e Interpretação
O sentido linguístico emerge da interação entre signos e contextos. Palavras não possuem significados fixos; adquirem-nos por meio das práticas sociais e dos usos culturais. A Linguística Gerativa, proposta por Noam Chomsky, explica a capacidade infinita da mente humana de gerar sentidos a partir de regras finitas, mas outras correntes — como a Pragmática e a Análise do Discurso — enfatizam o papel da experiência e da intenção comunicativa na construção do significado.
Ao relacionar o sentido às Narrativas da Memória, à Sociolinguística e à Semiótica, percebemos que o significado é também um produto da história. Termos como “resistência”, “povo” ou “identidade” carregam marcas emocionais e políticas que variam conforme os contextos de uso, revelando como o sentido é continuamente reconstruído pela memória coletiva e pelas práticas discursivas.
O Poder da Linguagem: Domínio, Resistência e Transformação
O poder da linguagem manifesta-se na capacidade de nomear, definir e transformar realidades. Michel Foucault, em A Arqueologia do Saber (1969), demonstra que o discurso é um instrumento de poder, pois delimita o que pode ser dito e o que deve ser silenciado. Essa perspectiva conecta-se diretamente às Narrativas da Memória, que determinam quais histórias são lembradas e quais são apagadas; à Sociolinguística, que evidencia a marginalização de dialetos e falares populares; e à Semiótica, que revela o poder ideológico dos signos na mídia e na cultura.
No Brasil, o poder linguístico se manifesta tanto em discursos oficiais quanto nas linguagens de resistência que emergem nas periferias, nas artes e nas redes digitais. A Linguística, ao analisar essas práticas, torna-se também um instrumento de emancipação — capaz de denunciar exclusões, valorizar diversidades e promover uma comunicação mais equitativa e democrática.
Conclusão
A Linguística contemporânea, ao integrar estrutura, sentido e poder da linguagem com campos como Narrativas da Memória, Sociolinguística e Semiótica, revela-se uma ciência essencialmente interdisciplinar, política e transformadora. Compreender a linguagem é compreender o ser humano em suas múltiplas dimensões — cognitiva, social e simbólica. Eventos como o SIEL 2025, pesquisas neurolinguísticas recentes e práticas pedagógicas inovadoras reafirmam essa visão integradora.
Em uma sociedade marcada por disputas discursivas, desigualdades comunicativas e reconfigurações tecnológicas, estudar a Linguística é um ato de resistência e consciência crítica. Mais do que descrever o mundo, a Linguística o reinventa — por meio da palavra, do símbolo e da memória. É nesse gesto de reinvenção que reside seu verdadeiro poder: o de transformar o conhecimento em liberdade.