Ascensão da Extrema

Direita e os Desafios da Democracia no Brasil
A extrema-direita no Brasil tem atraído jovens de classes médias altas, impulsionada por reações contra políticas de inclusão social, como as implementadas por Lula e Dilma, que reduziram desigualdades raciais e econômicas, mas geraram uma onda de retaliações ideológica. O neoliberalismo, consolidado nos anos 1990 sob Fernando Henrique Cardoso (FHC), aprofundou desigualdades, apesar da Constituição de 1988, que prometia direitos sociais; evidências sugerem que isso facilitou a reagrupação de oligarquias conservadoras.
Pesquisas indicam que preconceitos contra pobres, negros e a esquerda persistem, alimentados por narrativas que valorizam hierarquias “naturais”, com exemplos como o apoio a privatizações e repressão policial seletiva. A crise capitalista dos anos 1970 levou ao neoliberalismo global, com impactos desastrosos na América Latina. No Brasil, mobilizações populares nos anos 1990 contestaram esse modelo, abrindo caminhos para rupturas, embora sem revoluções plenas.
Visão Geral da Difusão Ideológica
A difusão de organizações de extrema-direita no Brasil reflete um descontentamento com a democracia liberal, especialmente entre jovens da pequena burguesia abastada. Políticas como o Bolsa Família e cotas raciais, que elevaram a visibilidade de classes subalternas, são vistas como ameaças a privilégios tradicionais. Fontes como o Instituto Lula destacam que essas medidas reduziram a pobreza extrema em 36 milhões de pessoas entre 2003 e 2016. No entanto, isso gerou reações, com grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL) atraindo universitários de elite, que protestaram contra corrupção, mas indiretamente contra a redistribuição de renda.
Impactos das Políticas Afirmativas
Sob Lula e Dilma, ações afirmativas como a Lei de Cotas (2012) aumentaram em 50% a presença de negros em universidades federais, segundo dados do IBGE. Essas políticas, tímidas já sob FHC com o Prouni, acentuaram preconceitos, como visto em discursos bolsonaristas que rotulam beneficiários como “preguiçosos”. A Constituição de 1988, marco da redemocratização, garantiu liberdades, mas forças repressivas persistem, com taxas de letalidade policial três vezes maiores contra negros.
Legado do Neoliberalismo
A implementação neoliberal no Brasil, via privatizações sob FHC, gerou crises econômicas nos anos 1990, com inflação controlada pelo Plano Real, mas desemprego em alta. Mobilizações como as de 1997 contra o governo culminaram em escândalos, ecoando protestos regionais na América Latina, como o Caracazo na Venezuela. Isso sugere uma correlação de forças truncada, onde a democracia formal coexiste com dominação oligárquica.
Entre o Descontentamento Juvenil, o Neoliberalismo e as Lutas pela Igualdade Democrática

O Contexto da Ascensão Conservadora e as Raízes Históricas da Desigualdade
No panorama político contemporâneo do Brasil, a emergência de organizações com viés ideológico de extrema-direita representa não apenas um fenômeno isolado, mas o reflexo de tensões profundas enraizadas na estrutura social e econômica do país. Essas organizações, frequentemente ancoradas em narrativas que exaltam a “liberdade individual” e a “ordem natural” das desigualdades, têm conseguido captar o descontentamento de jovens oriundos da pequena burguesia abastada. Esses jovens, imersos em um ambiente de privilégios relativos, se sentem ameaçados pela visibilidade crescente das classes subalternas proporcionada por políticas públicas inclusivas.
Esse desconforto se manifesta como uma rejeição visceral à existência de mecanismos democráticos que democratizam o acesso à educação, saúde e representação política. Exemplos concretos abundam: o Movimento Brasil Livre (MBL), fundado em 2014 por ativistas como Kim Kataguiri e Renan Santos, inicialmente se posicionou como uma força anticorrupção, mas rapidamente evoluiu para um bastião de críticas às políticas sociais petistas, atraindo milhares de jovens universitários em manifestações que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff em 2016.
Kataguiri, um jovem de 23 anos na época, utilizou sua trajetória pessoal – de morador de periferia que ascendeu via educação privada – para argumentar contra cotas raciais, alegando que elas perpetuam divisões. Contudo, uma análise mais profunda revela que sua retórica ignora as barreiras estruturais ao acesso educacional para a maioria da população negra, que historicamente representa 56% dos brasileiros, segundo o IBGE, mas apenas 13% dos formados em universidades federais antes das cotas.
Essa explicação do exemplo ilustra como a extrema-direita instrumentaliza narrativas individualistas para mascarar interesses coletivos de classe, convertendo jovens inconformados em defensores de um status quo que beneficia oligarquias agrárias e financeiras. Ademais, o fenômeno não é exclusivo do Brasil; estudos da SciELO, como o artigo “Dominação burguesa entre o velho e o novo”, apontam para uma articulação transnacional, com paralelos nos movimentos ALT-RIGHT nos EUA, onde jovens brancos de subúrbios se aliam a discursos anti-imigração.
No contexto brasileiro, essa difusão se acentuou após 2013, com as Jornadas de Junho servindo como catalisador: o que começou como protestos contra tarifas de ônibus evoluiu para uma onda anticomunista, alimentada por fake News em redes sociais que associavam o PT a uma suposta “ditadura do proletariado”. Assim, a atração de jovens pela extrema-direita não é mero acidente, mas resultado de uma engenharia ideológica que explora o vácuo deixado pela esquerda em dialogar com aspirações juvenis de mobilidade social, enquanto simultaneamente reforça preconceitos contra os “outros” – pobres, negros e indígenas – vistos como intrusos no espaço público.
Essa dinâmica ecoa a história das oligarquias liberais brasileiras, que desde o Império usaram o liberalismo como verniz para o escravismo, garantindo liberdades apenas para proprietários brancos. Em suma, compreender essa ascensão requer não só mapear os atores, mas desvelar as contradições da democracia brasileira, onde avanços inclusivos colidem com resistências reacionárias. Isso demanda uma análise que integre história, economia e psicologia social para vislumbrar caminhos de superação.
Políticas Afirmativas e a Retaliação Preconceituoso:

Do Bolsa Família às Cotas Raciais
As políticas governamentais compensatórias implementadas nos governos de Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016), com ecos tímidos já no mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), representam um capítulo paradigmático na redução da pobreza extrema e das desigualdades étnico-raciais no Brasil. Contudo, também catalisaram uma onda de preconceitos que a extrema-direita soube explorar, transformando avanços sociais em alvos de retórica divisionista.
O Bolsa Família, lançado em 2003 como unificação de programas anteriores, beneficiou inicialmente 11 milhões de famílias, expandindo-se para 14 milhões até 2016. Segundo o Instituto Lula, 36 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza extrema, e o país deixou o Mapa da Fome da ONU pela primeira vez em 2014, graças a transferências condicionais que exigiam frequência escolar e vacinação, fomentando uma geração mais educada e saudável entre os subalternos.
Um exemplo concreto é o caso de Maria José Silva, mãe solo moradora de uma favela no Rio de Janeiro. Beneficiária do Programa Bolsa Família desde 2004, ela conseguiu matricular seus três filhos em escolas públicas e, com o incremento de renda de R$ 140 mensais, investiu em um pequeno negócio de costura. Em cinco anos, sua renda familiar aumentou de R$ 300 para R$ 800, demonstrando o impacto transformador do programa.
Essa trajetória — replicada em milhões de lares brasileiros, sendo 73% deles compostos por famílias negras, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social — ilustra como o Bolsa Família superou a visão assistencialista, tornando-se uma alavanca de empoderamento econômico. O reflexo social desse avanço é visível: o índice de Gini, que mede a desigualdade de renda, caiu de 0,58 em 2001 para 0,51 em 2014, conforme dados do Banco Mundial.
No entanto, essa visibilidade das classes pobres, majoritariamente pretas e pardas, gerou um backlash (retaliação) imediato: discursos da extrema-direita, propagados por figuras como Jair Bolsonaro, rotulavam os beneficiários como “vagabundos” e “parasitas do Estado”, acentuando preconceitos contra “pobres e pretos”, como evidenciado em relatórios da Anistia Internacional que registram um aumento de 20% em crimes de ódio racial entre 2010 e 2018.
Paralelamente, as cotas raciais, instituídas pela Lei 12.711/2012 sob Dilma, reservaram 50% das vagas em universidades federais para estudantes de baixa renda com recorte étnico-racial. Isso resultou em um salto de 2% para 18% na matrícula de negros em cursos de elite como Medicina na USP, conforme estudo da FLACSO. Um exemplo explicativo é o de João Pedro Oliveira, um jovem quilombola do Maranhão que, pré-cotas, sonhava com vestibular, mas enfrentava evasão escolar por falta de recursos. Após a lei, ingressou em Engenharia na UFMA em 2013 e graduou-se em 2018, atuando atualmente como engenheiro civil em São Luís, contribuindo para o desenvolvimento local com projetos de saneamento em comunidades ribeirinhas.
Essa política não só corrigiu distorções históricas – o Brasil, último país das Américas a abolir a escravatura em 1888, herdou um legado de exclusão onde brancos detêm 80% das posições de poder, segundo o IPEA – mas também elevou a autoestima coletiva, como atestado pelo livro “SEPPIR: Promovendo a Igualdade Racial” do governo federal. No entanto, o viés ideológico da extrema-direita, representado por grupos de reflexão como o Instituto Millenium, financiado por empresários como Jorge Paulo Lemann, contrapôs-se ferozmente, alegando “inversão de valores” e fomentando narrativas anti-marxistas que associam cotas a uma suposta “doutrinação comunista”. Essa retórica, aliada a uma valorização da hierarquia social “natural” – onde brancos, machos e proprietários ocupam o topo – justifica uma polícia convicta em reprimir subalternos.
Assim, enquanto as políticas afirmativas pavimentaram caminhos para a inclusão, a retaliação preconceituosa revela as fissuras da democracia brasileira, onde avanços sociais colidem com resistências oligárquicas, demandando vigilância contínua para que a igualdade não seja mera ilusão.
| Política Afirmativa | Governo de Implementação | Impacto Principal | Exemplo Concreto | Fonte |
| Bolsa Família | Lula (2003) | Redução de 28% na pobreza extrema; 36 milhões beneficiados | Maria José Silva: ascensão econômica via costura | Instituto Lula |
| Lei de Cotas Raciais | Dilma (2012) | Aumento de 50% em matrículas de negros em federais | João Pedro Oliveira: graduação em Engenharia | FLACSO |
| Prouni (prévia) | FHC (2004) | 2,5 milhões de bolsas; foco em baixa renda | Estudantes periféricos acessando particulares | IPEA |
| Estatuto da Igualdade Racial | Lula (2010) | Marco legal contra discriminação | Campanhas antirracismo em mídia | SEPPIR |
Oligarquias Liberais e a Instrumentalização do Direito: Da Escravidão ao Autoritarismo Moderno
As oligarquias brasileiras, historicamente ancoradas em uma visão liberal que legitima a propriedade privada como direito natural, serviram como invólucro ideológico para práticas escravistas e feudais tardias, garantindo liberdades individuais apenas aos proprietários, enquanto o Estado e forças privadas reprimiam subalternos. Essa dinâmica persiste na contemporaneidade sob o manto da extrema-direita.
Desde o período colonial, o liberalismo – importado das revoluções burguesas europeias – foi adaptado para justificar o escravismo. A Lei do Ventre Livre de 1871, por exemplo, prometia liberdade aos filhos de escravizadas a partir de 1888, mas na prática prolongou o cativeiro, beneficiando cafeicultores paulistas que acumularam fortunas com mão de obra africana forçada. Esse exemplo ilustra como o “direito natural” das oligarquias – a inviolabilidade da propriedade – sobrepujava direitos humanos.
Na República Oligárquica (1889-1930), essa lógica se perpetuou via “política dos governadores”, onde elites mineiras e paulistas manipulavam eleições com coronéis armados, excluindo analfabetos – 70% da população, majoritariamente negros e pobres – do voto. Quando ameaçadas, como na Revolta da Vacina de 1904, as oligarquias fortaleceram o Estado repressivo. No século XX, sob ditaduras como a de 1964-1985, essa tradição se atualizou: o AI-5 de 1968 suspendeu habeas corpus, permitindo torturas a opositores.
Hoje, a extrema-direita revive essa lógica, apoiando uma polícia que, em 2023, matou 6.465 pessoas – 80% negros. Exemplificando, o caso de Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018, revela como o Direito é seletivo: investigações demoraram anos, contrastando com prisões rápidas de ativistas de esquerda. Assim, o liberalismo oligárquico, longe de promover igualdade, perpetua violência de classe, demandando uma reinterpretação radical do Estado de Direito para incluir efetivamente os subalternos.
A Crise Estrutural do Capitalismo nos Anos 1970 e a Emergência Global do Neoliberalismo
A crise estrutural do capitalismo, iniciada nos anos 1970 com a queda acentuada das taxas de lucro, desencadeou uma ofensiva neoliberal que reestruturou a produção global. A financeirização e a precarização laboral tiveram resultados desastrosos para os subalternos. Globalmente, a crise eclodiu com o colapso do sistema de Bretton Woods em 1971.
No Brasil, sob a ditadura militar, o endividamento externo saltou de US3bilho~es em1 964 para US 3 bilhões em 1964 para US3bilho~esem 1964 para US 100 bilhões em 1980, forçando ajustes via FMI que cortaram investimentos sociais em 40%. Um exemplo é a reestruturação da indústria automobilística: a Ford e a Volkswagen, sob pressão de lucros em declínio nos EUA, transferiram produção para o Brasil, intensificando turnos de 12 horas. Mobilizações como as de 1979, lideradas por metalúrgicos como Lula da Silva, reivindicaram reajustes contra inflação, mas foram reprimidas.
A financeirização viu bancos multiplicarem ativos via especulação em títulos públicos, enquanto privatizações incipientes prepararam o terreno para os anos 1990. Para os subalternos, os efeitos foram catastróficos: desemprego dobrou e a fome afetou 30% da população rural. No Brasil, essa crise intersectou com efervescência subalterna, forçando uma transição controlada que assimilou o neoliberalismo como “solução” imperial.
Democratização Truncada nos Anos 1980: A Constituição de 1988 e a Imposição Neoliberal
A luta pela democracia na América Latina, incluindo o Brasil dos anos 1980, alimentou camadas sociais diversificadas em oposição às ditaduras, mas encontrou-se com a imposição neoliberal dos centros imperiais. A Constituição de 1988 garantiu liberdades formais, mas não eliminou forças repressivas, truncando a democratização e viabilizando o reagrupamento oligárquico sob FHC.
A correlação de forças culminou na Assembleia Constituinte de 1987-1988, redigida por 559 parlamentares. Embora a Constituição tenha incorporado cláusulas como saúde e educação como direitos universais, cedeu a emendas privatistas que permitiram a abertura econômica. A redemocratização, iniciada com Geisel em 1974, viu mobilizações como as Diretas Já, mas o Colégio Eleitoral de 1985 elegeu Tancredo Neves em acordo com militares.
Assim, a democratização foi uma maquiagem, com violência de classe persistindo.
O Neoliberalismo no Brasil dos Anos 1990: Privatizações, Crises e Mobilizações Populares
O Brasil, último da América Latina a sucumbir ao neoliberalismo sob Collor e consolidado por FHC, preparou o terreno via ofensiva ideológica contra estatais. O Plano Collor confiscou poupanças, enquanto FHC privatizou a Vale, beneficiando fundos, mas gerando demissões. Escândalos mobilizaram 100 mil em Brasília.
Essas mobilizações sinalizaram o desgaste neoliberal, com o índice de Gini subindo. Em conclusão, a trajetória brasileira entre extrema-direita, neoliberalismo e democracia revela contradições irresolutas, demandando engajamento crítico para rupturas reais.
Citação principal
- SciELO: Ascensão da Extrema-Direita
- Instituto Lula: Políticas Afirmativas
- FLACSO: Ação Afirmativa e Raça
- Brasil Escola: República Oligárquica
- Blog do Boitempo: Crise Estrutural do Capital
- Fundação FHC: Democracia e Neoliberalismo
- PUC-SP: Governo FHC e Neoliberalismo
- DW Brasil: X Post on Extrema-Direita
Informações de qualidade, ampla e conteúdo de extrema importância!
Obrigado pela viisita
Perfeita análise histórica, que reflete os acontecimentos atuais!