As Origens Pré-Históricas da Odontologia
A odontologia pré-histórica representa uma das primeiras manifestações de intervenção humana intencional sobre o corpo, motivada principalmente pela dor dental causada por cáries e infecções. Evidências arqueológicas — obtidas por meio de análises como microtomografia (micro-CT), microscopia eletrônica de varredura (SEM) e datação por radiocarbono (C14) — revelam práticas de perfuração, raspagem, extração e preenchimento rudimentar.

Evidências Arqueológicas na África, América, Ásia e Europa
Essas descobertas, datadas do Paleolítico Superior ao Neolítico (aproximadamente entre 15.000 e 4.000 anos atrás), coincidem com transformações alimentares significativas, como o aumento do consumo de carboidratos entre caçadores-coletores e os primeiros agricultores. A seguir, apresentamos as principais evidências por continente, destacando os sítios arqueológicos mais antigos e relevantes.
1. África: Berço das Primeiras Práticas de Higiene e Tratamento Dental
A África, berço da humanidade moderna, apresenta as evidências mais antigas de cuidados bucais, associadas à evolução humana e à adaptação ao ambiente. As práticas iniciais focavam no alívio da dor e na higiene oral, evoluindo, no Neolítico, para intervenções mais precisas e técnicas.
- Origens Paleolíticas (~75.000 a.C. – 15.000 a.C.)
- Primeiros indícios de higiene oral: Na Caverna Blombos (África do Sul), há cerca de 75.000 anos, foram encontrados vestígios de ocre e minerais usados possivelmente como pasta primitiva, destinados à limpeza bucal e ao combate de infecções. Análises químicas de resíduos em ferramentas de osso confirmam contato oral intencional.
- Toothpicking e alívio básico: Em Taforalt (Marrocos), datado de cerca de 15.000 anos, sulcos nos dentes indicam o uso de ossos de animais como palitos para remoção de detritos e alívio da dor, confirmados por SEM. Essa prática, comum entre caçadores-coletores, reflete um conhecimento empírico de anatomia dental.
- Período Neolítico (~7.000 a.C. – 5.000 a.C.)
- Extrações e raspagens iniciais: Em Kadero (Sudão), mandíbulas datadas de cerca de 7.000 anos mostram extrações traumáticas realizadas com pedras afiadas, associadas a infecções causadas por dietas ricas em raízes.
- Perfurações e preenchimentos avançados: Em Wadi Takarkori (Líbia), por volta de 5.200 anos atrás, foram encontrados molares perfurados e preenchidos com resina vegetal, representando o mais antigo “tratamento de canal” africano, confirmado por micro-CT.
- Cáries e dietas ricas em amido: Populações do Norte da África (~14.000 anos) apresentavam alta incidência de cáries, ligadas ao consumo de plantas silvestres cariogênicas, com indícios de raspagens manuais como forma de tratamento.
2. América: Inovações Locais em Perfurações e Materiais Vegetais
Nas Américas, as práticas odontológicas surgiram com as primeiras migrações humanas (~15.000 anos atrás), adaptando-se a dietas baseadas em milho e raízes. As evidências concentram-se no Meso e Sul da América e demonstram técnicas independentes voltadas tanto ao alívio da dor quanto à modificação estética.
- Origens Pré-Clássicas (~10.000 a.C. – 6.000 a.C.)
- Raspagens e extrações primitivas: Em Lagoa Santa (Brasil), mandíbulas datadas entre 10.000 e 7.000 anos revelam marcas de raspagem com sílex, usadas para tratar cáries derivadas de dietas ricas em raízes.
- Primeiras perfurações nas Américas: No Vale de Tehuacán (México), cerca de 6.500 anos atrás, dentes perfurados com brocas de obsidiana evidenciam remoção de polpa infectada; as marcas circulares e a sobrevivência dos indivíduos indicam eficácia no procedimento.
- Período Formativo (~4.000 a.C. – 1.000 a.C.)
- Preenchimentos com fibras naturais: Em Huaca Prieta (Peru), cavidades foram seladas com algodão e resina vegetal, identificadas por cromatografia gasosa-espectrometria de massa (GC-MS) — um exemplo de obturação com materiais locais.
- Modificações patológicas e estéticas: No Sudoeste dos Estados Unidos (sítio Fremont, Colorado, ~1.025 d.C.), um canino perfurado sugere tratamento de abscesso.
- Práticas maias ancestrais: Na Mesoamérica, durante o Período Pré-Clássico (~2.000 a.C.), há evidências de modificações dentárias intencionais com fins estéticos e terapêuticos.
3. Ásia: Tradições de Perfuração e Ablação Ligadas à Agricultura
A Ásia apresenta as evidências mais antigas de perfuração dental in vivo, associadas ao advento da agricultura e ao consumo crescente de grãos.
- Origens Neolíticas (~9.000 a.C. – 7.000 a.C.)
- Primeiro “drilling” in vivo do mundo: Em Mehrgarh (Paquistão), entre 9.000 e 7.500 anos, foram encontrados 11 molares perfurados em nove adultos, realizados com brocas de sílex. As análises indicam ausência de infecção pós-operatória.
- Raspagens para remover cáries: Em Ain Mallaha (Israel), marcas de microlitos nos dentes revelam tentativas de raspagem de tecido cariado.
- Preenchimentos com betume: Em Liang Bua (Indonésia), uma cavidade foi selada com betume natural, o que representa o uso de materiais adesivos naturais em caçadores-coletores.
- Período Posterior (~4.000 a.C. – 2.000 a.C.)
- Ablação ritual e tratamento de cáries: Em Taiwan, rituais austronésios neolíticos (~4.000–3.000 anos) envolviam remoção simétrica de dentes, com evidências de tratamento de cáries associado.
- Uso de plantas psicoativas: Em Nong Ratchawat (Tailândia), cálculos dentários revelam mastigação de nozes de betel — o mais antigo registro de uso analgésico oral conhecido.
- Cáries em populações agrícolas: Na China, dentes pré-históricos exibem alta incidência de cáries relacionadas à agricultura e raspagens manuais terapêuticas.
4. Europa: Manipulações Paleolíticas e Preenchimentos Neolíticos
A Europa possui as evidências mais antigas de intervenção em cáries, com exemplos que vão do Paleolítico Superior ao Neolítico, demonstrando a evolução da odontologia operativa primitiva.
- Origens Paleolíticas (~14.000 a.C.)
- Primeiro tratamento de canal conhecido: Em Riparo Villabruna (Itália), um molar com cavidade ampliada por pontas de sílex foi analisado por micro-CT e replicações experimentais, constituindo o registro mais antigo de tratamento odontológico funcional.
- Manipulação de decay inicial: Em Riparo Fredian (Toscana, Itália), um dente apresenta possível preenchimento pós-remoção de polpa, confirmado por análise de impressões oclusais (OFA).
- Período Neolítico (~6.500 a.C. – 4.000 a.C.)
- Mais antigo preenchimento com cera: Na Caverna de Lonche (Eslovênia), um canino foi preenchido com cera de abelha, datado por C14 — o primeiro exemplo conhecido de obturação funcional.
- Patologias e desgaste extra-mastigatório: Em Atapuerca (Espanha), mandíbulas neolíticas revelam abscessos tratados e dentes utilizados como ferramentas.
- Bactérias cariogênicas e dietas: Em cavernas calcárias na Irlanda (~4.000 anos), dentes mostram alta concentração de bactérias causadoras de cáries, com evidências de intervenções manuais.
Quando a Dor Ensinou a Ciência: Lições da Pré-História
As descobertas globais revelam que a odontologia pré-histórica não foi um fenômeno isolado, mas uma resposta universal à dor, à deterioração dental e à necessidade de preservação funcional dos dentes. Desde os caçadores-coletores do Paleolítico até as primeiras sociedades agrícolas, os humanos desenvolveram estratégias empíricas de tratamento, adaptadas aos recursos disponíveis — sejam as lâminas de sílex e obsidiana utilizadas para perfurações e raspagens, ou as substâncias naturais como resinas, cera de abelha e betume, empregadas para vedação e alívio.
Essas práticas rudimentares, longe de meros improvisos, revelam conhecimento técnico e sensibilidade cultural, apontando para uma compreensão intuitiva do corpo humano e uma preocupação precoce com o bem-estar coletivo. A odontologia, portanto, emerge como uma das primeiras expressões do cuidado e da tecnologia aplicada à saúde, integrando-se ao universo simbólico e material das comunidades antigas.
Atualmente, estudos de microanálise do cálculo dental, isótopos estáveis e DNA antigo vêm ampliando significativamente o entendimento sobre as dietas, hábitos culturais, padrões de mobilidade e interações ambientais dessas populações. Essas investigações não apenas refinam o olhar sobre a odontologia pré-histórica, mas também reconstroem aspectos essenciais da história biocultural da humanidade, demonstrando que a saúde oral sempre foi um reflexo da relação entre o ser humano e seu meio.
Para aprofundar-se nas especificidades de cada região e tradição tecnológica, recomenda-se a consulta às fontes arqueológicas e bioantropológicas regionais, que continuam a revelar novas evidências e interpretações sobre as origens do cuidado dental — um elo entre dor, técnica e humanidade.
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A História da Odontologia na Antiguidade na África, América, Ásia e Europa – CEHASC