A Conspiração Pós-Pandemia

O Que a Ciência Social Nos Ensina
A pandemia de COVID-19 não foi apenas uma crise sanitária global: tornou-se um verdadeiro laboratório social, revelando como o medo, a incerteza e a sobrecarga de informações alimentam teorias conspiratórias. Este artigo analisa o fenômeno à luz da Sociologia, da Psicologia Social e da Antropologia, conectando experiências passadas e atuais para compreender como narrativas simplificadoras encontram terreno fértil em momentos de crise.
Entre o medo e a informação, como nascem as narrativas conspiratórias em tempos de crise
Ao longo da história, momentos de ruptura — guerras, epidemias, crises econômicas — sempre abriram espaço para o surgimento de teorias conspiratórias. Durante a pandemia de COVID-19 (2020–2023), o planeta vivenciou não apenas um colapso nos sistemas de saúde, mas também uma “infodemia”, termo cunhado pela OMS para designar a enxurrada de informações, muitas vezes falsas ou distorcidas, que circularam nas redes.
Segundo Bauman (2001), sociedades em crise tendem a buscar explicações imediatas para o inesperado, já que a insegurança abala a sensação de ordem e previsibilidade. Nesse contexto, as conspirações emergem como narrativas capazes de oferecer vilões claros, respostas rápidas e uma ilusão de controle.
O Fator Mídia na Crise
A pandemia consolidou as redes sociais como principal fonte de informação para bilhões de pessoas. O Twitter, o WhatsApp e o Facebook se tornaram espaços privilegiados para a circulação de conteúdos — tanto científicos quanto conspiratórios.
A teoria do Agenda Setting (McCombs & Shaw, 1972) já explicava que a mídia influencia não apenas o que pensar, mas sobre o que pensar. No contexto da pandemia, notícias sobre vacinas, origens do vírus ou medidas de isolamento eram constantemente acompanhadas por narrativas alternativas: desde a ideia de que a COVID-19 teria sido “criada em laboratório” até suposições sobre chips de controle nas vacinas.
O impacto foi tão grande que o Pew Research Center (2021) mostrou que, nos EUA, 26% dos adultos acreditavam que a pandemia havia sido planejada. No Brasil, segundo pesquisa da Fiocruz (2021), cerca de 20% da população acreditava que as vacinas poderiam alterar o DNA — reflexo direto do poder da desinformação digital.
A Psicologia do Medo e da Incerteza
A Psicologia Social mostra que o medo coletivo é um gatilho poderoso para o pensamento conspiratório. Festinger (1957), ao propor a teoria da dissonância cognitiva, explicou como indivíduos buscam reduzir o desconforto gerado por informações contraditórias. Assim, quando os dados científicos são complexos e incertos, narrativas simplificadas se tornam mais atraentes.
Durante a pandemia, muitos buscaram culpados claros: governos, cientistas, organizações internacionais. Essa busca se conecta ao conceito de bode expiatório (Girard, 1982), em que grupos sociais canalizam sua angústia contra um inimigo comum.
Um exemplo marcante foi a associação de estrangeiros à origem da COVID-19, reacendendo estigmas e xenofobias. Estudos de van Prooijen e Douglas (2018) mostram que as teorias conspiratórias florescem especialmente quando a incerteza e o sentimento de impotência são elevados.
O Ciclo Histórico das Conspirações
A pandemia de COVID-19 não inaugurou o fenômeno conspiratório — apenas o intensificou. Durante a Peste Negra (século XIV), por exemplo, comunidades judaicas foram acusadas de envenenar poços, resultando em massacres pela Europa. Na Gripe Espanhola (1918), circularam boatos de que o vírus havia sido criado por potências inimigas em meio à Primeira Guerra Mundial.
Esses exemplos reforçam a análise de Michel Foucault (1979), segundo a qual narrativas de poder sempre disputam a interpretação da realidade. Em períodos de instabilidade, a luta pelo monopólio da verdade se acirra, e discursos conspiratórios ganham força como “contranarrativas”.
Por Que Essa Versão Funciona?
A conspiração pós-pandemia é mais do que uma curiosidade sociológica: é um alerta sobre como sociedades lidam com a complexidade. O medo, a incerteza e a velocidade da informação criam um terreno fértil para narrativas simplificadas que podem comprometer políticas públicas e a própria democracia.
Ao compreender o fenômeno à luz das Ciências Sociais, percebemos que combater a desinformação não é apenas tarefa técnica, mas sobretudo cultural e educacional. A chave está em desenvolver pensamento crítico, fortalecer a confiança em instituições e ampliar o diálogo entre ciência e sociedade.
Como lembra Hannah Arendt (1951), a verdade pode ser frágil diante da manipulação, mas continua sendo a base indispensável para a vida pública. É sobre ela que devemos reconstruir o pós-pandemia.
Referências Bibliográficas
- ARENDT, H. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
- BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
- FESTINGER, L. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.
- FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
- GIRARD, R. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 1982.
- MCCOMBS, M.; SHAW, D. The Agenda-Setting Function of Mass Media. Public Opinion Quarterly, 1972.
- PROOIJEN, J. W.; DOUGLAS, K. M. Belief in Conspiracy Theories: Basic Principles of an Emerging Research Domain. European Journal of Social Psychology, 2018.
- PEW RESEARCH CENTER. Conspiracy Theories and COVID-19. Washington, 2021.
- FIOCRUZ. Percepções sobre COVID-19 e Vacinação. Rio de Janeiro, 2021.