
O ÚLTIMO VOO
Crônica de uma Execução Anunciada
J.B. NETO
⏱️ Tempo estimado de leitura: 45 minutos
Em 30 de março de 2105, o Major Kurt Jordan recebe uma missão que deveria ser apenas mais uma operação militar a serviço do Governo Único Mundial: conduzir o bombardeiro estratégico ATB-111 até Orcam, cidade da Federação dos Estados Independentes Democráticos, no sul da África. A ordem é simples e absoluta: atingir o alvo e retornar à base. A bordo da aeronave, entretanto, Jordan começa a compreender que por trás dos mapas, coordenadas e códigos militares existe uma cidade habitada por milhares de pessoas que desconhecem o destino que lhes foi reservado.
Enquanto o bombardeiro se aproxima de Orcam, a narrativa acompanha a vida cotidiana de seus habitantes, revelando uma sociedade marcada por contrastes, pela memória e pelas consequências de anos de controle político e ideológico. Famílias seguem suas rotinas, trabalhadores dirigem-se às fábricas, estudantes caminham para a escola e professores tentam ensinar uma história submetida à interferência do poder. Em poucos minutos, toda essa existência será reduzida ao silêncio.
O ataque transforma Orcam em um cenário de destruição. Depois da explosão, porém, a missão não termina. O retorno à base dá início a uma sequência de acontecimentos que coloca o Major Jordan diante das consequências de sua própria ação. O Tenente Michael Bernstein, atormentado pelo que aconteceu, decide denunciar o superior, desencadeando uma investigação que rapidamente transforma o responsável pelo bombardeio em acusado pelo próprio Governo Único.

Preso, isolado e submetido a um julgamento conduzido por uma estrutura militar que não admite questionamentos, Jordan passa meses em uma cela secreta. Longe dos instrumentos de guerra e privado de qualquer contato com o mundo exterior, ele revive mentalmente aquilo que aconteceu em Orcam e começa a confrontar o significado de suas próprias escolhas.
Meses depois, a sentença é executada. O mesmo Estado que ordenara a destruição de uma cidade agora transforma um de seus próprios oficiais em exemplo público de obediência e punição. Entre o bombardeio e o fuzilamento, o conto acompanha a trajetória de um homem que participou de uma decisão irreversível e descobriu, tarde demais, que em regimes construídos sobre a obediência absoluta ninguém está verdadeiramente protegido pelo poder que serve.
O Último Voo é uma narrativa de ficção distópica sobre guerra, memória, responsabilidade e poder. Mais do que contar a história de uma missão militar, o conto questiona o momento em que a obediência deixa de ser dever e passa a ser instrumento de destruição — e quando aqueles que servem ao poder descobrem que também podem se tornar vítimas dele.
Este conto faz parte do universo de O Crepúsculo dos Homens.
I — A BASE NOS AÇORES
30 de março de 2105 | 04:00 h | Base Bombardeiro Estratégico das Forças Armadas do Governo Único Mundial, Ilha dos Açores, Atlântico Norte

A madrugada não tinha estrelas. O céu era uma abóbada de chumbo fundido, uma massa compacta e opressiva que parecia pressionar a terra com o peso de sua escuridão. De quando em quando, veios de relâmpago cortavam o horizonte como cicatrizes luminosas, rasgando o negrume com uma violência branca e silenciosa que precedia o trovão. O ar cheirava a querosene e a metal frio, uma mistura química que se impregnava nas narinas, na pele, nos poros e não se lavava com água nem com tempo. Era o odor da guerra, o perfume de uma civilização que aprendera a respirar a própria destruição.
Na pista de pouso, sob a luz intermitente dos refletores que oscilavam com o vento, o bombardeiro ATB-111 aguardava. Era uma aeronave de design agressivo, asas em delta, fuselagem negra que absorvia a pouca luz disponível, motores de propulsão iônica que rugiam como bestas adormecidas. Ao redor, técnicos de uniforme cinza moviam-se com eficiência silenciosa, conectando mangueiras, verificando sistemas, carregando o míssil nuclear que repousava no ventre da máquina como um feto de metal e urânio.
Kurt Jordan observava a cena com os braços cruzados sobre o peito largo. O major tinha cinquenta e dois anos, mas parecia carregar o dobro. Os cabelos, antes castanhos, estavam quase inteiramente brancos, cortados rente ao crânio conforme o regulamento militar. O rosto era marcado por linhas profundas que não vinham apenas da idade, mas de uma fadiga existencial, do tipo que se acumula quando um homem passa anos fazendo coisas que sua consciência reprova. Os olhos, de um azul claro que em outra vida poderia ter sido descritos como gentis, estavam endurecidos, cercados por olheiras escuras que o tornavam semelhante a um fantasma que ainda não percebera estar morto.
Ao seu lado, o tenente Michael Bernstein era o contraste perfeito. Mais jovem, trinta e quatro anos, loiro, de pele clara e olhos de um verde quase translúcido, Bernstein tinha a aparência de quem ainda acreditava em algo. Ou, pelo menos, de quem aprendera a acreditar no que lhe diziam que era verdade. Seu uniforme estava impecável, as botas brilhavam, e havia em sua postura uma rigidez quase fanática, como se cada músculo de seu corpo estivesse permanentemente em posição de alerta.
— Uma boa cobertura para um ataque aéreo — murmurou Bernstein, mais para si mesmo do que para o outro homem. Sua voz era jovem, clara, sem as rugas sonoras que marcavam a fala de Jordan. Os olhos não se despregavam do céu, como se esperasse que algo — uma estrela, um sinal, uma confirmação — surgisse através das nuvens.
Jordan não respondeu de imediato. Tragou o ar úmido, sentindo o gosto metálico da chuva iminente. Quando falou, sua voz saiu cansada, arrastada, como se cada sílaba exigisse um esforço desnecessário.
— Poderia ser pior.
Fez uma pausa. O trovão rolou ao longe, fazendo tremer o chão sob as botas dos dois homens. Algumas gotas começaram a cair, esparsas, batendo no metal das aeronaves com um som de dedos tamborilando.
— Não gosto desse tipo de missão.
Bernstein virou-se lentamente. Havia nele uma curiosidade mórbida, quase clínica, como a de um entomologista observando um inseto raro. Não era hostilidade — ainda. Era algo mais sutil: o interesse de quem estuda um espécime que pode estar contaminado.
— É a melhor maneira de se minar o inimigo, major. A destruição de centros urbanos desmoraliza a população, quebra a vontade de resistência, acelera o colapso logístico da Federação. É estratégia básica.
Jordan finalmente olhou para ele. Os dois homens se encararam por um longo momento, separados por menos de um metro, mas por abismos ideológicos intransponíveis.
— Matando civis, tenente? — A voz de Jordan era baixa, mas havia nela uma tensão que fez Bernstein endireitar levemente a postura. — Matando pessoas que nunca escolheram estar do outro lado? Mulheres, crianças, velhos que só querem viver suas vidas?
Bernstein não piscou.
— São inimigos, major. Isso basta. O Lorde Protetor foi claro: todos que se recusam a se submeter ao Governo Único são, por definição, inimigos da humanidade. Estamos construindo uma nova história para este planeta. Uma história de ordem, de unidade, de pureza. Às vezes, é necessário sacrificar partes para salvar o todo.
— Pureza — repetiu Jordan, e a palavra saiu de sua boca como algo amargo, uma fruta podre que ele era forçado a mastigar. — É isso que vocês chamam agora?
— Não é o que eu chamo. É o que o Governo estabelece. E nós somos soldados. Nossa função é obedecer.
Jordan não respondeu de imediato. O trovão rolou novamente, mais próximo desta vez, e a chuva começou a cair com mais força, transformando o asfalto da pista em um espelho negro que refletia as luzes dos refletores. Ele olhou para o bombardeiro ATB-111, que era abastecido sob a chuva fina. O líquido escorria pelas asas como sangue diluído, formando poças que se misturavam à água da tempestade.
— Temos que decolar — disse, por fim, cortando o diálogo como quem corta um fio que já não sustenta peso algum.
Caminharam até a aeronave em silêncio. Bernstein ia um passo atrás, observando as costas largas do major, a postura rígida de quem carrega um fardo invisível. Naquele momento, já tomava uma decisão silenciosa: relataria cada palavra ambígua, cada suspiro de dúvida, cada hesitação que pudesse ser interpretada como deslealdade. No Governo Único Mundial, a lealdade não admitia nuances. Questionar era trair. E trair era desaparecer.
Jordan subiu à carlinga sem olhar para trás. Dentro do capacete, seu rosto era apenas uma sombra, um contorno indefinido atrás do visor escuro. Sentou-se no assento do piloto, ajustou os controles, verificou os instrumentos. Tudo estava em ordem. Tudo estava sempre em ordem. O Governo Único não tolerava falhas.
Bernstein ocupou o assento do copiloto. Os dois homens começaram a sequência de pré-decolagem, uma coreografia ensaiada milhares de vezes, gestos automáticos que não exigiam pensamento. Alavancas, botões, telas, luzes piscando em verde e vermelho, códigos aparecendo e desaparecendo, vozes sintéticas confirmando sistemas.
— Sistemas de navegação on-line — anunciou Bernstein.
— Propulsão nominal — respondeu Jordan.
— Armamento carregado e travado.
— Confirmado.
O rádio crepitou. A voz do controle de tráfego aéreo da base surgiu, distorcida por estática.
— ATB-111, vocês estão autorizados para decolagem. Rota Alfa-Nove. Coordenadas de lançamento serão transmitidas em voo. Boa sorte, senhores. O Lorde Protetor observa.
Jordan não respondeu. Apenas empurrou os aceleradores.
Os motores rugiram, um som que vinha das profundezas da máquina e fazia tremer o esqueleto da aeronave. O ATB-111 começou a mover-se na pista, ganhando velocidade gradualmente, as rodas vibrando contra o asfalto irregular. A chuva batia no visor do cockpit como dedos impacientes.
Bernstein olhou para Jordan. O major mantinha os olhos fixos à frente, as mãos firmes nos controles, o rosto impassível. Mas havia algo em sua expressão — uma tensão quase imperceptível nos músculos da mandíbula, um brilho estranho nos olhos — que fez o tenente sentir um desconforto que não soube nomear.
O avião levantou-se da pista com um solavanco suave, mergulhou na noite atlântica e começou a subir, atravessando as camadas de nuvens, rumo à estratosfera. Abaixo deles, o oceano era uma massa informe, negra e indiferente. Acima, o céu não tinha estrelas.
II — O VOO
04:47 h | Altitude: 18.000 metros | Sobre o Atlântico Sul

O ATB-111 voava em silêncio. Os motores, ajustados para cruzeiro, produziam apenas um zumbido grave que se tornara parte do tecido sonoro da cabine, tão constante que os dois homens já não o percebiam conscientemente. Lá fora, a escuridão era absoluta. As nuvens ficavam abaixo deles, um mar branco e ondulado iluminado de vez em quando por relâmpagos que não alcançavam sua altitude. A aeronave já havia atravessado grande parte do Atlântico e seguia em alta velocidade pela rota estratégica traçada para o sul, deixando para trás o arquipélago dos Açores e aproximando-se progressivamente das latitudes do Atlântico Sul.
Kurt Jordan fora, em outra vida — uma vida que parecia pertencer a outro homem — piloto da Força Aérea norte-americana. Nascido em Denver, Colorado, em 2053, crescera ouvindo histórias de um tempo em que os Estados Unidos ainda eram uma nação soberana, em que a bandeira estrelada ainda tremulava sobre edifícios governamentais, em que homens como seu pai serviam a um país que, ao menos nominalmente, pertencia ao seu povo.
O pai de Jordan fora coronel da USAF. Servirá durante as Guerras de Unificação, aqueles conflitos confusos e sangrentos que marcaram o colapso das antigas nações e o surgimento do Governo Único Mundial. Morrera em 2089, durante os distúrbios de Chicago, quando tropas leais ao Lorde Protetor esmagaram os últimos focos de resistência norte-americana. Kurt tinha trinta e seis anos na época. Lembrou-se do funeral, do caixão fechado, da bandeira dobrada entregue à mãe, das palavras vazias do oficial que disse que o coronel morrera “servindo à humanidade”.
Servindo à humanidade. A frase o perseguia há vinte e um anos.
Jordan servia ao Governo Único não por fé, mas por inércia. Após a morte do pai, fora incorporado à nova estrutura militar, como tantos outros pilotos das antigas forças nacionais. Disseram-lhe que era necessário, que a transição exigia continuidade, que sua experiência seria valiosa para “estabilizar a nova ordem”. Ele acreditara, no fundo de um coração já gasto, que a Federação dos Estados Independentes Democráticos — aquela coalizão heterogênea de nações que se recusavam a se curvar — poderia um dia restaurar algo que se assemelhasse à liberdade.
Via aquela guerra como um moedor de carne e de tempo, um sacrifício obsceno que consumia recursos, vidas e o pouco que restava de humanidade. Cinco anos de conflito. Cinco anos de bombardeios, de cercos, de massacres justificados como “operações de pacificação”. Cinco anos vendo cidades inteiras serem reduzidas a cinzas em nome de uma “unidade” que significava, na prática, a submissão total ao Lorde Protetor e seus arqui-ideólogos.
Revoltava-se, internamente, quando só oficiais brancos foram convocados para a nova aviação do Governo Único. A política racial do regime era aberta, quase dogmática: os brancos, particularmente os de ascendência europeia, eram considerados “biologicamente superiores”, “mais aptos ao comando”, “portadores de uma civilização que deveria ser preservada e expandida”. Jordan, branco, alto, de traços nórdicos, encaixava-se perfeitamente no perfil. Fora promovido, condecorado, tratado como exemplo do “novo homem” que o Governo buscava forjar.
Indignara-se, em silêncio, quando os mesmos homens de pele escura, seus companheiros de outrora, foram enviados a campos de detenção. Lembrava-se de alguns deles: o capitão Marcus Webb, piloto excepcional que servira ao seu lado durante as operações na África Ocidental; a tenente Aisha Okoro, engenheira de sistemas que consertara sua aeronave mais vezes do que ele conseguia contar; o sargento James Carter, atirador de elite que lhe salvara a vida em Lagos. Todos negros. Todos, em questão de semanas, reclassificados como “elementos de risco”, “potencialmente desleais”, “não confiáveis para posições de comando”.
Desapareceram. Alguns diziam que foram para “campos de reeducação”. Outros, mais cínicos, sabiam que eram campos de extermínio disfarçados. Jordan nunca teve certeza. Nunca perguntou. Nunca reagiu.
Esperara. Acreditara — ingênua, teimosamente — que os novos dirigentes poderiam, no futuro, reconsiderar. Que a loucura era temporária. Que a humanidade, em algum momento, recuperaria o juízo. Cinco anos de guerra ensinaram-lhe que a humanidade não recupera o juízo. Apenas aprende novas formas de justificar sua crueldade.
Jordan e Bernstein

— Major?
A voz de Bernstein veio pelo interfone, metálica e distante, trazendo Jordan de volta ao presente. O major piscou, percebendo que ficara imóvel por longos segundos, os olhos fixos no painel sem realmente ver os instrumentos.
— Major, você está bem? — insistiu o tenente.
Jordan respirou fundo. O ar dentro do capacete era reciclado, seco, com um gosto levemente químico.
— Estou bem, tenente. Apenas… pensando.
— Em que, se posso perguntar?
Jordan hesitou. Sabia que cada palavra podia ser registrada, analisada, usada. Mas algo dentro dele — uma necessidade antiga de honestidade, de não se curvar inteiramente — o impeliu a falar.
— Por que ele não os deixa em paz? — A voz saiu mais baixa do que pretendia, quase um sussurro. — Por que o Lorde Protetor não deixa que vivam como quiserem? Se não querem o Governo Único, se escolhem a Federação, que fiquem com a Federação. Que vivam suas vidas. Que morram suas mortes. Por que precisamos destruir tudo?
Houve um silêncio do outro lado. Longo. Pesado.
Bernstein não respondeu imediatamente. Jordan podia imaginar a expressão no rosto do tenente: os olhos verdes estreitando-se levemente, a boca se contraindo numa linha fina, a mente trabalhando rapidamente, categorizando, arquivando, avaliando.
— Major — disse Bernstein, por fim, e havia em sua voz uma frieza que não estava lá antes —, o que você está sugerindo é que o Governo Único deveria permitir a existência de Estados rivais? Que deveríamos tolerar a fragmentação da autoridade mundial?
— Estou sugerindo que talvez haja outras formas além da destruição total.
— Não há. A história nos ensina isso. A unificação exige sacrifício. O Lorde Protetor foi claro desde o início: ou há um governo, ou há caos. Ou há ordem, ou há extinção. A Federação é um obstáculo à sobrevivência da espécie. Eliminá-la não é crueldade. É necessidade.
Jordan não respondeu. Olhou para fora do cockpit. A escuridão lá fora parecia pressionar o vidro, como se quisesse entrar, engolir a aeronave, apagar tudo.
— O que você está sentindo, major? — A pergunta de Bernstein era quase gentil, mas havia nela uma armadilha. Jordan sabia disso.
— Cansaço, tenente. Apenas cansaço.
— Cansaço é compreensível. Todos nós sentimos. Mas não podemos permitir que isso afete nosso julgamento. Não podemos permitir que dúvidas nos enfraqueçam. O Governo conta conosco.
— Sim — murmurou Jordan. — O Governo conta conosco.
O rugido dos motores abafou qualquer resposta que pudesse ter seguido. O ATB-111 ganhou altitude, atravessou a última camada de nuvens e emergiu na estratosfera, onde o céu era negro mesmo de dia, onde as estrelas brilhavam com uma clareza que não existia na superfície poluída do planeta.
Jordan olhou para cima. As estrelas estavam lá. Sempre estiveram. Mas ele não as via há anos. Não realmente.
— Coordenadas de lançamento recebidas — anunciou Bernstein, quebrando o silêncio. — Orcam. Setor 7-Alpha. Tempo estimado de chegada: trinta e seis minutos.
— Confirmado — respondeu Jordan.
Sua voz não traía nada. Mas, dentro do capacete, seus olhos estavam úmidos, e ele não sabia se era de raiva, de vergonha ou de uma tristeza tão antiga que já não tinha nome.
III — A CIDADE ORCAM ANTES DA DESTRUIÇÃO
05:23 h | Orcam, Federação dos Estados Independentes Democráticos | Kalahari, Sul da África

Enquanto o ATB-111 cortava a estratosfera em direção ao sul do continente africano, a cidade de Orcam despertava para mais um dia que seus habitantes acreditavam ser como todos os outros. A diferença de pouco mais de meia hora entre o momento em que a aeronave recebera as coordenadas e a chegada ao alvo correspondia à última etapa de aproximação da rota de ataque, realizada em alta velocidade pelos motores de propulsão iônica.
Orcam fora, em algum momento distante, parte do grande plano habitacional do Governo Único Mundial. Uma cidade-modelo, destinada a receber a população “reordenada” do Terceiro Mundo, conforme a terminologia oficial dos burocratas do Lorde Protetor. O plano era ambicioso: transferir milhões de pessoas de áreas consideradas “supérfluas” ou “problemáticas” para zonas controladas, onde poderiam ser “reeducadas”, “reintegradas” ou, nas palavras mais francas dos documentos internos, “processadas”.
Mas a guerra chegara antes dos burocratas.
Tropas da Federação ocuparam Orcam logo nos primeiros dias do conflito, impedindo a transferência em massa para as zonas remotas reservadas aos “indesejáveis”. A cidade, que deveria ter sido esvaziada e transformada em um centro de detenção, permaneceu habitada. Seus moradores — um milhão e trezentas mil pessoas, conforme o último censo oficial — continuaram suas vidas, adaptaram-se à nova realidade, aprenderam a viver sob a ameaça constante do bombardeio.
O Lorde Protetor não tolerava exceções. Orcam seria transformada em cinzas.
Encravada no meio do deserto do Kalahari, uma vasta região semiárida que se estendia por três países extintos, a cidade carregava as marcas de três séculos de história. Fundada em 1742 por colonizadores europeus — holandeses, portugueses, britânicos — que buscavam rotas comerciais para o interior do continente, crescera pouco até o início do século XXI. Era, durante a maior parte de sua existência, uma cidade provincial, com ruas de terra, edifícios de dois ou três andares, uma economia baseada na agricultura de subsistência e no comércio local.

Depois, com a união política do Brasil e das nações transatlânticas em 2098, o mundo mudará. As antigas fronteiras nacionais foram dissolvidas. Novas potências surgiram. E Orcam, por razões geopolíticas que poucos compreendiam inteiramente, tornara-se um ponto estratégico.
A cidade explodira em verticalidade. Arranha-céus de vidro e aço brotaram ao redor do núcleo histórico, que permanecera intocado por decreto governamental. Os sobrados imponentes do século XIX, com suas varandas de ferro forjado e telhados de telha vermelha, foram preservados como “patrimônio da humanidade unificada”, uma concessão sentimental do Governo Único a um passado que, ironicamente, buscava apagar.
O resultado era uma cidade de contrastes brutais. De um lado, o centro histórico, com suas ruas estreitas, suas luzes de mercúrio que piscavam ao entardecer como olhos cansados, seus edifícios baixos que pareciam encolher-se diante da modernidade que os cercava. Do outro, a periferia expansiva, com seus quilômetros de prédios residenciais idênticos, suas avenidas largas, seus shoppings subterrâneos onde milhões de pessoas circulavam diariamente como formigas em um formigueiro de concreto.
Naquela madrugada de sexta-feira, 30 de março de 2105, Orcam respirava a rotina de sempre. O chuvisco caía sem pressa, molhando calçadas e toldos, formando poças que refletiam as luzes dos postes. O ar cheirava a café coado, a pão fresco, a tecido molhado. Nas avenidas principais, multidões se comprimiam em vagões de metrô, corpos quentes e úmidos pressionados uns contra os outros, o cheiro misturado de suor, perfume barato, comida de rua.
Um milhão e trezentas mil almas estavam em movimento. Homens e mulheres saíam de casa rumo às fábricas, aos escritórios, aos postos de trabalho que mantinham a máquina de guerra girando. Muitos trabalhavam na indústria bélica: montavam mísseis, fabricavam munição, programavam sistemas de defesa. Outros serviam em hospitais, escolas, repartições públicas. Outros ainda eram apenas pessoas tentando sobreviver, pagando contas, criando filhos, envelhecendo.
Ninguém olhou para o céu. Ninguém viu o ponto luminoso que descia, silencioso, através das nuvens.
A Vida em Orcam

Nos subúrbios residenciais do Setor 7, a família Mwangi preparava o café da manhã. Samuel Mwangi, quarenta e dois anos, operário de uma fábrica de componentes eletrônicos, beijou a esposa antes de sair. A filha mais velha, Grace, de dezessete anos, arrumava a mochila para a escola. O filho mais novo, Daniel, de nove, ainda dormia.
— Não se esqueça do agasalho — disse a mãe, entregando um casaco à filha. — Está chovendo.
— Está sempre chovendo — resmungou Grace, mas beijou a mãe antes de sair.
Samuel pegou o trem das 5h45, como fazia todos os dias. O vagão estava lotado, mas ele encontrou um lugar para ficar em pé, segurando-se na barra metálica enquanto o trem acelerava, mergulhando no subsolo da cidade. Ao seu lado, uma mulher lia notícias em um tablet. A manchete falava de “avanços significativos” nas linhas de frente do norte. Samuel não leu. Já não lia as notícias. Não queria saber.
No centro histórico, o velho Ibrahim abria as portas de sua livraria, como fizera por quarenta anos. A loja ficava em um sobrado do século XIX, com piso de madeira que rangia, estantes que chegavam ao teto, o cheiro inconfundível de papel antigo e encadernação. Ibrahim não tinha mais clientes como antes. A guerra, os bombardeios, a crise econômica — tudo reduzira o comércio de livros a uma fração do que fora. Mas ele continuava abrindo as portas todos os dias. Continuava arrumando as estantes, limpando o pó, esperando.
— Bom dia, Ibrahim — disse uma voz conhecida.
Era Fátima, sua vizinha, que vinha todas as manhãs comprar um jornal e tomar um café.
— Bom dia, Fátima. O de sempre?
— O de sempre.
Ela se sentou à pequena mesa junto à janela e olhou para a rua, onde a chuva caía mansamente.
— Dizem que o Governo Único está preparando algo grande — comentou, baixinho. — Ouvi rumores no mercado. Algo sobre Orcam.
Ibrahim parou de arrumar os livros.
— Rumores são apenas rumores, Fátima. Não se deve dar ouvido a tudo.
— Sei. Mas… às vezes sinto que algo está por vir. Algo ruim.
O velho não respondeu. Apenas colocou o café e o jornal sobre a mesa dela. Suas mãos tremiam levemente.
Ele também sentia.
Nas fábricas do setor industrial, as máquinas rugiam sem parar. Homens e mulheres operavam prensas, soldavam metais, programavam computadores, montavam circuitos. O ritmo era frenético. A guerra exigia produção constante. Quem não produzia, não comia. Quem não comia, não sobrevivia.
Amina Okoye trabalhava na Linha 14 de montagem de mísseis. Vinte e oito anos, mãe de dois filhos pequenos que ficavam com a avó enquanto ela trabalhava. Suas mãos se moviam com precisão mecânica: pegar o componente, encaixar, parafusar, verificar, passar para o próximo. Fazia isso há três anos, desde que se mudara para Orcam fugindo dos bombardeios no Norte.
— Ouvi dizer que vão atacar de novo — sussurrou a colega ao lado, sem parar o trabalho. — Dizem que é grande.
— Sempre dizem — respondeu Amina, sem levantar os olhos. — Trabalhe. Se o supervisor vir você conversando…
A colega calou-se. Mas o medo estava lá, nos olhos de todas, no ar pesado da fábrica, no som constante das máquinas que pareciam mastigar o tempo.
A Escola — A guerra pela memória

Nas escolas de Orcam, a mudança de governo ainda não havia chegado às salas de aula. Embora as tropas da Federação dos Estados Independentes Democráticos tivessem ocupado a cidade e interrompido o controle administrativo do Governo Único, os livros, os programas de ensino e os materiais didáticos continuavam praticamente intactos. A guerra havia mudado quem controlava as ruas, mas ainda não havia mudado aquilo que as crianças aprendiam sobre o mundo. História revisada, geografia reescrita, ciência adaptada às necessidades ideológicas do regime: durante anos, o Governo Único controlara o currículo escolar, determinando o que deveria ser ensinado, o que precisava ser esquecido e, sobretudo, quais acontecimentos deveriam ser apresentados às novas gerações como verdades incontestáveis. A Federação ainda não tivera tempo de substituir aquele material. Assim, nas escolas de Orcam, crianças continuavam aprendendo a história escrita pelos vencedores do passado, mesmo enquanto os soldados dos novos vencedores patrulhavam as ruas.
— Hoje vamos estudar a Unificação — disse a professora, uma mulher de meia-idade, de cabelos grisalhos e olhos cansados. Segurava o livro didático aberto diante da turma, embora conhecesse cada página quase de memória. — Quem pode me dizer quando foi estabelecido o Governo Único Mundial?
Mãos se levantaram.
— 2098! — gritou um menino.
— Correto. E quem foi o primeiro Lorde Protetor?
— Alexander Crane!
— Muito bem. E qual era o objetivo declarado da Unificação?
As crianças se entreolharam.
— Trazer ordem ao caos — respondeu uma menina, hesitante. — Unir a humanidade sob um só governo.
A professora permaneceu alguns segundos em silêncio antes de continuar.
— Era isso que os livros diziam. E também diziam que a Unificação acabaria com as guerras entre as nações, garantiria a igualdade entre os povos e asseguraria a sobrevivência da humanidade.
Ela fez uma pausa e olhou para a turma. Pela primeira vez naquela manhã, não repetiu simplesmente a frase impressa no livro.
— Mas uma coisa é aquilo que um governo declara ser seu objetivo. Outra coisa é aquilo que acontece quando esse governo transforma a própria versão da história em verdade oficial.
Algumas crianças levantaram os olhos.
A professora fechou lentamente o livro.
— Durante anos, vocês aprenderam que antes da Unificação havia apenas caos, guerras e divisões. Aprenderam que as antigas nações eram obstáculos ao futuro da humanidade. Aprenderam que a diversidade política era uma ameaça e que somente um governo mundial poderia garantir a paz. Mas a história não é tão simples.
Ela olhou para a porta da sala antes de continuar.
— Havia guerras, sim. Havia conflitos, desigualdades e injustiças. Mas também havia diferentes sociedades, diferentes governos, diferentes culturas, diferentes formas de pensar. Havia pessoas que discordavam umas das outras sem que isso significasse necessariamente que uma delas precisasse ser destruída.
A sala permaneceu em silêncio.
A professora sabia que estava caminhando sobre uma linha perigosa. Durante anos, o currículo do Governo Único ensinara que questionar a narrativa oficial era uma forma de traição. Os livros não apenas selecionavam os acontecimentos que deveriam ser lembrados; também determinavam quais personagens seriam heróis, quais seriam inimigos e quais simplesmente desapareceriam das páginas da história. As guerras de unificação eram apresentadas como inevitáveis. As populações submetidas eram descritas como obstáculos. As cidades destruídas apareciam apenas como números em relatórios militares. Milhões de mortos podiam desaparecer de uma página para outra, substituídos por expressões burocráticas como “baixas necessárias”, “operações de estabilização” ou “sacrifícios históricos”.
— Professora? — perguntou um menino. — Então o livro está errado?
Ela olhou para o exemplar sobre a mesa.
Demorou alguns segundos para responder.
— Não estou dizendo que tudo o que está escrito nele seja falso. Estou dizendo que nenhum livro deveria ser a única voz da história.
Algumas crianças se entreolharam, tentando compreender.
A professora respirou fundo.
— História não existe para ensinar vocês a obedecer. A história existe para que vocês possam compreender o passado, inclusive aquilo que os governos prefeririam que fosse esquecido.
Por um instante, ninguém se moveu.
Ela sabia que aquela frase poderia lhe custar a liberdade se fosse registrada por alguém. Talvez até a vida. Ainda assim, continuou.
— Durante muito tempo, vocês aprenderam que a diversidade era uma ameaça à humanidade. Talvez seja justamente o contrário. Talvez o perigo esteja em um governo que acredita possuir o direito de decidir sozinho o que todos devem pensar, lembrar e ensinar.
A professora fechou o livro.
— Hoje não vamos estudar apenas a Unificação. Vamos estudar também o que existia antes dela. E vamos tentar compreender por que tantas pessoas aceitaram a promessa de um mundo sem guerras, mesmo quando essa promessa começou a exigir que elas entregassem a própria liberdade.
As crianças permaneceram em silêncio.
Do lado de fora, veículos militares da Federação passavam pela avenida principal.
Dentro da sala, pela primeira vez em muitos anos, uma professora começava a ensinar história sem repetir integralmente a versão escrita pelo Governo Único.
Enquanto isso, nas profundezas do subsolo, nos abrigos antiaéreos que pontilhavam a cidade como veias sob a pele, sistemas automáticos verificavam estoques de água, comida, oxigênio. Sensores monitoravam a qualidade do ar. Geradores estavam prontos para entrar em ação. Tudo funcionava perfeitamente. Tudo estava pronto. Só faltava o ataque.
IV — O ATAQUE
05:58 h | Sobrevoando Orcam | Altitude: 22.000 metros

O ATB-111 aproximava-se do alvo. No cockpit, os instrumentos piscavam em ritmos sincronizados. Telas mostravam mapas tridimensionais da cidade abaixo, destacando setores, edifícios-alvo, zonas de impacto estimado. Códigos de confirmação apareciam e desapareciam, exigindo validação constante.
— Alvo à vista — anunciou Bernstein. Sua voz estava diferente agora. Mais firme. Mais entusiasmada. — Setor 7-Alpha confirmado. População estimada: um milhão cento e vinte mil civis. Infraestrutura industrial: quarenta e duas fábricas ativas. Valor estratégico: alto.
Jordan não respondeu. Seus olhos estavam fixos no visor frontal, onde a cidade começava a se desenhar como uma mancha luminosa na escuridão. Orcam. Um milhão e trezentas mil pessoas. Um milhão e trezentas mil vidas que, em poucos minutos, deixariam de existir.
— Major, preciso de confirmação para liberação de armamento — disse Bernstein.
Jordan hesitou. Foi uma hesitação de frações de segundo, um piscar de olhos, um batimento cardíaco, mas foi suficiente.
— Major? — A voz de Bernstein tinha agora uma aresta. Uma pergunta não dita.
Jordan respirou fundo. O ar dentro do capacete parecia mais denso, mais difícil de puxar para dentro dos pulmões.
— Confirmado — disse, finalmente. — Libere o armamento.
Bernstein acionou a sequência.
No ventre da aeronave, travas metálicas se abriram. O míssil nuclear, uma ogiva termonuclear de quinhentos quilotons, começou a deslizar para fora da baia de carga. Por um instante, ficou suspenso, pendurado sob a aeronave como um fruto proibido. Depois, soltou-se e caiu.
Jordan acompanhou a queda com os olhos. Viu o míssil diminuir, transformar-se em um ponto, desaparecer nas nuvens abaixo.
— Míssil liberado — anunciou Bernstein. — Tempo até o impacto: dois minutos e dez segundos. Iniciando manobra de evasão.
O ATB-111 inclinou-se bruscamente, ganhou velocidade, afastou-se do alvo. Jordan sentiu o estômago subir à garganta com a aceleração. Apertou os controles, manteve a aeronave estável e voou. Não pensou. Não podia pensar. Se pensasse, não conseguiria.
O Impacto

O míssil penetrou a atmosfera em velocidade hipersônica. O atrito com o ar fez sua superfície brilhar, transformando-o em uma estrela cadente artificial que riscou o céu noturno de Orcam.
Alguém, em algum lugar, olhou para cima.
— Olha! — gritou, apontando. — Uma estrela!
Crianças correram para as janelas. Adultos pararam nas ruas. Por um instante, a cidade inteira pareceu se voltar para o céu, como se, coletivamente, pressentisse algo.
O míssil atingiu o solo às 06:01 h. Penetrou duzentos metros na crosta terrestre antes de detonar. O que se seguiu não foi som, nem luz, mas uma aniquilação total.
No epicentro, a temperatura atingiu quinze mil graus centígrados em menos de um segundo. O ar se ionizou, transformando-se em plasma. O solo vaporizou. Edifícios, ruas, pessoas, carros, árvores, tudo o que existia num raio de cinco quilômetros deixou de existir instantaneamente, desintegrado pela força da explosão.
A onda de choque expandiu-se em todas as direções a velocidades supersônicas. Prédios foram derrubados como castelos de cartas. Pontes desabaram. Túneis colapsaram. O chão ondulou como água, rachou, abriu-se em fendas que engoliram quarteirões inteiros.
A luz do flash foi tão intensa que, por um instante, a noite se transformou em dia. Uma claridade branca, cegante, que queimou retinas a quilômetros de distância, que deixou marcas permanentes na visão de quem sobreviveu.
Depois veio o som. Um trovão tão profundo que não era ouvido, mas sentido. Um rugido que fez o chão tremer, que derrubou pessoas, que estilhaçou vidros a cinquenta quilômetros de distância. Um som que não vinha de um lugar, mas de todos os lugares ao mesmo tempo, como se o próprio mundo estivesse gritando.
A bola de fogo expandiu-se rapidamente, atingindo um raio de vinte quilômetros. Tudo dentro desse círculo foi consumido. Casas, fábricas, hospitais, escolas, abrigos, pessoas. Tudo.
A família Mwangi estava dispersa pela cidade quando a explosão aconteceu. Samuel encontrava-se no trem, a caminho do trabalho, enquanto Grace seguia para a escola. Daniel permanecera em casa, ainda sob os cuidados da mãe. Quando a luz chegou, Samuel estava entre os passageiros do vagão subterrâneo, Grace entre os estudantes que se dirigiam à escola e Daniel dentro de casa. Não houve dor. Não houve tempo para dor. A luz os atingiu antes que seus cérebros pudessem processar o que estava acontecendo. Em um instante, estavam vivos. No instante seguinte, eram vapor.
Ibrahim estava em sua livraria. Fátima terminava o café. Quando a luz chegou, os dois estavam sentados à mesa, de mãos dadas, como faziam todas as manhãs havia vinte anos. O velho não teve medo. Só teve tempo de apertar a mão dela. Depois, nada.
Amina estava na fábrica. O alarme soou, mas tarde demais. As mulheres correram, mas as portas estavam travadas. O sistema automático de segurança, projetado para evitar roubos, tornou-se uma sentença de morte. Quando a luz chegou, Amina pensou nos filhos. Só nisso. Depois, nada.
O flash durou menos de cinco segundos, mas foi o suficiente para apagar uma cidade inteira do mapa.
V — A CHUVA NEGRA
06:07 h | Pós-impacto | Orcam

A explosão foi tão violenta que os próprios sistemas de comunicação do Governo Único falharam por minutos. Satélites foram cegados temporariamente pelo pulso eletromagnético. Estações de rádio ficaram mudas. Redes de dados colapsaram.
Sobre os escombros, a coluna de fumaça subia em espiral, carregando consigo fragmentos de concreto, metal retorcido, restos humanos vaporizados. A nuvem atingiu a estratosfera, espalhou-se, formou um cogumelo negro visível a centenas de quilômetros de distância. E então começou a chover.
Não era chuva comum.
A fumaça da explosão, carregada de partículas radioativas, cinzas, resíduos químicos, encontrou a umidade da atmosfera. O vapor se condensou em torno das partículas, formou gotas pesadas, escuras, tóxicas.
A chuva negra caiu sobre Orcam. Escorria pelas ruas destruídas, entrava pelas frestas dos abrigos, manchava a pele dos sobreviventes. Era uma lama espessa, pegajosa, que grudava em tudo, que não saía com água, que queimava a pele, que envenenava o ar.
Nos abrigos subterrâneos, as pessoas ouviam o bater da chuva sem compreender. Alguns acreditavam que o pior havia passado. Outros rezavam. Outros ainda choravam em silêncio, abraçados a familiares, a amigos, a estranhos.
O ar tornava-se rarefeito. Os sistemas de ventilação falhavam, sobrecarregados pela poeira e pelos detritos. O cheiro era de queimado, de metal, de carne cozida, de coisas que não tinham nome. Ninguém sabia, ainda, que respirava a morte em forma de vapor.
A Confirmação
No cockpit do ATB-111, Jordan recebeu a confirmação no painel.

Missão concluída com sucesso.
As palavras piscaram em verde, acompanhadas de códigos operacionais, coordenadas de impacto, estimativas de dano. Tudo normal. Tudo rotineiro.
Jordan encarou as palavras por longos segundos.
Para os homens que haviam planejado o ataque, em salas climatizadas a milhares de quilômetros dali a destruição de Orcam representava apenas o cumprimento de uma ordem. Um alvo eliminado. Um objetivo alcançado. Um relatório a ser preenchido.
Para Jordan, era o peso de um milhão e trezentas mil mortes nas mãos.
Ele não disse nada.
Bernstein olhou para ele.
— Major? Tudo bem?
Jordan respirou fundo.
— Tudo bem, tenente. Apenas… cansaço.
— Entendo. Mas precisamos manter o foco. Ainda temos que voltar para a base.
— Sim. Voltar para a base.
Jordan acionou os controles. O ATB-111 inclinou-se, ganhou altitude e começou a jornada de volta.
Lá embaixo, Orcam deixará de existir.
Lá em cima, o céu não tinha estrelas.
E Jordan, pela primeira vez em muitos anos, chorou dentro do capacete, onde ninguém podia ver.
VI — A DELAÇÃO DO TENENTE MICHAEL BERNSTEIN
30 de março de 2105 | 14:32 h | Base Bombardeiro Estratégico, Ilha dos Açores

O ATB-111 tocou a pista às 13:47 h, sob um céu que finalmente clareara. A tempestade da madrugada dera lugar a um dia nublado, cinzento, com nuvens baixas que se arrastavam como animais preguiçosos sobre o oceano. O vento soprava forte, trazendo o cheiro salgado do Atlântico, mas dentro da base o ar era filtrado, seco, impregnado com o odor metálico de óleo de máquina e desinfetante industrial.
Jordan desceu da aeronave em silêncio. Removeu o capacete, passou a mão pelos cabelos úmidos de suor, olhou para o horizonte sem ver nada. Seus olhos estavam vermelhos, mas ninguém notou. Ninguém jamais notava.
Bernstein desceu atrás dele. Observou o major por um momento — as costas curvadas, o passo arrastado, a expressão de quem carrega o mundo nos ombros — e sentiu algo que não soube nomear. Não era pena. Não era desprezo. Era… desconforto. Uma inquietação que vinha de algum lugar profundo, de uma parte de si mesmo que ele mantinha cuidadosamente trancada.
Os dois homens foram recebidos por uma equipe de técnicos que começou a inspecionar a aeronave, verificar sistemas, recolher dados. Um oficial de inteligência se aproximou, tablet nas mãos.
— Major Jordan, Tenente Bernstein. O comandante de inteligência da base solicita um relatório imediato da missão. Vocês podem se dirigir à Sala de Briefing 3.
Jordan assentiu, sem falar.
Caminharam pelos corredores da base, passando por soldados em formação, por técnicos apressados, por telas que mostravam mapas, gráficos, notícias oficiais. Em uma das telas, uma manchete piscava: “Operação bem-sucedida no setor africano. Governo Único reforça compromisso com a unificação total.”
Nenhuma menção a Orcam. Nenhuma menção a mortos. Nenhuma menção a nada que não fosse a narrativa oficial.
Bernstein olhou para a tela. Jordan não.
A Sala de Briefing

A Sala de Briefing 3 era um cubículo frio, com paredes de metal cinza, uma mesa retangular, quatro cadeiras, uma tela de projeção desligada. Não havia janelas. Não havia nada que lembrasse o mundo exterior.
O comandante de inteligência da base os aguardava, de pé, mãos cruzadas às costas.
— Senhores. Por favor, sentem-se.
Jordan e Bernstein sentaram-se. O oficial permaneceu de pé.
— Gostaria de ouvir, em suas próprias palavras, um relato da missão. Do início ao fim. Sem omissões.
Jordan olhou para Bernstein. O tenente respirou fundo e começou a falar.
Descreveu a decolagem, o voo, a aproximação do alvo, a liberação do míssil, a confirmação de impacto, o retorno. Usou termos técnicos, coordenadas, horários, códigos operacionais. Sua voz era clara, precisa, quase mecânica. Não havia emoção em suas palavras. Apenas fatos.
Quando terminou, o oficial olhou para Jordan.
— Major? Alguma coisa a acrescentar?
Jordan demorou a responder.
— Não. O relato do tenente está… completo.
O oficial anotou algo no tablet.
— Muito bem. Há mais alguma coisa que considerem relevante mencionar? Comentários, observações, comportamentos fora do padrão durante a missão?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Bernstein sentiu o coração acelerar.
Jordan não piscou.
— Não que eu me lembre — disse, finalmente. — Foi uma missão como qualquer outra.
O oficial olhou para Bernstein.
— Tenente?
Bernstein hesitou.
Por uma fração de segundo — uma fração mínima, quase imperceptível — ele viu o rosto de Jordan. Não o rosto do oficial, do piloto, do soldado. Viu o rosto de um homem cansado. Um homem que carregava algo pesado demais. Um homem que, talvez, estivesse quebrando por dentro.
E algo dentro de Bernstein — algo pequeno, frágil, que ele mantinha escondido — se moveu.
Mas foi apenas por um instante.
Depois, a porta se fechou.
— Não, senhor — disse Bernstein. — Nada fora do padrão.
O oficial assentiu.
— Muito bem. Estão dispensados. O relatório formal deve ser enviado até às 18:00 h.
Jordan e Bernstein levantaram-se. Saíram da sala em silêncio.
No corredor, pararam.
— Major — disse Bernstein. — Eu…
Jordan olhou para ele.
— O quê, tenente?
Bernstein abriu a boca. Fechou. Não sabia o que ia dizer. Não sabia o que queria dizer.
— Nada. Apenas… boa tarde.
Jordan o encarou por um longo momento. Depois, assentiu.
— Boa tarde, tenente.
Caminharam em direções opostas.
O Relatório

30 de março de 2105 | 17:48 h | Alojamento do Tenente Bernstein
Bernstein estava sentado em sua cama, tablet nas mãos, olhando para a tela em branco.
O relatório formal da missão estava quase completo. Dados técnicos, coordenadas, confirmações, códigos. Tudo o que o Governo Único exigia. Tudo o que era esperado.
Mas havia algo mais.
Ele abriu um novo documento. Um formulário eletrônico destinado a denúncias internas. Um sistema que poucos usavam, mas que todos conheciam. Um canal direto para o delegado político, para a inteligência, para os órgãos que cuidavam da “segurança ideológica” do regime.
Suas mãos tremiam levemente.
Ele não era um homem cruel. Não era um sádico. Acreditava, genuinamente, que servia a uma causa maior. Acreditava que o Governo Único era necessário. Que a unificação era o único caminho. Que o Lorde Protetor, apesar de seus excessos, era a melhor esperança da humanidade.
Mas acreditava, também, que a lealdade exigia vigilância. Que a ordem precisava ser protegida. Que dúvidas, questionamentos, hesitações — tudo isso era perigoso. Era o início do fim.
E Jordan… Jordan estava duvidando.
Bernstein fechou os olhos.
Lembrou-se das palavras do major durante o voo. “Por que ele não os deixa em paz?” “Que vivam suas vidas. Que morram suas mortes.” “Apenas cansaço.”
Eram palavras pequenas. Insignificantes, talvez. Mas, em um regime onde cada sílaba era monitorada, onde a deslealdade era punida com a morte, palavras pequenas podiam significar tudo.
Ele abriu os olhos.
Olhou para a tela.
O cursor piscava, esperando.
Bernstein começou a digitar.
A Denúncia
ASSUNTO: Relato de comportamento ideologicamente questionável
OFICIAL REPORTADO: Major Kurt Jordan, matrícula 44782-AF
DATA DO INCIDENTE: 30 de março de 2105
LOCAL: ATB-111, em voo sobre o Atlântico Sul
RELATO:
Durante a operação de bombardeio da cidade de Orcam, o Major Jordan fez comentários que, a meu julgamento, podem ser interpretados como manifestações de deslealdade aos princípios do Governo Único Mundial.
Em determinado momento do voo, o Major questionou a necessidade da destruição de centros urbanos habitados por civis, usando as seguintes palavras (aproximadas): “Por que o Lorde Protetor não deixa que vivam como quiserem? Se não querem o Governo Único, que fiquem com a Federação. Que vivam suas vidas. Que morram suas mortes.”
Quando questionado sobre seus comentários, o Major demonstrou hesitação ao confirmar a liberação de armamento, atrasando a sequência em aproximadamente 4 segundos. Após a confirmação, mostrou sinais visíveis de angústia emocional.
Durante o retorno à base, o Major permaneceu em silêncio, evitando contato visual e demonstrando comportamento incompatível com o perfil esperado de um oficial das Forças Armadas do Governo Único.
RECOMENDAÇÃO: Sugiro investigação ideológica aprofundada. O comportamento do Major Jordan pode indicar simpatia pela Federação dos Estados Independentes Democráticos ou, no mínimo, questionamento da legitimidade da guerra atual.
ASSINATURA: Tenente Michael Bernstein, matrícula 89234-AF
Bernstein leu o relatório duas vezes. Depois, três. Cada palavra parecia mais pesada do que a anterior. Cada frase soava como uma sentença.
Ele sabia o que acontecia com oficiais investigados por “deslealdade ideológica”. Alguns desapareciam. Outros eram levados para “reeducação”. Outros, os mais sortudos, eram apenas rebaixados, transferidos, esquecidos.
Jordan não era um homem sortudo.
Bernstein hesitou. Seu dedo pairou sobre o botão de envio.
Por um instante — um instante que durou uma eternidade — ele considerou não enviar. Considerou apagar o documento. Considerou que nada havia acontecido. Que foram apenas palavras. Que Jordan estava cansado, como todos estavam. Que isso passaria.
Mas então ele pensou no Lorde Protetor. Pensou na unificação. Pensou na humanidade. E pensou que, às vezes, sacrifícios eram necessários.
Ele pressionou o botão.
O relatório foi enviado.
Bernstein fechou o tablet, deitou-se na cama, olhou para o teto e não dormiu naquela noite.
A Prisão

31 de março de 2105 | 03:17 h | Alojamento do Major Jordan
Jordan estava dormindo quando bateram à porta. Não foram batidas normais. Foram batidas pesadas, autoritárias, do tipo que não pedem permissão. Do tipo que anuncia que algo terminou.
Ele abriu os olhos. Ficou imóvel por um momento, ouvindo.
As batidas vieram de novo. Mais fortes.
— Major Jordan! Abra a porta!
Jordan levantou-se. Vestiu o uniforme. Abriu a porta.
Quatro soldados estavam lá. Armados. Com expressões que não deixavam espaço para perguntas.
— Major Kurt Jordan? — perguntou o que parecia ser o líder.
— Sim.
— Você está sendo preso por ordem do delegado político das Forças Armadas do Governo Único Mundial.
Jordan não se moveu.
— Posso saber o motivo?
O soldado olhou para ele.
— Atividades contrárias aos interesses do Governo Único Mundial. Você tem o direito de permanecer em silêncio. Tudo o que disser poderá ser usado, contra você.
Jordan assentiu. Não resistiu. Estendeu os pulsos.
As algemas foram colocadas. Frias. Metálicas. O som do clique ecoou no quarto vazio.
Ele foi conduzido para fora.
No corredor, outros soldados observavam. Alguns olhavam com curiosidade. Outros, com pena. Outros, com desprezo.
Jordan não olhou para ninguém.
Enquanto era levado pelos corredores da base, passou por uma tela que mostrava notícias oficiais. Uma manchete piscava: “Governo Único celebra vitória estratégica no setor africano. Unificação avança.”
Ele não leu.
Não importava mais.
VII — O JULGAMENTO DO MAJOR KURT JORDAN
15 de junho de 2105 | Instalação Militar Secreta 7-Alpha | Local classificado

A investigação durou setenta e seis dias. Foram setenta e seis dias de interrogatórios, de sessões de “reeducação ideológica”, de exames psicológicos, de análise de cada palavra que Jordan pronunciara nos últimos cinco anos. Setenta e seis dias em que ele deixou de ser tratado como oficial das Forças Armadas e passou a ser tratado como inimigo do Estado.
Seus antecedentes foram dissecados. Suas conversas foram recuperadas — gravações de comunicações oficiais, transcrições de reuniões, registros de chamadas pessoais. Suas relações pessoais foram investigadas — familiares, amigos, colegas, conhecidos. Cada palavra pronunciada durante os anos de serviço poderia ser utilizada contra ele.
Os interrogadores queriam uma confissão.
Queriam que Jordan reconhecesse que havia agido conscientemente contra o Governo. Que havia apoiado a Federação. Que havia desejado o fracasso da missão contra Orcam. Que era, em essência, um traidor.
O major recusou-se.
— Eu questionei a guerra — disse, em uma das sessões. — Condenei o bombardeio. Mas pilotei o avião. Lancei a arma. Obedeci. Não sou traidor. Sou apenas… um homem que viu demais.
O interrogador — um homem de meia-idade, de rosto impassível, que nunca dava seu nome — sorriu.
— Ver demais é, em si, um ato de traição, Major. O Governo Único não precisa de homens que veem. Precisa de homens que obedecem.
Jordan não respondeu. Sabia que qualquer resposta seria usada contra ele.
As Sessões

As sessões de interrogatório aconteciam em uma sala sem janelas, com paredes acolchoadas, uma mesa, duas cadeiras, uma luz branca e fria que nunca se apagava. Não havia relógios. Não havia como saber a hora. O tempo era medido apenas pelas sessões, pelas perguntas, pelas horas que se arrastavam como dias.
Havia sessões “leves” — perguntas repetitivas, insistência em contradições menores, tentativas de fazê-lo tropeçar nas próprias palavras.
E havia sessões “pesadas”. Nessas, Jordan era levado para outra sala, uma sala menor, mais fria, com equipamentos que ele preferia não nomear.
Não o torturavam fisicamente — pelo menos, não da maneira tradicional. Não havia choques, não havia pancadas, não havia instrumentos de dor óbvia.
Havia algo pior.
Havia privação sensorial.
Jordan era colocado em uma câmara isolada, completamente escura, completamente silenciosa. Sem chão, sem paredes perceptíveis, sem referência espacial. Apenas escuridão. Apenas silêncio. Apenas ele e sua própria mente.
Horas. Dias. Semanas.
Ele não sabia quanto tempo ficava lá. Podiam ser horas. Podiam ser dias. O tempo perdia o sentido. A mente, sem referências, começava a criar coisas. Vozes. Imagens. Memórias que não eram suas.
Ele ouvia a voz do pai. Via o rosto da mãe. Lembrava-se de coisas que não aconteceram.
E, no meio de tudo isso, uma pergunta repetida infinitamente, em voz sintética:
— Você é leal ao Governo Único Mundial?
— Você é leal ao Lorde Protetor?
— Você reconhece a legitimidade da guerra?
— Você se arrepende?
Jordan respondia. Às vezes, sim. Às vezes, não. Às vezes, não respondia nada.
Quando era retirado da câmara, estava diferente. Mais fraco. Mais quebrado. Mais vazio.
Mas não confessou. Não deu a eles o que queriam.
O Tribunal
O julgamento foi realizado em uma instalação militar mantida em segredo absoluto. Não houve público. Não houve imprensa independente. Não houve defesa capaz de questionar as acusações.
Os representantes do Governo apresentaram os relatórios militares, os registros das comunicações e, principalmente, a denúncia feita pelo tenente Michael Bernstein.
Jordan ouviu tudo em silêncio.
Seu advogado — um homem designado pelo Estado, que mal o olhou nos olhos — não apresentou defesa. Não havia defesa possível. O resultado já estava decidido antes mesmo de o julgamento começar.
— Major Kurt Jordan — disse o juiz, um oficial de alta patente cujo nome Jordan nunca soube. — Você reconhece as declarações atribuídas a você?
Jordan respirou fundo.
— Sim.
— Você questionou a política do Governo Único Mundial?
— Sim.
— Você considera legítima a guerra contra a Federação?
Silêncio.
Jordan olhou para o juiz. Olhou para os representantes do Governo. Olhou para o vazio.
— Nenhuma guerra — disse, finalmente, e sua voz estava firme, clara, como não estivera em meses — justifica a destruição deliberada de pessoas que não escolheram participar dela. Nenhuma ideologia, nenhum governo, nenhum Lorde Protetor têm o direito de decidir quem vive e quem morre em nome de uma “unidade” que é apenas escravidão disfarçada. Eu obedeci. Eu pilotei. Eu lancei a arma. Mas eu vi. E eu me recuso a acreditar que o que fiz foi certo.
A sala ficou em silêncio.
A declaração foi registrada como prova de hostilidade ao Governo.
O juiz trocou olhares com os representantes.
Depois, leu a sentença.
— Kurt Jordan, você é considerado culpado de alta traição, insubordinação e manifestação de sentimentos hostis contra o Governo Único Mundial. A pena é morte por fuzilamento. A sentença será cumprida em data a ser determinada.
Jordan não gritou. Não protestou. Não pediu clemência. Apenas assentiu.
— Muito bem-disse. — Façam o que têm que fazer.
Foi levado de volta à cela.
A Cela

A cela media dois metros por três. Havia uma cama de metal, um vaso sanitário, uma pia, uma luz que nunca se apagava. Não havia janelas. Não havia como saber a hora. O tempo era medido apenas pelas refeições — duas vezes ao dia, sempre a mesma coisa: uma pasta cinza, sem gosto, que mantinha o corpo vivo, mas não alimentava a alma.
Jordan passou nove meses naquela cela. Nove meses de solidão. Nove meses de reflexão. Nove meses de arrependimento.
Ele pensava em Orcam. Pensava na cidade antes da explosão. Nas pessoas caminhando pelas ruas. Nos trens subterrâneos transportando trabalhadores para as fábricas. Nas crianças indo para a escola. Nós velhos abrindo suas lojas. Nas mães preparando o café da manhã.
Pensava na chuva negra. Pensava no milhão e trezentas mil mortes que carregava nas mãos. E pensava que, talvez, a morte fosse uma libertação.
VIII — O ÚLTIMO DIA DO MAJOR KURT JORDAN
29 de dezembro de 2105 | 05:00 h | Cela de Execução, Instalação Militar Secreta 7-Alpha

Nove meses haviam passado desde a destruição de Orcam quando Kurt Jordan acordou pela última vez. A cela ainda estava escura — embora “escura” fosse um termo relativo, já que a luz nunca se apagava inteiramente. Havia sempre uma luminosidade fraca, amarelada, que vinha de algum lugar no teto, que não iluminava nada, mas que impedia a escuridão total.
Jordan abriu os olhos. Ficou deitado por um momento, olhando para o teto.
Sabia.
Não havia como saber, realmente. Não havia calendário. Não havia relógio. Não havia como contar os dias. Mas ele sabia. Era o dia.
Sentou-se na cama. O corpo doía. Nove meses de cela, de imobilidade, de alimentação inadequada, de estresse constante haviam cobrado seu preço. Ele perdera peso. Seus músculos atrofiaram. Sua pele estava pálida, quase translúcida. Os olhos, fundos, cercados por olheiras escuras, pareciam os de um fantasma.
Mas estava lúcido. Mais lúcido do que estivera em anos.
Levantou-se. Caminhou até a pia. Lavou o rosto. A água era fria, mas ele não se importou. Olhou para o reflexo no metal polido da torneira.
Não reconheceu o homem que viu. Era apenas uma casca. Uma casca que logo deixaria de existir.
A Manhã
Às 05:47 h, a porta se abriu. Dois soldados entraram. Armados. Com expressões que não deixavam espaço para perguntas.
— Major Kurt Jordan? — perguntou um deles.
Jordan assentiu.
— Você será conduzido ao local de execução. Por favor, levante-se e siga-nos.
Jordan levantou-se.
Não precisou ser algemado. Não resistiria. Não havia motivo.
Foi conduzido para fora da cela. Os corredores eram familiares agora. Ele os percorrera em direção ao tribunal. Percorrerá em direção às sessões de interrogatório. Percorrera em direção à câmara de privação sensorial. Agora, percorria em direção ao fim.
Os soldados não falaram. Jordan também não. O som de suas botas ecoava nas paredes de metal, um ritmo constante, um metrônomo marcando os últimos minutos.
Eles chegaram a uma porta. Os soldados pararam. Um deles bateu. A porta se abriu. Jordan foi conduzido para dentro.
O Local da Execução
Era um espaço aberto, ao ar livre, cercado por muros altos de concreto. O céu estava nublado, cinzento, com nuvens baixas que prometiam chuva. O chão era de terra batida, encharcado pela chuva da noite anterior.
No centro, um poste de madeira. Diante do poste, um pelotão de fuzilamento. Doze soldados, uniformes impecáveis, fuzis apontados para o chão, expressões impassíveis.
À frente do pelotão, um oficial. Alto. Branco. De cabelos grisalhos cortados rente. O representante do Lorde Protetor, encarregado de ler a sentença.
Jordan foi conduzido até o poste.
Os soldados o amarraram. As cordas eram grossas, ásperas e cortavam a pele. Eles não foram gentis. Não foram cruéis. Apenas eficientes.
Jordan não resistiu.
Quando terminaram, ele estava preso ao poste, de pé, olhando para o pelotão.
O representante deu um passo à frente. Desdobrou um papel. Começou a ler.
— Kurt Jordan, você foi condenado por alta traição, insubordinação e manifestação de sentimentos hostis contra o Governo Único Mundial. A sentença é morte por fuzilamento. Que o Lorde Protetor tenha misericórdia de sua alma.
Fez uma pausa. Olhou para Jordan.
— O condenado tem alguma declaração a fazer?
Jordan permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois, respirou fundo, ergueu a cabeça e falou.
A Declaração
— Sim — disse. — Tenho algo a declarar.
O representante assentiu.
Jordan olhou para o pelotão. Olhou para os soldados. Eram jovens. Alguns muito jovens. Dezenove, vinte anos. Meninos, essencialmente. Meninos que haviam sido ensinados a obedecer. Meninos que, talvez, não entendessem inteiramente o que estavam fazendo.
Mas fariam. Porque era ordem.
— Sou culpado — disse Jordan. E sua voz estava firme, clara, mais forte do que estivera em meses. — Culpado de seguir um louco sanguinário. Culpado de destruir cidades inteiras. Culpado de matar velhos, mulheres e crianças inocentes. Culpado de obedecer quando deveria ter dito não.
Ele fez uma pausa. Respirou.
— Não peço perdão. Não mereço. Mas peço que vocês — olhou para os soldados — pensem. Pensem no que estão fazendo. Pensem em quem estão obedecendo. Pensem se isso é certo. Porque um dia, talvez, vocês também estarão aqui. Presos a um poste. E vão se perguntar se valeu a pena.
O representante deu um passo à frente.
— Isso é suficiente.
Jordan sorriu. Um sorriso triste.
— Espero — continuou ignorando o oficial — que esse lunático que ora domina o mundo e seus políticos fantoches queimem no inferno. E que, quando chegarem lá, encontrem todos os milhões que mandaram matar. E que esses milhões perguntem: “Por quê?”
O representante fez um gesto.
Um soldado avançou.
A coronhada atingiu o rosto de Jordan antes que pudesse terminar a frase. O impacto foi brutal. Jordan perdeu o equilíbrio. Caiu de joelhos na lama. O sangue escorria de seu nariz, de sua boca, misturando-se à água no chão.
Os soldados o levantaram. Arrastaram-no de volta ao poste. Amarraram-no novamente. Ele não resistiu.
A chuva fina que começava a cair molhava seu rosto ensanguentado.
Jordan fechou os olhos.
Por um instante, viu Orcam. Não a cidade em chamas. Não a cidade morta. Mas a cidade viva: as avenidas cheias de pessoas, os trens subterrâneos, os edifícios antigos convivendo com os arranha-céus, as crianças indo para a escola, os velhos abrindo suas lojas, as mães preparando o café da manhã.
A vida. A vida que ele ajudara a destruir.
Abriu os olhos.
O representante ergueu a voz.
— Pelotão, preparar!
Os soldados levantaram os fuzis.
Doze armas apontadas para o peito de Jordan.
— Pelotão, apontar!
Jordan permaneceu em silêncio.
Seu coração batia. Uma vez. Duas vezes. Três.
— Fogo!
Os disparos romperam a manhã. Doze tiros. Um som seco, brutal, final.
O major Kurt Jordan caiu. Seu corpo bateu na lama. Ficou imóvel.
Fim
NOTA AO LEITOR
Este conto integra o universo literário de O Crepúsculo dos Homens.
A narrativa apresentada é parte de um universo ficcional mais amplo, cujas histórias, personagens e acontecimentos serão gradualmente revelados ao leitor. A série O Crepúsculo dos Homens será publicada em futuro próximo, e os contos publicados pelo CEHASC constituem algumas das primeiras incursões por esse universo.
A história começa aqui. O universo, porém, ainda está por ser revelado.

