
ORIENTE: O QUE SIGNIFICA ESTE TERMO? CONCEITO, HISTÓRIA E USO DE UMA CATEGORIA DISCURSIVA
Como o “Oriente” foi inventado pelo Ocidente: uma análise histórica e crítica da nomenclatura segundo Edward Said
RESUMO; O presente artigo tem como objetivo analisar a nomenclatura “Oriente” enquanto categoria histórica, cultural e discursiva, e não como uma delimitação geográfica precisa. A partir de uma revisão bibliográfica de natureza qualitativa, fundamentada principalmente nas contribuições de Edward Said, Talal Asad e de autores contemporâneos dos estudos pós-coloniais e decoloniais, demonstra-se que o “Oriente” foi historicamente fabricado pelo Ocidente como um “outro” subalterno, elemento constitutivo da própria identidade ocidental e sustentado por estruturas de poder culturais, políticas e epistêmicas. O estudo percorre a origem etimológica do termo, sua consolidação nos séculos XVIII e XIX no contexto do expansionismo europeu, as subdivisões em Oriente Próximo, Médio e Distante, e as críticas contemporâneas que apontam seu caráter eurocêntrico, impreciso e generalizante. Conclui-se que compreender o “Oriente” como construção discursiva é fundamental para evitar simplificações e para promover abordagens mais rigorosas e descolonizadas nas ciências humanas.
Palavras-chave: Oriente. Orientalismo. Edward Said. Categoria discursiva. Eurocentrismo.
1. INTRODUÇÃO

A nomenclatura “Oriente” integra o vocabulário corrente das ciências humanas, do jornalismo, da diplomacia e do senso comum, sendo frequentemente empregada como se designasse uma região natural, homogênea e objetivamente delimitada do planeta. No entanto, uma análise mais detida revela que o “Oriente” não corresponde a uma entidade geográfica precisa, mas a uma categoria histórica e cultural, construída ao longo de séculos a partir de uma perspectiva europeia e ocidental sobre o mundo.
A distinção entre Oriente e Ocidente, aparentemente baseada na direção do nascer e do pôr do sol, consolidou-se como uma divisão simbólica que organizou hierarquias de poder, saber e representação. Como demonstrou Edward Said em sua obra seminal Orientalismo (1978), o Oriente é, antes de tudo, uma “ideia que tem uma história e uma tradição de pensamento, um imaginário e um vocabulário que lhe deram realidade e presença no e para o Ocidente”.
O objetivo deste artigo é examinar a nomenclatura “Oriente” em suas dimensões conceitual, histórica e de uso contemporâneo, tendo em vista que se trata de uma categoria discursiva e não de uma delimitação geográfica precisa. Para tanto, o texto está organizado em cinco seções, além desta introdução e das considerações finais. Na segunda seção, aborda-se a origem etimológica e simbólica do termo. Na terceira, analisa-se a construção histórica do Oriente como categoria discursiva, com ênfase nas contribuições de Said e Asad. Na quarta, discutem-se as subdivisões em Oriente Próximo, Médio e Distante, suas origens e ambiguidades. Na quinta, apresentam-se as críticas contemporâneas ao uso da categoria. Por fim, na sexta seção, refletem-se sobre as implicações desse debate para as ciências humanas e para a produção de conhecimento descolonizado.
A relevância deste estudo reside na necessidade de problematizar categorias naturalizadas que, ao serem empregadas sem consciência crítica, reproduzem visões eurocêntricas e simplificam a complexidade de regiões profundamente diversas. Compreender o “Oriente” como construção histórica e cultural é um passo fundamental para superar estereótipos e para promover abordagens mais rigorosas e éticas na pesquisa acadêmica e na comunicação pública.
2. ORIGEM ETIMOLÓGICA E SIMBÓLICA DO TERMO “ORIENTE”

A palavra “Oriente” deriva do latim oriens, que significa “lugar onde o sol nasce”. Em oposição, o “Ocidente” (occidens) seria o lugar onde o sol se põe. Desde a Antiguidade, essa distinção tinha mais um valor simbólico e cultural do que geográfico rigoroso. Para os romanos, por exemplo, o Oriente designava as terras a leste de Roma, incluindo a Grécia, a Ásia Menor, o Egito e outras regiões do Mediterrâneo oriental, mas os limites dessa designação variavam conforme o contexto político e administrativo do Império.
Na Idade Moderna, especialmente a partir do expansionismo europeu dos séculos XV e XVI, “Oriente” passou a designar todas as regiões situadas a leste da Europa. Esse uso consolidou-se nos séculos XVIII e XIX, quando potências europeias passaram a classificar o mundo segundo seus próprios centros de poder e referência. O termo, portanto, carrega em sua própria etimologia uma perspectiva: o “Oriente” é aquilo que está a leste de um ponto de vista específico, que é o europeu.
É importante notar que essa divisão não é universal. Para um observador situado na China, por exemplo, a Europa estaria no “Ocidente”, mas o Japão não seria necessariamente “Oriente” em relação à China. A categoria “Oriente”, tal como empregada no discurso ocidental, pressupõe a Europa como centro de referência e organiza o mundo a partir desse eixo. Como observam autores contemporâneos, “Oriente Próximo, Oriente Médio e Oriente Distante não são categorias neutras ou naturais, mas construções históricas criadas a partir de um olhar europeu sobre o mundo”.
Além disso, a oposição Oriente-Ocidente não é apenas espacial, mas também simbólica. Ao longo da história, o Oriente foi associado a características como mistério, exotismo, espiritualidade, sensualidade, mas também a estagnação, despotismo e irracionalidade. O Ocidente, em contrapartida, foi construído como racional, progressista, civilizado e moderno. Essa divisão binária serviu para justificar projetos de dominação colonial, na medida em que o “outro” oriental era representado como inferior e necessitado de tutela ocidental.
Assim, a nomenclatura “Oriente” não designa simplesmente uma direção cardeal, mas carrega em si uma história de representações, hierarquias e relações de poder. Compreender essa dimensão simbólica é fundamental para analisar criticamente o uso contemporâneo do termo.
3. A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DO ORIENTE COMO CATEGORIA DISCURSIVA

A consolidação do “Oriente” como categoria discursiva ocorreu principalmente nos séculos XVIII e XIX, no contexto do colonialismo europeu e do imperialismo. Foi nesse período que se desenvolveu o que Edward Said denominou “orientalismo”, um sistema interconectado de instituições, políticas, narrativas e ideias que produziu e sustentou uma visão específica sobre as sociedades orientais.
Segundo Said, o orientalismo pode ser compreendido em três dimensões inter-relacionadas. Primeiro, como um campo acadêmico de estudo, que incluía disciplinas como filologia, história, antropologia e literatura dedicadas ao “Oriente”. Segundo, como um estilo de pensamento baseado na distinção ontológica e epistemológica entre “Oriente” e “Ocidente”. Terceiro, como um discurso institucional que legitimou a dominação colonial ao representar o Oriente como inferior, exótico e necessitado de intervenção ocidental.
Em Orientalismo (1978), Said argumenta que o Oriente não é um fato da natureza, mas uma construção semimítica imposta a um conjunto de países a leste da Europa. O autor demonstra como escritores, artistas, acadêmicos e administradores coloniais europeus produziram um imaginário sobre o Oriente que serviu para definir a própria identidade ocidental. O Oriente foi fabricado como um “outro” subalterno, elemento constitutivo da identidade do Ocidente e sustentado por estruturas de poder culturais, políticas e epistêmicas.
Said baseia-se na observação de Giambattista Vico de que “os homens fazem a sua história” e estende essa ideia à geografia: “como entidades geográficas e culturais — para não falar de entidades históricas —, tais lugares, regiões, setores geográficos, como o ‘Oriente’ e o ‘Ocidente’, são criados pelo homem”. Assim, tanto quanto o próprio Ocidente, o Oriente é uma ideia que tem uma história e uma tradição de pensamento, um imaginário e um vocabulário que lhe deram realidade e presença no e para o Ocidente.
A contribuição de Talal Asad complementa e amplia a análise de Said ao investigar os vínculos entre a antropologia, enquanto campo científico, e o colonialismo. Asad revela como as pesquisas sobre sociedades não europeias foram permeadas por interesses imperiais e revestidas por uma aparente neutralidade científica. A antropologia, ao estudar o “outro” oriental, participou ativamente da produção de conhecimento que legitimou a dominação colonial, classificando sociedades como “primitivas”, “tradicionais” ou “atrasadas” em relação ao modelo europeu de modernidade.
O orientalismo, portanto, não é apenas um conjunto de mitos ou estereótipos, mas um sistema de poder-saber que organizou a produção de conhecimento sobre o Oriente de modo a servir aos interesses do imperialismo europeu. Como observa Said, o orientalismo é “uma distribuição de consciência geopolítica em textos estéticos, eruditos, econômicos, sociológicos, históricos e filológicos”.
É importante notar que Said concentra sua análise principalmente no Oriente Médio e no mundo árabe-islâmico, embora o termo “Oriente” tenha sido aplicado de modo amplo e impreciso a regiões tão diversas quanto o Norte da África, o Sudoeste Asiático, o Sul da Ásia, a Ásia Central e o Extremo Oriente. Essa amplitude é, ela mesma, um sintoma da imprecisão da categoria: o “Oriente” designa qualquer coisa situada geograficamente de Israel até o Japão, abrangendo civilizações profundamente distintas em termos de língua, religião, história e cultura.
A construção discursiva do Oriente teve efeitos duradouros que persistem até o presente. Como demonstram reações a eventos como os ataques de 11 de setembro de 2001 e a Guerra do Iraque, o imaginário orientalista continua a influenciar a percepção ocidental sobre o mundo islâmico e sobre as sociedades asiáticas em geral. O “Oriente” permanece associado, no senso comum e na mídia, a ideias de conflito, terrorismo, opressão das mulheres, fanatismo religioso e atraso, enquanto o Ocidente é representado como portador de democracia, liberdade e progresso.
Assim, a categoria “Oriente” não é um vestígio do passado, mas uma construção ativa que continua a organizar representações e relações de poder no mundo contemporâneo. Compreender sua gênese histórica e seus mecanismos discursivos é fundamental para desnaturalizá-la e para promover abordagens mais críticas e descolonizadas nas ciências humanas.
4. SUBDIVISÕES: ORIENTE PRÓXIMO, MÉDIO E DISTANTE

À medida que o conhecimento europeu sobre as regiões a leste da Europa se ampliou, especialmente a partir das grandes navegações e do colonialismo, a categoria genérica de “Oriente” foi subdividida em três designações: Oriente Próximo (Near East), Oriente Médio (Middle East) e Oriente Distante ou Extremo Oriente (Far East). Essas subdivisões, no entanto, não correspondem a delimitações geográficas precisas, mas refletem uma perspectiva europeia sobre distâncias e relevâncias geopolíticas.
O termo Oriente Próximo (Near East) surgiu no século XIX, principalmente no contexto diplomático e acadêmico europeu. Ele designava as regiões mais próximas da Europa oriental e do Mediterrâneo, incluindo tradicionalmente a Turquia (especialmente a Anatólia), a Síria, o Líbano, Israel e Palestina, a Jordânia e parte do Egito (especialmente a região do Sinai). Historicamente, essa região foi o coração de grandes civilizações antigas — mesopotâmica, egípcia, hebraica, fenícia e greco-romana — além de ser o berço das três grandes religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo.
Hoje, o termo “Oriente Próximo” é menos usado na linguagem política cotidiana, mas ainda aparece em estudos históricos, arqueológicos e bíblicos. Nos contextos arqueológicos, geográficos e históricos, o termo “Oriente Próximo” ou “Sudoeste Asiático” é preferível, enquanto nos contextos políticos e jornalísticos modernos essa região é normalmente considerada como compreendida no “Oriente Médio”.
O conceito de Oriente Médio (Middle East) é mais recente e ganhou força no início do século XX, sobretudo no contexto estratégico do Império Britânico. Há consenso de que o termo “Oriente Médio” foi lançado pelo capitão Alfred Thayer Mahan, oficial da marinha americana, que em 1902 publicou um artigo numa revista londrina se referindo à região entre a Arábia e a Índia como Middle East. O artigo foi reimpresso no jornal The Times, dos EUA, popularizando assim o novo nome para a região.
O Oriente Médio refere-se a uma região situada entre o Oriente Próximo e o Oriente Distante, especialmente relevante por suas rotas comerciais e, mais tarde, por suas reservas de petróleo. Geralmente inclui a Arábia Saudita, o Irã, o Iraque, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Catar, Omã, o Iêmen, além de Síria, Líbano, Israel, Jordânia e Egito em algumas definições. Diferentemente do Oriente Próximo, o Oriente Médio é uma categoria geopolítica, não apenas histórica ou cultural. Sua definição pode variar conforme o contexto político, militar ou econômico.
No Brasil, costuma-se traduzir Middle East como “Oriente Médio”, mas em Portugal é “Médio Oriente”. Até a década de 1940, era frequente chamar de “Oriente Próximo” (Near East) a região da Anatólia (atual Turquia) e Bálcãs (Grécia e países adjacentes) e de “Extremo Oriente” (Far East) a que vai da China à Indonésia e que por vezes inclui a Rússia. Hoje, depois de tantas mudanças geopolíticas, “Oriente Próximo” e “Oriente Médio” são entendidos como termos intercambiáveis e “Extremo Oriente” caiu em desuso.
O termo Oriente Distante ou Extremo Oriente (Far East) refere-se às regiões mais distantes da Europa, situadas no extremo leste do continente asiático. Inclui, de modo geral, a China, o Japão, as Coreias (Norte e Sul), o Vietnã, a Tailândia, o Camboja, o Laos, a Indonésia e as Filipinas. Historicamente, o Oriente Distante foi associado a culturas milenares com tradições filosóficas e religiosas próprias, como o confucionismo, o taoismo, o budismo e o xintoísmo. Para os europeus, essas sociedades eram vistas como “exóticas”, reforçando uma visão orientalista que ainda influencia imaginários contemporâneos.
É importante notar que essas subdivisões são ambíguas e variam conforme o autor, o contexto e a língua. Em inglês, há grande ambiguidade entre Near East e Middle East, e essa ambiguidade se repete no francês, no alemão, no italiano, no português, no sueco, um pouco menos nas línguas eslavas e, de um modo geral, ocorre em todo o mundo, mesmo nas línguas do próprio Oriente. A Real Academia Espanhola (RAE), por exemplo, distingue entre o Oriente Próximo (Líbano, Israel, Turquia, Jordânia, Síria, Iraque, Irã e Península Arábica), o Oriente Médio (Afeganistão, Paquistão, Índia e países relacionados) e o Extremo Oriente (China, Sudeste Asiático e outros).
Nos governos latino-americanos e no Ministério das Relações Exteriores da Espanha, o termo “Oriente Médio” é usado para se referir à região do sudoeste da Ásia; no entanto, os manuais de estilo do El País, ABC, EFE e outros desaconselham o uso deste termo e preferem o termo “Oriente Próximo”, embora nas práticas de reportagem jornalística ambos os termos sejam usados indistintamente.
Além disso, há uma tendência crescente de substituir esses termos por designações mais específicas e menos eurocêntricas, como “Ásia Ocidental” (em vez de Oriente Médio), “Levante” (para a região do Mediterrâneo oriental), “Sudeste Asiático”, “Leste Asiático”, etc.. Essa tendência reflete uma consciência crítica sobre a origem e as limitações das categorias tradicionais.
Apesar das críticas, essas expressões continuam em uso por tradição histórica, conveniência jornalística, consolidação em documentos diplomáticos e uso corrente na mídia e no ensino básico. O problema não está no uso em si, mas na falta de consciência crítica sobre sua origem e limitações. Oriente Próximo, Oriente Médio e Oriente Distante não são categorias neutras ou naturais, mas construções históricas criadas a partir de um olhar europeu sobre o mundo.
5. CRÍTICAS CONTEMPORÂNEAS À CATEGORIA “ORIENTE”

Nos estudos contemporâneos, muitos autores criticam o uso das expressões “Oriente”, “Oriente Próximo”, “Oriente Médio” e “Extremo Oriente” por serem eurocêntricas, imprecisas e generalizantes. Essas críticas fundamentam-se em diversas tradições intelectuais, incluindo os estudos pós-coloniais, os estudos subalternos, a teoria decolonial, as epistemologias do Sul e outras correntes que questionam o legado colonial nas ciências humanas.
A crítica central é que essas categorias são eurocêntricas, pois partem da Europa como ponto de referência para organizar o mundo. O “Oriente” é aquilo que está a leste da Europa; o “Ocidente” é a própria Europa e suas extensões (Américas, Austrália, etc.). Essa perspectiva privilegia o ponto de vista europeu e marginaliza outras formas de organizar e compreender o espaço geográfico e cultural.
Além disso, essas categorias são imprecisas, já que seus limites variam conforme o autor ou o contexto. Não há consenso sobre quais países integram o “Oriente Médio”, por exemplo. Algumas definições incluem o Egito, outras não. Algumas incluem o Irã, outras o excluem. Essa imprecisão revela que a categoria não corresponde a uma realidade objetiva, mas a uma construção discursiva flexível que serve a diferentes propósitos políticos e acadêmicos.
Por fim, essas categorias são generalizantes, ignorando diferenças internas profundas. O “Oriente”, tal como empregado no discurso ocidental, abrange civilizações tão diversas quanto a árabe, a persa, a turca, a indiana, a chinesa, a japonesa, entre outras. Reduzir essa complexidade a uma identidade única é um dos erros mais comuns na abordagem do tema. O Oriente Médio, por exemplo, é extremamente diverso étnica e linguisticamente (árabes, persas, turcos, curdos, judeus, armênios, entre outros), religiosamente (islamismo sunita e xiita, cristianismo oriental, judaísmo, além de minorias religiosas) e politicamente (monarquias, repúblicas autoritárias, Estados teocráticos e democracias parciais).
Edward Said foi um dos primeiros a formular essas críticas de modo sistemático. Em Orientalismo, ele demonstra como o “Oriente” foi construído pela Europa como uma entidade cultural amorfa, indistinta, carregada de preconceitos e impossibilidades. O próprio termo “Oriente” designa qualquer coisa situada geograficamente de Israel até o Japão, abrangendo uma amplitude que torna a categoria analiticamente inútil para fins de compreensão rigorosa.
Autores contemporâneos têm ampliado essas críticas, propondo alternativas conceituais e metodológicas. A corrente decolonial em América Latina, surgida nos anos 1990, critica a colonialidade do poder e o eurocentrismo, propondo alternativas de conhecimento que valoram saberes indígenas e afrodescendentes. As epistemologias do Sul, desenvolvidas por Boaventura de Sousa Santos e outros, questionam a hegemonia do conhecimento produzido no Norte global e defendem a validade de outras formas de saber.
Uma das propostas recorrentes é substituir as categorias tradicionais por designações mais específicas e menos carregadas de história colonial. Em vez de “Oriente Médio”, por exemplo, muitos autores preferem “Ásia Ocidental” ou “Sudoeste Asiático”, termos que designam uma região geográfica sem pressupor uma perspectiva europeia. Em vez de “Extremo Oriente”, prefere-se “Leste Asiático” ou “Sudeste Asiático”, conforme o caso. Para a região do Mediterrâneo oriental, alguns autores empregam o termo “Levante”, de origem histórica e menos associado ao imaginário orientalista.
Outra crítica importante diz respeito ao uso da categoria “Oriente” no contexto brasileiro e latino-americano. Alguns autores apontam que ainda existe um preconceito arraigado contra o estudo do “Oriente” que dificulta a aceitação de artigos nessa área, além de uma incompreensão dos conceitos e perspectivas asiáticas que leva à recusa de publicações sob a alegação de “inadequação conceitual”. Isso revela que a crítica ao orientalismo não é apenas uma questão teórica, mas tem implicações práticas para a produção acadêmica e para a circulação de conhecimento.
Por fim, é importante notar que as críticas à categoria “Oriente” não implicam a negação da existência de regiões geográficas ou de culturas específicas. O que se questiona é o uso de uma categoria genérica e eurocêntrica que homogeneíza realidades diversas e reproduz hierarquias de poder. Como observam os autores, “o problema não está no uso em si, mas na falta de consciência crítica sobre sua origem e limitações”.
6. IMPLICAÇÕES PARA AS CIÊNCIAS HUMANAS E PARA A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO DESCOLONIZADO

Compreender o “Oriente” como categoria histórica e cultural, e não como delimitação geográfica precisa, tem implicações importantes para as ciências humanas e para a produção de conhecimento descolonizado. Em primeiro lugar, exige uma postura crítica em relação às categorias naturalizadas que organizam o pensamento acadêmico e o senso comum.
Nas disciplinas de história, antropologia, geografia, relações internacionais e áreas afins, o uso acrítico da categoria “Oriente” pode levar a generalizações indevidas e à reprodução de estereótipos. Por exemplo, tratar o “Oriente Médio” como uma região homogênea ignora as profundas diferenças étnicas, religiosas, linguísticas e políticas que caracterizam essa área do mundo. Da mesma forma, empregar o termo “Oriente” de modo genérico para designar regiões tão diversas quanto o mundo árabe, a Índia, a China e o Japão obscurecem as especificidades históricas e culturais de cada uma dessas civilizações.
Em segundo lugar, a crítica à categoria “Oriente” convida a uma reflexão mais ampla sobre o legado colonial nas ciências humanas. Como demonstraram Said e Asad, muitas disciplinas acadêmicas foram constituídas no contexto do imperialismo europeu e carregam em seus fundamentos pressupostos eurocêntricos. A antropologia, a história, a geografia e até mesmo a filologia participaram ativamente da produção de conhecimento que legitimou a dominação colonial ao representar sociedades não europeias como “primitivas”, “tradicionais” ou “atrasadas”.
Descolonizar o conhecimento implica, portanto, não apenas incluir vozes e perspectivas marginalizadas, mas também questionar as categorias e os conceitos que organizam o pensamento acadêmico. Isso não significa abandonar completamente termos como “Oriente” ou “Oriente Médio”, mas empregá-los com consciência crítica, reconhecendo sua origem histórica, suas limitações e seus efeitos de poder.
Em terceiro lugar, a crítica à categoria “Oriente” tem implicações para a produção acadêmica no Brasil e na América Latina. Como apontam alguns autores, ainda existe um preconceito arraigado contra o estudo do “Oriente” que dificulta a aceitação de artigos nessa área, além de uma incompreensão dos conceitos e perspectivas asiáticas que leva à recusa de publicações sob a alegação de “inadequação conceitual”. Superar esse preconceito exige não apenas ampliar o conhecimento sobre as sociedades asiáticas e do mundo islâmico, mas também questionar as categorias eurocêntricas que organizam o pensamento acadêmico brasileiro.
Por fim, a compreensão do “Oriente” como construção discursiva abre espaço para abordagens mais rigorosas e éticas na pesquisa acadêmica e na comunicação pública. Em vez de empregar categorias genéricas e imprecisas, os pesquisadores podem optar por designações mais específicas e contextualizadas, como “Ásia Ocidental”, “Sudoeste Asiático”, “Leste Asiático”, “Sudeste Asiático”, “mundo árabe-islâmico”, entre outras, conforme o caso. Isso não apenas aumenta a precisão analítica, mas também contribui para desnaturalizar visões estereotipadas e para promover um conhecimento mais descolonizado e plural.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo demonstrou que a nomenclatura “Oriente” não designa uma delimitação geográfica precisa, mas uma categoria histórica e cultural, construída ao longo de séculos a partir de uma perspectiva europeia e ocidental sobre o mundo. A partir das contribuições de Edward Said, Talal Asad e de autores contemporâneos dos estudos pós-coloniais e decoloniais, mostrou-se que o “Oriente” foi historicamente fabricado pelo Ocidente como um “outro” subalterno, elemento constitutivo da própria identidade ocidental e sustentado por estruturas de poder culturais, políticas e epistêmicas.
O estudo percorreu a origem etimológica do termo, sua consolidação nos séculos XVIII e XIX no contexto do expansionismo europeu, as subdivisões em Oriente Próximo, Médio e Distante, e as críticas contemporâneas que apontam seu caráter eurocêntrico, impreciso e generalizante. Concluiu-se que compreender o “Oriente” como construção discursiva é fundamental para evitar simplificações e para promover abordagens mais rigorosas e descolonizadas nas ciências humanas.
As implicações desse debate para a produção acadêmica são significativas. Exige-se uma postura crítica em relação às categorias naturalizadas que organizam o pensamento acadêmico e o senso comum, bem como uma reflexão mais ampla sobre o legado colonial nas ciências humanas. No contexto brasileiro e latino-americano, superar o preconceito contra o estudo do “Oriente” e ampliar o conhecimento sobre as sociedades asiáticas e do mundo islâmico são passos importantes para promover um conhecimento mais plural e descolonizado.
Por fim, a compreensão do “Oriente” como categoria discursiva abre espaço para abordagens mais rigorosas e éticas na pesquisa acadêmica e na comunicação pública. Em vez de empregar categorias genéricas e imprecisas, os pesquisadores podem optar por designações mais específicas e contextualizadas, contribuindo assim para desnaturalizar visões estereotipadas e para promover um conhecimento mais descolonizado e plural.
REFERÊNCIAS
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NOTAS
Autor e pesquisador: Josué Barros Neto
Área de conhecimento: Ciências Históricas
Disciplina: História dos Povos e Civilizações do Oriente
Organização: Centro de Estudos Históricos Antropológico Sociocultural – CEHASC