Conexões entre Narrativas da Memória, Sociolinguística e Semiótica

CONEXÕES ENTRE NARRATIVAS DA MEMÓRIA, SOCIOLINGUÍSTICA E SEMIÓTICA
Entre Discursos, Signos e Lembranças: A Linguagem Como Ponte Entre Memória Coletiva e Práticas Sociais
RESUMO: Este artigo discute a linguagem como fenômeno estrutural, social, simbólico e político, articulando os campos das narrativas da memória, da sociolinguística e da semiótica. Parte-se da hipótese de que a linguagem não apenas descreve experiências, mas também organiza lembranças, produz identidades, estabelece fronteiras sociais e disputa sentidos. A análise recupera contribuições do estruturalismo, da Sociolinguística Variacionista, da Análise do Discurso, da Semiótica da Cultura e dos estudos da memória coletiva. Argumenta-se que as narrativas orais, escritas, visuais e sinalizadas constituem formas de preservação e reelaboração do passado, especialmente em grupos historicamente subalternizados. No contexto brasileiro, a diversidade linguística e cultural foi atravessada por processos de colonização, escravização, homogeneização linguística e normatização. Por isso, o reconhecimento das variedades linguísticas, das tradições orais e dos sistemas semióticos não hegemônicos é também uma prática de justiça social. Conclui-se que o estudo integrado da estrutura, do sentido e do poder da linguagem contribui para práticas educacionais, culturais e políticas comprometidas com a diversidade, a memória e a democratização da comunicação.
Palavras-chave: Linguagem. Memória coletiva. Sociolinguística. Semiótica. Poder. Diversidade cultural.
1. Introdução

A Linguística, como ciência dedicada ao estudo da linguagem humana, não se limita à descrição de sons, palavras e regras gramaticais. Ela investiga também os processos pelos quais os sujeitos produzem sentidos, constroem identidades, organizam experiências e participam de disputas sociais. A linguagem, nesse sentido, é simultaneamente estrutura, prática cultural, forma de interação e mecanismo de poder.
Em sociedades marcadas por desigualdades históricas, a linguagem nunca é inteiramente neutra. As formas de nomear pessoas, grupos e acontecimentos influenciam aquilo que pode ser reconhecido como legítimo, verdadeiro ou digno de memória. Determinados falares são classificados como “corretos”, enquanto outros são estigmatizados; certas narrativas são incorporadas à história oficial, ao passo que outras permanecem silenciadas; imagens, objetos e rituais são apresentados como símbolos nacionais, embora seus significados possam ser contestados por diferentes grupos.
Este artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre as relações entre estrutura, sentido e poder da linguagem, articulando-as às narrativas da memória, à sociolinguística e à semiótica. O objetivo não é fundir esses campos em uma única teoria, mas evidenciar suas zonas de diálogo. A estrutura linguística permite compreender como os enunciados se organizam; a sociolinguística demonstra que os usos da língua são atravessados por relações sociais; a semiótica amplia a análise para diferentes sistemas de signos; e os estudos da memória mostram como as experiências individuais e coletivas são narradas, selecionadas e transmitidas.
A discussão também considera o contexto brasileiro, marcado por intenso contato entre línguas indígenas, africanas, europeias e de imigração. Estudos sobre a história sociolinguística do país indicam que a hegemonia do português resultou de um longo processo de homogeneização linguística, que reduziu a visibilidade de um amplo mosaico de línguas e práticas comunicativas (LUCCHESI, 2017). Assim, compreender a linguagem no Brasil exige superar uma visão exclusivamente normativa e eurocentrada.
A questão central pode ser formulada da seguinte maneira: de que modo a articulação entre memória, variação linguística e produção semiótica permite compreender a linguagem como espaço de pertencimento, conflito e resistência? Sustenta-se que a resposta depende de uma concepção ampliada de linguagem, entendida como prática histórica e social, e não apenas como sistema abstrato.
2. Linguagem, Estrutura e Produção de Sentidos

2.1 Da estrutura fixa à estrutura dinâmica
A noção de estrutura ocupa lugar central na história da linguística moderna. Em Curso de Linguística Geral, publicado originalmente em 1916, Ferdinand de Saussure concebe a língua como um sistema de signos no qual cada unidade adquire valor por sua relação com as demais. O significado de um elemento linguístico, portanto, não decorre apenas de uma suposta ligação direta com o mundo, mas de sua posição diferencial dentro do sistema.
Essa contribuição foi decisiva para a consolidação da Linguística como ciência autônoma. Entretanto, uma leitura exclusivamente estrutural pode produzir a impressão de que a língua funciona independentemente dos sujeitos e das condições históricas. Abordagens posteriores demonstraram que os sistemas linguísticos são atualizados em situações concretas de interação, nas quais diferentes grupos disputam reconhecimento, autoridade e legitimidade.
A estrutura linguística não deve ser entendida como uma ordem imóvel. Ela é relativamente estável, porque permite a comunicação entre os membros de uma comunidade, mas também é transformada pelos usos sociais. Mudanças fonéticas, lexicais, morfológicas e sintáticas podem surgir em determinados grupos, espalhar-se por redes sociais e, em alguns casos, alcançar a variedade de maior prestígio.
A Sociolinguística Variacionista, especialmente a partir dos trabalhos de William Labov, contribuiu para demonstrar que a variação não representa desorganização. As formas variantes apresentam regularidades e se relacionam a fatores como faixa etária, escolaridade, localização geográfica, gênero, redes de interação e posição social. Desse modo, uma estrutura linguística pode ser simultaneamente regular e variável.
2.2 Estrutura, cultura e experiência
As estruturas linguísticas também expressam modos de organizar a experiência. Categorias de tempo, espaço, pessoa, evidencialidade e relação social podem assumir configurações distintas entre as línguas. Isso não significa que cada idioma determine rigidamente o pensamento dos falantes, mas que as formas linguísticas disponibilizam recursos específicos para interpretar e comunicar o mundo.
A linguagem, portanto, participa da construção da experiência social. Um território pode ser nomeado como “propriedade”, “comunidade”, “aldeia”, “quilombo”, “periferia” ou “área de risco”, e cada denominação mobiliza perspectivas, valores e relações de poder diferentes. A escolha lexical não é um detalhe superficial: ela enquadra acontecimentos e orienta sua interpretação.
Essa dimensão torna-se particularmente evidente quando se analisam grupos submetidos a processos de colonização, racismo ou marginalização. Nesses contextos, a disputa pela linguagem envolve também a disputa pelo direito de nomear a própria história. A recuperação de topônimos indígenas, de vocabulários de origem africana e de formas comunitárias de autodesignação pode funcionar como afirmação de pertencimento e contestação de narrativas dominantes.
3. Narrativas da Memória e Transmissão Cultural

3.1 Memória como construção social
A memória não corresponde a um arquivo neutro no qual o passado seria simplesmente armazenado e recuperado. Lembrar implica selecionar, organizar e atribuir sentido às experiências. Maurice Halbwachs, ao desenvolver o conceito de memória coletiva, destacou que as lembranças individuais são reconstruídas no interior de quadros sociais. Família, comunidade, religião, território, escola e instituições oferecem referências que orientam aquilo que é lembrado e a maneira como é narrado.
Essa perspectiva permite compreender que a memória coletiva não elimina a dimensão individual, mas demonstra que o indivíduo recorda a partir de linguagens, categorias e valores socialmente partilhados. Toda lembrança comunicável depende de formas de representação: palavras, gestos, imagens, objetos, músicas, rituais e narrativas.
A narrativa exerce, nesse processo, uma função organizadora. Ela articula acontecimentos em uma sequência temporal, estabelece relações de causa e consequência, define personagens, seleciona pontos de vista e produz efeitos emocionais. Uma experiência fragmentada pode adquirir coerência quando transformada em relato. Contudo, essa coerência não deve ser confundida com reprodução integral do passado: toda narrativa é uma interpretação situada.
Estudos neurolinguísticos sobre o texto narrativo indicam que a narrativa pode auxiliar a organização do pensamento e a evocação de lembranças, relacionando-se à construção de modelos situacionais na memória episódica. Essa contribuição, entretanto, deve ser articulada às dimensões históricas e sociais da memória, evitando explicações exclusivamente biológicas para fenômenos culturais complexos (SILVA; BRANDÃO, 2013).
3.2 Oralidade, território e ancestralidade
As narrativas orais constituem formas fundamentais de transmissão de conhecimentos, valores e experiências. Em muitas comunidades, a oralidade não é uma etapa inferior da cultura escrita, mas um sistema próprio de produção, conservação e circulação de saberes. Ela pode estar associada a cantos, celebrações, práticas de cura, narrativas de origem, histórias familiares, modos de trabalho e relações com o território.
Pesquisas recentes sobre comunidades quilombolas mostram que a oralidade participa da preservação do repertório memorial e da transmissão de experiências entre gerações. Ao mesmo tempo, essas pesquisas registram tensões relacionadas à continuidade das narrativas, sobretudo quando os jovens deixam de participar de práticas comunitárias ou passam a se relacionar com outros circuitos culturais e digitais (PINTO FURTADO, 2024).
As narrativas quilombolas devem ser compreendidas como práticas de memória e como formas de produção de conhecimento. Elas podem conservar informações sobre deslocamentos, conflitos, relações de parentesco, festas, experiências de trabalho e estratégias de resistência. Sua estrutura pode incluir repetições, fórmulas introdutórias, alternância de tempos verbais, descrições espaciais e marcas de avaliação que orientam a interpretação dos acontecimentos.
Não se deve, porém, generalizar tais recursos para todas as comunidades quilombolas. Cada grupo possui história, repertório, práticas discursivas e formas de transmissão específicas. A análise responsável exige escuta, contextualização e participação dos próprios sujeitos, evitando transformar a comunidade em objeto exótico ou fonte ilustrativa de teorias previamente definidas.
3.3 Memória, silêncio e conflito
Toda política de memória envolve lembranças e esquecimentos. O silêncio pode resultar de repressão, exclusão documental, vergonha imposta, violência ou simplesmente da transformação das formas de transmissão. Por isso, a ausência de determinado acontecimento em arquivos oficiais não significa que ele não tenha sido significativo para uma comunidade.
A narrativa memorial também pode ser objeto de disputa interna. Diferentes gerações, grupos familiares ou instituições podem atribuir sentidos divergentes a um mesmo evento. A memória coletiva não é necessariamente consensual; ela pode ser atravessada por conflitos, revisões e contranarrativas.
Essa dimensão é relevante para os estudos históricos e linguísticos. Ao analisar relatos de memória, não basta perguntar “o que aconteceu”. É necessário investigar quem narra, para quem, em que circunstância, com quais categorias e com quais efeitos. A linguagem do testemunho é, simultaneamente, registro de experiência e intervenção no presente.
4. Sociolinguística, Variação e Desigualdade

4.1 A variação como fenômeno sistemático
A sociolinguística demonstra que toda comunidade de fala apresenta variação. Pessoas que compartilham uma língua não utilizam necessariamente as mesmas formas em todos os contextos. A alternância entre variantes pode estar relacionada à região, à idade, à escolarização, à situação comunicativa, ao grupo profissional ou às redes de convivência.
A variação não constitui erro em si mesma. O que costuma ser avaliado como “certo” ou “errado” depende de convenções sociais, instituições e relações de prestígio. Uma variedade pode ser estruturalmente complexa e, ainda assim, ser socialmente desvalorizada. O preconceito linguístico nasce quando julgamentos sobre formas de falar são convertidos em julgamentos sobre a inteligência, a moralidade ou a capacidade dos falantes.
No Brasil, essa questão está relacionada à história da formação social. O português foi imposto como língua hegemônica sobre um território de grande diversidade indígena e sobre populações africanas submetidas à escravização. A homogeneização linguística não ocorreu de maneira espontânea: esteve associada à colonização, à administração, à escolarização, à normatização e à exclusão de outras línguas.
Como observa Lucchesi (2017), a história sociolinguística brasileira envolve a passagem de um multilinguismo generalizado para um multilinguismo localizado. Embora o português seja hoje a língua materna majoritária, o país continua abrigando línguas indígenas, línguas de imigração, línguas de comunidades tradicionais e diferentes variedades regionais e sociais do português.
4.2 Norma, prestígio e preconceito
É importante distinguir norma-padrão, norma culta e uso efetivo. A norma-padrão corresponde a um modelo idealizado, frequentemente associado à tradição gramatical e aos processos de escolarização. A norma culta pode designar usos de grupos escolarizados em situações monitoradas, mas não constitui um bloco homogêneo. Já as variedades populares, regionais e comunitárias apresentam regras próprias, ainda que sejam frequentemente descritas a partir daquilo que lhes falta em relação ao padrão.
A escola pode reproduzir essa hierarquia quando corrige a fala do estudante sem explicar a diversidade de usos ou quando transforma sua variedade familiar em sinal de incapacidade. Uma educação linguística democrática deve ensinar a modalidade escrita formal e ampliar a competência comunicativa, mas sem desqualificar os repertórios que os estudantes trazem de suas comunidades.
Isso não significa abandonar o ensino da escrita formal. Significa apresentá-la como uma variedade necessária em determinados gêneros e espaços institucionais, e não como única forma legítima de linguagem. O estudante precisa aprender a transitar entre diferentes registros, compreendendo seus contextos de uso e as relações de poder que os envolvem.
4.3 Linguagem, identidade e resistência
A fala funciona como marcador de identidade. Pronúncia, vocabulário, ritmo, formas de tratamento e escolhas discursivas podem indicar pertencimentos territoriais, geracionais, étnicos ou profissionais. Em contextos de estigmatização, manter determinadas marcas linguísticas pode ser uma forma de resistência à assimilação.
As práticas linguísticas periféricas, juvenis, indígenas, quilombolas e afro-brasileiras também produzem inovação. Gírias, performances orais, canções, batalhas de rima e linguagens digitais criam vocabulários e formas de argumentação que circulam fora dos espaços tradicionais de legitimação. A análise sociolinguística deve considerar essas práticas como produção cultural, e não apenas como desvio da norma.
5. Semiótica, Cultura e Circulação dos Signos

5.1 O signo além da palavra
A Semiótica amplia o campo de análise ao investigar os processos de significação em diferentes sistemas de signos. Palavras, imagens, gestos, sons, roupas, monumentos, cores, objetos e espaços podem participar da produção de sentidos. A linguagem verbal é, portanto, apenas uma das modalidades pelas quais as sociedades comunicam valores e constroem representações.
Na tradição de Charles Sanders Peirce, o signo pode ser compreendido a partir da relação entre aquilo que o representa, o objeto a que se refere e o efeito interpretativo produzido. Essa abordagem permite analisar diferentes tipos de relação: a fotografia mantém uma conexão indicial com seu referente; um mapa combina convenções e relações espaciais; um símbolo depende de hábitos culturais compartilhados.
Ferdinand de Saussure, por sua vez, enfatizou o caráter relacional e convencional do signo linguístico. Roland Barthes ampliou essa problemática ao demonstrar como objetos cotidianos e mensagens culturais podem naturalizar ideologias. Em Mitologias, o autor analisa como produtos, imagens e práticas sociais são apresentados como evidências naturais, embora expressem valores históricos específicos.
5.2 Semiótica da cultura e memória
A Semiótica da Cultura, especialmente associada à Escola de Tártu-Moscou e a autores como Iúri Lotman, compreende a cultura como um conjunto complexo de sistemas de signos. A cultura não apenas transmite informações: ela conserva, transforma e reorganiza a memória coletiva. Textos culturais podem ser escritos, visuais, musicais, arquitetônicos, rituais ou digitais.
Essa perspectiva é produtiva para a análise de patrimônios culturais. Uma festa, por exemplo, não é apenas um evento; ela pode condensar memórias, relações territoriais, hierarquias, crenças e disputas de reconhecimento. Um monumento não é apenas um objeto no espaço urbano; ele seleciona personagens e acontecimentos que uma sociedade decide tornar visíveis.
Na era digital, a memória passa a circular por arquivos audiovisuais, plataformas, bancos de dados e sistemas automatizados. Esse processo amplia as possibilidades de preservação, mas também cria novos problemas: quem controla os arquivos? Quais conteúdos são indexados? Que comunidades têm seus dados protegidos? Como evitar que tecnologias de classificação reproduzam desigualdades históricas?
A reflexão contemporânea sobre semiótica e memória tem examinado justamente as relações entre cultura, informação, inteligência artificial e disputa pela visibilidade. A memória coletiva, nesse quadro, não é apenas conservada; ela é continuamente reprogramada por dispositivos técnicos e institucionais.
5.3 Imagem, mídia e ideologia
Os meios de comunicação produzem sentidos por meio da articulação entre texto, imagem, som e montagem. A representação de uma comunidade como “tradicional”, “violenta”, “pobre”, “exótica” ou “ameaçadora” não é uma simples descrição. Ela participa da construção de expectativas sociais e pode influenciar políticas públicas, decisões judiciais e relações cotidianas.
A semiótica contribui para desnaturalizar essas representações. Em vez de perguntar apenas “o que a imagem mostra”, é necessário investigar como ela organiza o olhar: o que aparece em primeiro plano, o que é ocultado, quem fala, quem é observado, quais cores e enquadramentos são utilizados e que repertórios culturais são acionados.
No ambiente digital, essa análise deve incluir hashtags, memes, emojis, vídeos curtos, comentários e formas de circulação algorítmica. Os sentidos são produzidos tanto pelo conteúdo quanto pelas condições de compartilhamento, repetição e visibilidade.
6. Estrutura, Sentido e Poder

6.1 O discurso como prática social
O sentido não está inteiramente contido nas palavras. Ele emerge da relação entre signos, sujeitos, gêneros discursivos, contextos e conhecimentos compartilhados. A mesma expressão pode produzir efeitos diferentes conforme a situação de enunciação, a posição social dos participantes e a memória discursiva mobilizada.
A Pragmática enfatiza que falar é realizar ações: prometer, ordenar, acusar, aconselhar, nomear, excluir ou reconhecer. A Análise do Discurso, em diferentes tradições, investiga como os enunciados se relacionam com formações históricas, ideológicas e institucionais.
Nesse ponto, Michel Foucault oferece uma contribuição importante ao demonstrar que os discursos não são apenas conjuntos de frases. Eles organizam campos de saber, definem objetos, autorizam determinados sujeitos a falar e estabelecem limites para o dizível. O poder não atua somente pela censura direta; ele também opera pela produção de classificações, diagnósticos e verdades institucionais.
6.2 Nomeação e legitimação
Nomear é uma forma de intervir no mundo. Quando uma instituição classifica um grupo como “minoria”, “população vulnerável” ou “comunidade tradicional”, produz uma determinada posição administrativa e política. Esses termos podem viabilizar direitos, mas também podem reduzir experiências complexas a categorias burocráticas.
A linguagem jurídica, científica e administrativa possui efeitos concretos. Ela determina quem é reconhecido como sujeito de direito, qual conhecimento é considerado válido e quais práticas podem ser protegidas ou proibidas. Por isso, a análise linguística precisa observar não apenas o conteúdo explícito, mas também as condições institucionais que conferem autoridade aos enunciados.
6.3 Resistência e reexistência
Se a linguagem participa da dominação, ela também constitui espaço de resistência. Grupos subalternizados elaboram novas formas de narrar, nomear e representar a si mesmos. A resistência pode ocorrer pela preservação de uma língua, pela retomada de um território simbólico, pela criação artística, pela circulação de testemunhos ou pela contestação de categorias impostas.
Mais do que “dar voz” a grupos que supostamente não a possuem, pesquisadores e instituições devem reconhecer que esses sujeitos já produzem discursos. O desafio ético consiste em criar condições para que suas próprias formas de expressão sejam respeitadas, sem substituí-las por uma linguagem acadêmica que fale em seu lugar.
Essa postura exige metodologias colaborativas, história oral, pesquisa participante, análise crítica dos arquivos e devolução dos resultados às comunidades envolvidas. A pesquisa da linguagem torna-se, assim, também uma prática de responsabilidade social.
7. Implicações Educacionais e Metodológicas

A articulação entre memória, sociolinguística e semiótica pode renovar o ensino de linguagem. Em vez de restringir o trabalho escolar à identificação de classes gramaticais, é possível analisar como os textos constroem identidades, representam grupos e disputam interpretações do passado.
Algumas práticas são especialmente produtivas:
- trabalhar com relatos de memória produzidos por familiares, moradores e comunidades locais;
- comparar variedades linguísticas regionais e sociais sem classificá-las como superiores ou inferiores;
- analisar letras de músicas, fotografias, monumentos, vídeos e postagens digitais como textos semióticos;
- discutir como jornais e redes sociais representam diferentes grupos sociais;
- ensinar a norma-padrão como recurso de circulação institucional, sem desvalorizar outras variedades;
- desenvolver projetos de história oral com procedimentos de consentimento, preservação e devolução dos registros;
- abordar línguas indígenas, africanas, de imigração e Libras como componentes da diversidade linguística brasileira.
Do ponto de vista metodológico, a interdisciplinaridade não deve consistir apenas na reunião de conceitos. É necessário definir um objeto, uma pergunta e procedimentos coerentes. Uma pesquisa sobre memória quilombola, por exemplo, pode combinar entrevistas, análise narrativa, descrição de práticas linguísticas, observação de rituais e interpretação de fotografias. Cada procedimento produz um tipo de evidência e exige cuidados éticos próprios.
Também é importante evitar afirmações amplas sem base empírica. O texto original, por exemplo, atribuía aos relatos quilombolas o uso recorrente de verbos no pretérito imperfeito, repetições e metáforas. Esses recursos podem ocorrer, mas sua generalização exige corpus definido e análise sistemática. Em uma versão acadêmica, é preferível afirmar que determinados estudos identificam recursos narrativos específicos em comunidades particulares, indicando o contexto e a fonte.
Da mesma forma, referências a eventos científicos devem ser verificadas com precisão. O SIEL 2025 corresponde ao VIII Seminário Internacional de Estudos de Linguagens e à XXVI Semana de Letras, realizados pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul entre 5 e 7 de novembro de 2025. A programação divulgada enfatizou a Linguística Aplicada e pesquisas participativas, interpretativistas e de orientação etnográfica, mas não deve ser apresentada como se fosse uma única fonte geral para todas as afirmações do artigo.[siel.ufms][siel.ufms]
8. Considerações Finais

A linguagem é uma estrutura porque organiza relações entre unidades e permite a produção de enunciados. É uma prática social porque varia conforme os grupos, os territórios e as situações de interação. É um sistema semiótico porque produz sentidos por meio de palavras, imagens, gestos, sons, objetos e rituais. E é uma relação de poder porque define o que pode ser nomeado, lembrado, reconhecido e legitimado.
As narrativas da memória mostram que o passado se torna comunicável por meio de formas simbólicas. A sociolinguística evidencia que a diversidade dos usos linguísticos é sistemática e socialmente significativa. A semiótica demonstra que a cultura preserva e transforma informações por meio de múltiplos sistemas de signos. Em conjunto, esses campos permitem compreender a linguagem como espaço de continuidade e mudança, pertencimento e conflito, dominação e resistência.
No Brasil, essa abordagem é indispensável. A história sociolinguística do país foi marcada por contato entre línguas, violência colonial, escravização, deslocamentos populacionais, escolarização desigual e imposição de modelos normativos. Ao mesmo tempo, comunidades indígenas, quilombolas, periféricas e migrantes preservam e renovam repertórios linguísticos e semióticos que ampliam a compreensão da sociedade brasileira.
Estudar a linguagem, portanto, não significa apenas descrever formas. Significa investigar como os sujeitos constroem mundos compartilhados, como as memórias são transmitidas e como as desigualdades são reproduzidas ou enfrentadas. Uma linguística comprometida com a diversidade precisa combinar rigor analítico, atenção histórica e responsabilidade ética. Seu objetivo não é simplesmente falar sobre a linguagem, mas compreender as condições pelas quais diferentes pessoas podem falar, ser ouvidas e participar da produção coletiva de sentidos.
Referências
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