
A HISTÓRIA DA GUERRA BIOLÓGICA NA HUMANIDADE
Das Táticas Antigas aos Desafios Contemporâneos de Biossegurança
RESUMO: A guerra biológica, compreendida como o uso intencional de agentes biológicos — microrganismos, toxinas ou materiais contaminados — para causar doenças, morte ou danos em humanos, animais e plantas, constitui uma prática histórica de longa duração. Este artigo examina a trajetória da guerra biológica desde a Antiguidade até o século XXI, analisando a evolução das táticas, a sofisticação tecnológica dos agentes empregados e os marcos regulatórios internacionais destinados a sua proibição. A pesquisa abrange exemplos da Antiguidade e da Idade Média, programas militares da Era Colonial e das Guerras Mundiais, iniciativas da Guerra Fria, episódios de bioterrorismo e o regime normativo contemporâneo, com ênfase na Convenção sobre Armas Biológicas de 1972. Argumenta-se que, embora tratados internacionais tenham estabelecido proibições formais, persistem desafios estruturais relacionados à verificação, ao uso dual da ciência e à ameaça de atores não estatais. A compreensão histórica é apresentada como condição indispensável para políticas de prevenção, biossegurança e cooperação global.

Palavras-chave: guerra biológica; armas biológicas; bioterrorismo; Convenção sobre Armas Biológicas; história militar; biossegurança.
Introdução

A guerra biológica representa uma das formas mais antigas e persistentes de violência organizada. Sua definição contemporânea abrange o uso deliberado de bactérias, vírus, fungos, toxinas e outros agentes biológicos com o objetivo de produzir doenças, mortes, pânico ou desestabilização social, política e militar. Diferentemente de outras modalidades de conflito, a guerra biológica explora processos naturais de infecção e contágio, transformando a própria biologia em instrumento de coerção e destruição.
A história dessa prática estende-se por milênios, acompanhando a evolução do conhecimento humano sobre doenças, microrganismos e mecanismos de transmissão. Desde táticas rudimentares na Antiguidade, como a contaminação de fontes de água e o envenenamento de armas, até programas industriais de produção de agentes patogênicos no século XX, a guerra biológica revela a capacidade humana de instrumentalizar a ciência para fins destrutivos.

O estudo da guerra biológica não se restringe à história militar. Ele envolve questões de ética, direito internacional, saúde pública, ciência e tecnologia. A compreensão dessa trajetória é essencial para informar políticas contemporâneas de prevenção, biossegurança e controle de armas, especialmente em um contexto marcado por avanços acelerados nas ciências da vida, pela globalização e pela emergência de ameaças assimétricas, como o bioterrorismo.

Este artigo tem como objetivo reconstruir a história da guerra biológica na humanidade, desde seus primórdios até os desafios atuais. A análise está organizada em cinco eixos temporais e temáticos: (I) guerra biológica na Antiguidade e na Idade Média; (II) Era Colonial e Guerras Mundiais; (III) Guerra Fria e programas estatais de armas biológicas; (IV) bioterrorismo e ameaças não estatais; e (V) tratados internacionais e regimes de controle. A metodologia baseia-se em revisão bibliográfica de estudos históricos, documentos internacionais, relatórios de saúde pública e pesquisas sobre segurança biológica.
A hipótese central é que a guerra biológica evoluiu de práticas empíricas e localizadas para programas estatais complexos e, mais recentemente, para ameaças difusas associadas a atores não estatais e ao uso dual da biotecnologia. Embora normas internacionais tenham sido estabelecidas para proibir essas armas, a ausência de mecanismos robustos de verificação e a natureza dual da pesquisa biológica mantêm a ameaça ativa.
Guerra Biológica na Antiguidade e na Idade Média

Os primeiros registros de guerra biológica remontam a civilizações antigas, nas quais o conhecimento sobre doenças era limitado, mas a observação empírica permitia identificar métodos para enfraquecer inimigos por meio da contaminação de recursos essenciais. Nessas sociedades, a guerra biológica frequentemente se sobrepunha à guerra química, com o uso de venenos, substâncias tóxicas e materiais contaminados.
Antiguidade

Na Antiguidade, diversas civilizações desenvolveram táticas que podem ser compreendidas como formas primitivas de guerra biológica. Os citas, povo nômade das estepes euroasiáticas, são frequentemente citados como um dos primeiros exemplos. Por volta do século VI a.C., relatos indicam que guerreiros citas utilizavam flechas envenenadas com sangue em decomposição, fezes de animais e tecidos de cadáveres em putrefação. O objetivo não era apenas causar ferimentos imediatos, mas induzir infecções graves nas feridas dos inimigos, aumentando a mortalidade e o sofrimento.

Gregos e romanos também empregaram estratégias similares. Durante cercos, há registros de envenenamento de poços com cadáveres e substâncias tóxicas, visando privar os defensores de água potável e provocar doenças. Um episódio frequentemente mencionado envolve o general cartaginês Aníbal, em 184 a.C., que teria lançado vasos contendo serpentes venenosas em navios inimigos, provocando pânico e desorganização nas forças adversárias. Embora o uso de serpentes possa ser classificado mais como guerra química ou psicológica, o episódio ilustra a criatividade estratégica na exploração de elementos biológicos.

Os assírios, por sua vez, são associados ao uso de fungos contaminantes. No século VII a.C., há relatos de que poços eram contaminados com o fungo do centeio (Claviceps purpurea), responsável pelo ergotismo, uma doença caracterizada por sintomas alucinatórios, gangrena e convulsões. Embora a precisão histórica desses relatos seja debatida, eles indicam uma compreensão empírica de que certos materiais podiam induzir enfermidades em populações inimigas.

Outro exemplo clássico é o uso de plantas tóxicas em contextos militares. Durante o cerco de Krissa, por volta de 600 a.C., Solon de Atenas teria utilizado a erva purgativa hellebore para contaminar o suprimento de água da cidade, provocando diarreia intensa e debilitação nos defensores. Esse caso ilustra a fronteira fluida entre guerra química e biológica na Antiguidade, na qual substâncias naturais eram empregadas para produzir efeitos fisiológicos adversos.
Idade Média

Na Idade Média, as táticas de guerra biológica mantiveram características similares, embora em um contexto de conhecimento médico ainda restrito. A prática de catapultar cadáveres ou partes de animais infectados em cidades sitiadas era relativamente comum, ainda que a intenção específica de causar epidemias nem sempre seja clara.
O episódio mais famoso e debatido desse período é o Cerco de Caffa, entre 1346 e 1347. Durante o cerco da colônia genovesa de Caffa, na Crimeia, as forças mongóis da Horda Dourada teriam catapultado cadáveres de vítimas da peste bubônica para dentro da cidade, na tentativa de infectar os defensores. Esse evento é frequentemente citado como um dos primeiros exemplos de guerra biológica medieval e como um possível gatilho para a disseminação da Peste Negra na Europa.

Contudo, historiadores modernos questionam a eficácia e a intencionalidade desse ato como arma biológica. Alguns argumentam que a peste já estava presente na região e que o cerco foi apenas um dos múltiplos fatores que contribuíram para sua disseminação. Outros sugerem que, mesmo que tenha havido intenção de contaminar, a transmissão da peste por meio de cadáveres catapultados seria menos eficiente do que a transmissão por pulgas e roedores. Apesar das controvérsias, o Cerco de Caffa permanece como símbolo da interseção entre guerra, doença e memória histórica.
Outros exemplos medievais incluem relatos de contaminação de fontes de água com animais mortos e materiais em decomposição durante cercos. Embora a compreensão científica dos mecanismos de transmissão fosse limitada, a observação empírica indicava que certos materiais podiam induzir doenças em populações sitiadas.
A guerra biológica na Antiguidade e na Idade Média, portanto, caracteriza-se por táticas rudimentares, baseadas em observação empírica e no uso de materiais disponíveis no ambiente. Essas práticas não dependiam de conhecimento microbiológico, mas de experiências acumuladas sobre os efeitos de substâncias e materiais contaminados.
Guerra Biológica na Era Colonial e nas Guerras Mundiais

A Era Colonial e as Guerras Mundiais testemunharam transformações significativas na guerra biológica. Avanços na microbiologia, na organização militar e na logística permitiram o desenvolvimento de programas mais sofisticados e em maior escala.
Era Colonial

Um dos episódios mais controversos da guerra biológica colonial ocorreu durante a Guerra Pontiac, em 1763, na América do Norte. O comandante britânico Lorde Jeffrey Amherst é frequentemente acusado de ter aprovado a distribuição de cobertores e lenços infectados com varíola para tribos nativas americanas que sitiavam o Fort Pitt. A intenção documentada era usar a doença como arma para enfraquecer as forças indígenas.
Embora a eficácia da transmissão da varíola por meio de cobertores seja debatida — alguns estudiosos argumentam que a varíola se disseminava principalmente por contato direto e aerossóis —, a intenção de empregar a doença como instrumento de guerra está registrada em correspondências da época. Esse episódio ilustra como o conhecimento empírico sobre doenças contagiosas foi instrumentalizado em contextos coloniais, mesmo antes da consolidação da microbiologia moderna.
Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

A Primeira Guerra Mundial marcou um ponto de inflexão na história da guerra biológica. A Alemanha implementou um programa pioneiro, visando principalmente a animais para enfraquecer as forças aliadas. Agentes alemães, como Anton Dilger, usaram bactérias de mormo (Burkholderia mallei) e antraz (Bacillus anthracis) para infectar cavalos e mulas destinados ao esforço de guerra aliado, especialmente nos Estados Unidos.
O objetivo era interromper cadeias de suprimentos e o transporte militar sem violar diretamente as leis internacionais da época, que proibiam o uso de armas químicas e biológicas contra humanos. O programa alemão incluiu a criação de laboratórios secretos em países neutros e o recrutamento de agentes para realizar sabotagens biológicas.
Embora o impacto militar direto dessas operações seja debatido, o programa alemão demonstrou a viabilidade técnica da guerra biológica moderna e antecipou desenvolvimentos posteriores. A experiência também contribuiu para a percepção de que agentes biológicos podiam ser empregados de forma clandestina, dificultando a atribuição de responsabilidade.
Segunda Guerra Mundial (1939-1945)

A Segunda Guerra Mundial testemunhou o desenvolvimento de programas de guerra biológica em múltiplos países. O programa japonês, centrado na Unidade 731, é o mais infame. Instalada na Manchúria ocupada, a Unidade 731, sob a liderança de Shirō Ishii, realizou experimentos em prisioneiros de guerra e civis, infectando-os deliberadamente com patógenos como peste, antraz, cólera e tifo.
Estima-se que milhares de pessoas morreram nos experimentos e centenas de milhares em ataques biológicos deliberados em cidades e vilarejos chineses, através da contaminação de suprimentos de água, alimentos e terras agrícolas. O programa japonês incluiu o desenvolvimento de bombas de cerâmica contendo pulgas infectadas com peste e balões de ar quente para distribuir patógenos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e o Reino Unido mantiveram programas de guerra biológica voltados, segundo a alegação oficial, estritamente para a pesquisa e a defesa. Embora o Protocolo de Genebra de 1925 proibisse o uso de armas bacteriológicas em combate, ele permitia o desenvolvimento e a acumulação de estoques para fins de retaliação caso o Eixo utilizasse esse armamento primeiro.
Na prática, contudo, a linha entre a pesquisa defensiva e o preparo ofensivo era tênue. Isso ficou evidente nos testes conduzidos pelo programa britânico na ilha de Gruinard, na Escócia, para avaliar a viabilidade do antraz como arma de destruição em massa. Apesar dessas iniciativas e da criação de estoques, não há registros de que essas armas tenham sido empregadas em ataques de grande escala.
A Segunda Guerra Mundial, portanto, consolidou a guerra biológica como componente da estratégia militar moderna, com programas estatais estruturados, pesquisa científica sistemática e produção em escala.
Guerra Fria, Programas Estatais e a Corrida Biológica

A Guerra Fria marcou uma nova era na guerra biológica, com o desenvolvimento de programas de armas biológicas em larga escala por superpotências, seguido por esforços para controlar e proibir essas armas.
Programa de Armas Biológicas dos Estados Unidos

Os Estados Unidos mantiveram um programa ofensivo de armas biológicas por quase três décadas. O programa incluiu pesquisa, desenvolvimento, produção e estocagem de agentes como antraz, tularemia, botulismo e febre amarela. Instalações como Fort Detrick, em Maryland, tornaram-se centros de pesquisa em guerra biológica.
Em 1969, o presidente Richard Nixon anunciou o fim do programa ofensivo de armas biológicas dos EUA e ordenou a destruição de todos os estoques de agentes biológicos e armas. A decisão foi motivada por considerações éticas, estratégicas e diplomáticas, incluindo o desejo de liderar esforços internacionais de desarmamento.
Programa Biopreparat da União Soviética

Apesar da proibição internacional, a União Soviética manteve um vasto e secreto programa de armas biológicas, conhecido como Biopreparat. Este programa, que empregava dezenas de milhares de cientistas, desenvolveu e produziu agentes biológicos em escala industrial.
Um incidente notório ocorreu em 1979 em Sverdlovsk (atual Yekaterinburg), onde um vazamento acidental de esporos de antraz de uma instalação militar soviética causou a morte de dezenas de pessoas. O episódio revelou a extensão do programa soviético e gerou controvérsias internacionais, com a União Soviética inicialmente negando a existência do programa.
A descoberta do programa soviético após o fim da Guerra Fria demonstrou as limitações dos acordos internacionais e a dificuldade de verificar o cumprimento de proibições em um setor caracterizado pelo uso dual da pesquisa.
Outros Programas Estatais
Além dos Estados Unidos e da União Soviética, outros países desenvolveram programas de armas biológicas durante a Guerra Fria e nas décadas seguintes. Relatórios indicam iniciativas no Reino Unido, França, China, Coreia do Norte, Iraque e outros. A diversidade de programas estatais reforça a percepção de que a guerra biológica permaneceu como componente estratégico, mesmo após a adoção de tratados internacionais.
Bioterrorismo e Ameaças Não Estatais

A partir da década de 1980, a atenção voltou-se também para o uso de agentes biológicos por atores não estatais, incluindo grupos terroristas, seitas e indivíduos.
Ataque Rajneeshee (1984)

O primeiro ataque bioterrorista conhecido nos EUA ocorreu em 1984, quando membros da seita Rajneeshee contaminaram saladas em restaurantes em The Dalles, Oregon, com Salmonella typhimurium. O objetivo era incapacitar eleitores locais para influenciar uma eleição municipal.
Mais de 750 pessoas adoeceram, e 45 foram hospitalizadas. O episódio foi o maior ataque bioterrorista da história dos EUA até então e demonstrou a vulnerabilidade de sistemas alimentares a contaminações deliberadas.
Ataques de Antraz nos EUA (2001)

Pouco depois dos ataques de 11 de setembro, cartas contendo esporos de antraz foram enviadas para escritórios de mídia e dois senadores dos EUA. O ataque resultou em cinco mortes e 17 infecções confirmadas.
O episódio destacou a vulnerabilidade a ataques bioterroristas e a necessidade de preparação. A investigação identificou um pesquisador do governo dos EUA como principal suspeito, embora questões permaneçam em aberto.
Outras Ameaças

Além desses casos, há registros de tentativas e ameaças de bioterrorismo envolvendo grupos como o Aum Shinrikyo no Japão, que realizou ataques com gás sarin e tentou desenvolver armas biológicas. A combinação de terrorismo químico e biológico por atores não estatais reforça a necessidade de vigilância contínua.
Tratados Internacionais e Regimes de Controle

A resposta internacional à guerra biológica incluiu a adoção de tratados e convenções destinados a proibir o desenvolvimento, produção e uso de armas biológicas.
Protocolo de Genebra (1925)
O Protocolo de Genebra de 1925 proibiu o uso de armas químicas e biológicas na guerra, mas não sua produção ou posse. Muitos países ratificaram o protocolo, mas alguns, incluindo os Estados Unidos e o Japão, mantiveram reservas ou não o ratificaram inicialmente.
Convenção sobre Armas Biológicas (BWC, 1972)
A Convenção sobre a Proibição do Desenvolvimento, Produção e Estocagem de Armas Bacteriológicas (Biológicas) e (Tóxicas) e sobre sua Destruição, conhecida como BWC, foi um marco crucial. Adotada em 1972 e em vigor desde 1975, a BWC proíbe o desenvolvimento, produção, aquisição, transferência, estocagem e uso de armas biológicas e tóxicas.
No entanto, a convenção carece de um mecanismo de verificação robusto, o que tem sido uma preocupação contínua. Diferentemente de outros tratados de desarmamento, como a Convenção sobre Armas Químicas, a BWC não possui um sistema de inspeções obrigatórias.

Esforços para fortalecer a BWC incluem propostas de protocolos de verificação, mecanismos de investigação de alegações de uso e medidas de transparência. A Nona Conferência de Revisão da BWC, em 2022, estabeleceu um grupo de trabalho para discutir verificação e conformidade, reativando debates adormecidos por mais de duas décadas.
Desafios Contemporâneos
Os desafios contemporâneos incluem a dificuldade de verificar o cumprimento em instalações de uso dual, o avanço acelerado das biotecnologias, a possibilidade de engenharia genética de patógenos e a ameaça de atores não estatais. A natureza dual da pesquisa biológica — que pode servir tanto para fins benéficos quanto maliciosos — complica a distinção entre atividades legítimas e programas de armas.
Além disso, a globalização, o aumento da mobilidade e a interdependência dos sistemas de saúde tornam os impactos potenciais de ataques biológicos mais amplos e difíceis de conter. A necessidade de cooperação internacional, transparência e investimento em biossegurança permanece crítica.
Considerações Finais

A história da guerra biológica é um testemunho sombrio da capacidade humana de usar o conhecimento científico para fins destrutivos. Desde as táticas rudimentares da Antiguidade até os programas sofisticados do século XX, a ameaça das armas biológicas tem evoluído. Embora tratados internacionais como a BWC tenham sido estabelecidos para proibir essas armas, os desafios do bioterrorismo, da verificação e do uso dual da biotecnologia continuam a exigir vigilância e cooperação global.
A compreensão dessa história é essencial para informar os esforços contínuos para prevenir o uso futuro de agentes biológicos como armas e para fortalecer a segurança global contra essa ameaça persistente. A biossegurança, a governança da pesquisa e a cooperação internacional devem ser priorizadas para mitigar riscos e garantir que os avanços das ciências da vida sirvam ao bem-estar humano, e não à destruição.
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