A História da Odontologia no Renascimento e Iluminismo

Odontologia Renascimento Iluminismo
Inovações Científicas e Tradições Globais (1500–1800)
O período do Renascimento (séculos XV–XVI) e do Iluminismo (séculos XVII–XVIII) marcou uma transição crucial na história da odontologia, que passou de práticas empíricas e supersticiosas para uma abordagem científica e racional. Na Europa, o florescimento do humanismo e o avanço dos estudos anatômicos impulsionaram obras pioneiras e inovações técnicas. Enquanto isso, na Ásia e na África, tradições médicas milenares persistiam e se entrelaçavam com influências trazidas pelo comércio marítimo e pelo colonialismo nascente. Nas Américas, o contato europeu com povos indígenas promoveu uma fusão entre saberes ancestrais e métodos coloniais rudimentares. Este artigo analisa essas dinâmicas regionais, destacando como a odontologia refletiu o espírito iluminista de razão e progresso, fundamentado em fontes históricas e arqueológicas.
Europa: O Berço da Odontologia Científica Moderna
Na Europa, o Renascimento reacendeu o interesse pela anatomia clássica e pelas ciências médicas, promovendo uma ruptura com os dogmas medievais. Em 1580, o anatomista italiano Fabricius ab Aquapendente publicou De Dentibus, o primeiro tratado inteiramente dedicado aos dentes, descrevendo sua estrutura, erupção e patologias com base em observações empíricas. Essa obra abriu caminho para o Iluminismo, quando a odontologia começou a se afirmar como um campo autônomo da medicina.
O ápice dessa evolução veio com Pierre Fauchard (1678–1761), considerado o pai da odontologia moderna. Sua obra monumental Le Chirurgien Dentiste (1728), em dois volumes ilustrados, revolucionou a prática odontológica ao sistematizar o conhecimento da época. Fauchard descreveu obturações com ouro e chumbo, técnicas ortodônticas com arames para correção de dentes mal posicionados, próteses móveis e escovas e pastas para higiene bucal. Combateu mitos, como o dos “vermes dentários”, e enfatizou a prevenção e o tratamento racional.
Durante o século XVIII, surgiram coroas metálicas, próteses de ouro e as primeiras cadeiras reclináveis, símbolos do otimismo científico iluminista. Na França e na Inglaterra, guildas de dentistas começaram a se formar, e a prática passou a ser regulamentada — um passo decisivo para a profissionalização da odontologia. Ainda assim, entre as camadas populares, persistiam métodos dolorosos executados por barbeiros e cirurgiões de feira, com uso ocasional de ópio como anestésico.
Ásia: Persistência das Tradições Holísticas e Intercâmbios Culturais
Na Ásia, o período foi marcado pela consolidação das tradições médicas chinesa e indiana, agora expostas ao intercâmbio cultural promovido pela Rota da Seda e pelas missões jesuítas.
Na China, sob as dinastias Ming (1368–1644) e Qing (1644–1912), a odontologia baseava-se em tratados como o Compendium of Materia Medica de Li Shizhen (1596), que descrevia remédios herbais para dores dentárias e o uso da acupuntura em pontos meridianos para aliviar inflamações gengivais. Técnicas de restauração, como obturações com amálgama de prata (já conhecidas desde a Antiguidade), continuaram em uso, assim como o emprego de fios de seda para fixar dentes. Práticas de higiene incluíam mastigar ervas aromáticas e betel, enquanto o contato com europeus, a partir do século XVIII, trouxe novas ideias sobre próteses e higiene dental, sem, contudo, substituir a medicina tradicional.
Na Índia, durante o Império Mughal (1526–1857), a odontologia ayurvédica, fundamentada no Sushruta Samhita, manteve grande influência. Procedimentos incluíam extrações com instrumentos de ferro, raspagens de tártaro com conchas e o uso de óleo de cravo como anestésico natural. Próteses de marfim e práticas de branqueamento com limão e cinzas eram comuns entre as elites. O contato com portugueses e holandeses introduziu ferramentas e conceitos europeus, mas o paradigma espiritual e holístico do Ayurveda permaneceu predominante.
África: Legados Islâmicos e Resistência Cultural sob o Colonialismo
Entre os séculos XVI e XVIII, a África vivenciou uma coexistência entre o legado islâmico e as práticas tradicionais, especialmente nas regiões do Norte e do Oeste.
No Norte da África, sob influência otomana, centros como Cairo e Timbuktu mantinham o estudo do Al-Tasrif de Abulcasis, integrando os avanços cirúrgicos árabes à prática odontológica local. Textos médicos islâmicos descreviam extrações com instrumentos de ferro e o uso de sal e óleos para higiene bucal, associando limpeza à pureza religiosa (taharah).
Já no subsaariano, a odontologia mantinha caráter ritual e comunitário. Em reinos como o de Benin (séculos XV–XVII), a modificação intencional dos dentes frontais — por desgaste ou extração — simbolizava maturidade e identidade étnica. Curandeiros utilizavam ervas como neem e resinas vegetais para tratar infecções. Relatos coloniais do século XVII registram o uso de remédios africanos por escravizados no tratamento dos próprios senhores, revelando uma troca de saberes muitas vezes invisibilizada. Apesar do impacto do colonialismo europeu, as dietas locais, ricas em fibras e pobres em açúcares, mantiveram baixa incidência de cáries.
Américas: Encontros Coloniais e a Fusão de Saberes
Nas Américas, entre 1500 e 1800, o encontro entre tradições indígenas e práticas europeias gerou uma odontologia híbrida e experimental.
Os maias, astecas e incas já dominavam, antes da chegada europeia, técnicas avançadas de modificação dental e o uso de anestésicos naturais como a folha de coca. Com a colonização, barbeiros-cirurgiões europeus introduziram métodos de extração rudimentares e ferramentas importadas.
No século XVIII, a odontologia profissional começou a emergir. John Baker, considerado o primeiro dentista americano (1760), inspirou-se nos métodos de Fauchard. O exemplo mais famoso é o de George Washington, cuja dentadura de 1790 — feita de marfim, dentes humanos e ouro — simboliza tanto o avanço técnico quanto as limitações da época. Nas colônias espanholas, missionários jesuítas adaptaram práticas indígenas com o uso de ervas locais para tratar gengivites e fixar dentes. No Brasil colonial, escravizados africanos e populações indígenas preservaram remédios naturais à base de ervas, enquanto as elites utilizavam próteses importadas da Europa.
Da Razão ao Progresso Global
O Renascimento e o Iluminismo transformaram a odontologia, elevando-a de prática empírica a ciência aplicada. A obra de Fauchard consolidou o método científico europeu, mas a história global mostra que tradições asiáticas, africanas e americanas também contribuíram com saberes práticos, holísticos e simbólicos. Apesar das desigualdades coloniais, esse período lançou as bases da odontologia moderna — marcada por inovação técnica, preocupação estética e ênfase na higiene.
Hoje, estudos paleopatológicos e históricos revelam a amplitude dessas influências cruzadas, lembrando-nos de que o cuidado com os dentes é, há milênios, uma expressão de cultura, ciência e humanidade.
Referências principais: Encyclopaedia Britannica, Nature, Journal of Archaeological Science, e cronologias da American Dental Association (ADA).