A História da Odontologia na Idade Média
A Idade Média (aproximadamente de 500 a 1500 d.C.) representa um período de contrastes na história da odontologia. Enquanto a Europa Ocidental mergulhava em séculos de estagnação científica, marcados por crenças supersticiosas e práticas rudimentares, o mundo islâmico florescia com avanços cirúrgicos que moldariam a odontologia moderna.
Paralelamente, tradições milenares asiáticas de medicina herbal e acupuntura continuavam em vigor; no Norte da África, o saber islâmico se fundia ao legado egípcio antigo; e nas Américas pré-colombianas, povos como maias, astecas e incas desenvolviam técnicas sofisticadas de modificação dental e práticas cirúrgicas rituais.

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Este artigo examina essas práticas regionais com base em evidências arqueológicas, textos históricos e estudos paleopatológicos, destacando como a odontologia medieval refletia os contextos culturais, religiosos e econômicos de cada civilização.
Práticas Globais entre o Declínio e a Inovação (500–1500 d.C.)
Europa: Superstições, Barbeiros e o Declínio Científico
Na Europa medieval, a odontologia regrediu significativamente em comparação à Antiguidade clássica. Com a queda do Império Romano, grande parte do conhecimento médico greco-romanos foi perdida, cedendo espaço a interpretações supersticiosas que atribuíam dores dentárias a “vermes” ou punições divinas.
As extrações dentárias eram praticadas de forma brutal por “arrancadores de dentes” — muitas vezes barbeiros-cirurgiões itinerantes que trabalhavam em feiras ou praças públicas, utilizando alicates rudimentares e sem anestesia, o que frequentemente resultava em infecções graves e mortes.
Até o século XI, monges exerciam funções odontológicas básicas, mas um edito papal (1130–1163) proibiu o exercício da medicina e da cirurgia nos mosteiros, transferindo essas práticas a leigos menos qualificados.
Apesar da precariedade dos métodos, estudos paleontológicos revelam dentes relativamente saudáveis em parte da população, devido a dietas com baixo teor de açúcar (baseadas em cereais integrais e vegetais) e a hábitos simples de higiene, como o uso de pedaços de linho áspero para limpar os dentes. Entre as elites, entretanto, as cáries eram mais frequentes por causa do consumo de doces importados.
A partir do século XIV, surgem leis e regulamentações — especialmente na França e Inglaterra — que buscavam diferenciar dentistas de barbeiros, proibindo cirurgias complexas sem licença. Próteses rudimentares, feitas de dentes humanos ou animais fixados com fios de ouro, eram usadas por nobres, ecoando técnicas da Antiguidade, mas sem progresso substancial.
Mundo Islâmico: O Brilho de Abulcasis e a Preservação do Saber Médico
O mundo islâmico — que abrangia o Oriente Médio, o Norte da África e partes da Ásia — foi o centro da inovação odontológica medieval. Durante o Século de Ouro Islâmico (séculos VIII–XIII), eruditos em Bagdá, Damasco e Córdoba traduziram e ampliaram textos gregos, hindus e persas, preservando um legado que o Ocidente havia perdido.
O nome mais proeminente é o do cirurgião Abu al-Qasim al-Zahrawi (936–1013 d.C.), conhecido no Ocidente como Abulcasis. Sua obra monumental, o Kitab al-Tasrif (O Livro da Organização Médica), composta por 30 volumes, dedicou seções inteiras à odontologia, tornando-se o primeiro tratado sistemático sobre o tema.
Abulcasis, também conhecido como Al-Zahrawi, descreveu mais de 200 instrumentos cirúrgicos, incluindo alicates para extrações, sondas para diagnóstico de abscessos e ligaduras para estabilizar dentes. Inovou com preenchimentos de cáries usando cera de abelha e resinas e indicou pastas dentais à base de sal, mel e ervas. Suas ilustrações detalhadas de procedimentos — como a remoção de tumores bucais — influenciaram a Europa até o Renascimento, especialmente após a tradução latina de sua obra no século XII.
No contexto islâmico, a odontologia integrava-se a uma visão holística médico-religiosa, na qual a limpeza (wudu) era um dever espiritual. Isso estimulava práticas preventivas, como o uso de siwak (raiz de Salvadora persica), precursor natural das escovas de dentes.
África: Influências Islâmicas no Norte e Tradições Ancestrais no Sul
A odontologia medieval africana refletia duas realidades distintas.
No Norte da África — especialmente em regiões como o Magrebe e o Egito — o domínio islâmico trouxe avanços diretos inspirados em Abulcasis. Centros como Cairo e Fez se tornaram polos de ensino médico, onde o Al-Tasrif era estudado em madraças. Registros árabes descrevem extrações com instrumentos de ferro e o uso de óleos vegetais e ervas medicinais para aliviar dores, mantendo uma continuidade com a medicina egípcia antiga.
Evidências arqueológicas em cemitérios medievais da Núbia (Sudão) mostram dentes com perfurações e desgaste controlado, sugerindo intervenções terapêuticas e estéticas.
No Sul do Saara, prevaleceram tradições etnomédicas e rituais. Curandeiros do Império de Mali (séculos XIII–XV) utilizavam ervas como neem para infecções gengivais e realizavam extrações com pedras afiadas durante ritos de passagem. Alguns relatos europeus mencionam a remoção ritual de dentes frontais inferiores para “abrir espaço” aos sisos — prática controversa e de difícil comprovação arqueológica.
O uso de adornos dentários em ouro, símbolo de status e poder, foi documentado em reinos como Benin, antecipando modas estéticas que persistem até hoje. No geral, a odontologia africana medieval combinava elementos espirituais e terapêuticos, com menor foco em próteses devido à limitação de materiais.
Ásia: Sabedoria Herbal e Acupuntura na China e na Índia
Na Ásia medieval, a odontologia evoluiu em continuidade com tradições milenares de medicina holística.
Na China (Dinastias Tang e Song, 618–1279 d.C.), as extrações rudimentares coexistiam com avanços em acupuntura odontológica: agulhas inseridas em pontos do meridiano do intestino grosso eram utilizadas para aliviar dores e inflamações. Textos médicos descrevem pastas dentais de sal e ervas, fios de seda para estabilização dentária e resinas de bambu usadas em obturações. O cuidado com a higiene era incentivado em tratados confucianos, refletindo a importância da harmonia corporal.
Na Índia (período Gupta e Sultanato de Déli, 500–1500 d.C.), a odontologia ayurvédica — sistematizada no Sushruta Samhita (século VI d.C.) — recomendava extrações com instrumentos de ferro, óleo de cravo como anestésico natural e raspagens com conchas. Próteses de marfim eram utilizadas por elites, e o contato comercial com o mundo islâmico introduziu técnicas cirúrgicas inspiradas em Abulcasis.
Evidências arqueológicas mostram baixa incidência de cáries (devido à dieta vegetariana), mas desgaste acentuado provocado pelo uso de nozes de betel, amplamente mastigadas por razões medicinais e culturais.
Tanto na Índia quanto na China, a saúde bucal era entendida como reflexo do equilíbrio espiritual e energético.
Américas Pré-Colombianas: Estética, Ritual e Cirurgia entre Maias, Astecas e Incas
Nas Américas, o período medieval corresponde ao auge das civilizações mesoamericanas e andinas (500–1500 d.C.), nas quais a odontologia assumia funções rituais, estéticas e curativas.
Os maias (séculos VI–XV) destacaram-se pelas modificações dentárias intencionais. Utilizando brocas de arco, semelhantes às usadas em joalheria, perfuravam dentes para incrustar jade, turquesa e hematita, símbolos de status e conexão com os deuses. Achados em Chichén Itzá indicam que mais de 80% dos adultos apresentavam incisivos modificados. Sacerdotes-dentistas preenchiam cavidades com misturas de resina e minerais, prevenindo infecções.
Entre os astecas (séculos XIV–XV), extrações eram comuns para tratar abscessos, e o uso de coca e ervas anestésicas auxiliava nas dores.
Os incas (Império Tawantinsuyu, séculos XIII–XVI) aplicavam fibras vegetais para estabilizar dentes e ouro derretido em coroas ornamentais para a elite.
O Códice Florentino documenta receitas de ervas para gengivite e dores dentárias.
Essas civilizações concebiam os dentes como elementos espirituais, associados à fertilidade e à força vital. Arqueologia em sítios como Teotihuacán revela baixa taxa de cáries (graças à dieta baseada em milho e quiabo), mas alto desgaste abrasivo.
Um Legado de Resiliência e Interconexões
A odontologia medieval revela uma notável diversidade de práticas e saberes.
Da superstição europeia ao esplendor científico islâmico; das tradições herbais asiáticas às modificações rituais americanas — a história dos dentes na Idade Média é também a história das interconexões culturais e da resiliência humana.
Mesmo diante de desafios como a Peste Negra (século XIV), que agravou infecções bucais e reduziu o número de praticantes de saúde, a busca por alívio e estética dental nunca cessou.
Essas práticas prepararam o terreno para o Renascimento, quando o conhecimento árabe e a curiosidade científica europeia se reencontraram.
Hoje, a paleontologia e a arqueologia biomédica continuam a desvendar esses legados, lembrando-nos que a saúde dental sempre foi um espelho da civilização.
Referências principais:
Nature, PNAS, Journal of Archaeological Science; Kitab al-Tasrif (Abulcasis).