Desigualdade Ambiental e Justiça Territorial: O Impacto Humano sobre o Planeta

Desigualdade Ambiental
Entre o colapso ecológico e a urgência ética de um novo pacto socioambiental global
Quando a Terra Fala — e Nem Todos Podem Ouvir
O planeta vive uma era de paradoxos.
Nunca houve tanto conhecimento científico sobre os ecossistemas, e, ainda assim, nunca estivemos tão próximos de um colapso ambiental. As florestas ardem, os oceanos acidificam, o clima se desestabiliza — mas os impactos dessa crise não se distribuem de forma igual.
O que chamamos de “crise climática” é, na verdade, uma crise de desigualdade ambiental: um pequeno grupo de países, corporações e elites consome a maior parte dos recursos, enquanto populações inteiras — indígenas, ribeirinhas, periféricas — enfrentam os efeitos da destruição sem voz nas decisões que os causam.
A Geografia Humana e a Justiça Territorial se unem, nesse contexto, para revelar que o meio ambiente é também um espelho da sociedade: um espaço de poder, conflito e resistência.
A natureza, explorada como mercadoria, torna-se palco de lutas políticas por sobrevivência. Como aponta o CEHASC – Centro de Estudo Histórico Antropológico Sociocultural, compreender o impacto humano sobre o planeta é também compreender o impacto das desigualdades sobre o próprio conceito de humanidade.
1. Da Natureza como Recurso à Natureza como Direito
A concepção moderna de natureza, herdada do Iluminismo e da Revolução Industrial, separou o humano do natural, transformando o meio ambiente em objeto de exploração.
A lógica colonial e capitalista consolidou a ideia de que o território é uma fonte inesgotável de matérias-primas — ouro, petróleo, florestas, corpos — legitimando séculos de extrativismo e injustiça ecológica.
Nos séculos XX e XXI, movimentos ambientais e pensadores como Milton Santos, Boaventura de Sousa Santos e Vandana Shiva inverteram essa lógica, propondo uma nova leitura: a natureza não é um recurso, mas uma relação.
Essa virada epistemológica marca o nascimento da justiça ambiental, conceito que defende que nenhum grupo humano deve arcar desproporcionalmente com os danos ambientais nem ser excluído dos benefícios da preservação.
Desse modo, a luta ambiental torna-se também uma luta política e ética: reconhecer o direito à terra, à água e ao ar puro como direitos humanos fundamentais.
2. Geografia das Desigualdades Ambientais: Quem Sofre, Onde e Por Quê
Os dados são eloquentes.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2023), os 10% mais ricos do planeta são responsáveis por mais de 50% das emissões globais de carbono, enquanto os 50% mais pobres emitem menos de 10%.
Mas os impactos recaem de modo inverso: enchentes, secas, ilhas de calor e desastres atingem de forma mais severa as populações vulneráveis.
Essa desigualdade ambiental é também territorial.
Nas grandes cidades, ela se manifesta na falta de saneamento, na ocupação de encostas e áreas de risco, na carência de áreas verdes e no acesso desigual à energia limpa.
No campo, expressa-se na expulsão de comunidades tradicionais, na contaminação por agrotóxicos e no avanço predatório do agronegócio.
Como lembra o geógrafo David Harvey, “a geografia é sempre uma geografia do poder”: os lugares onde se concentram a poluição, o lixo e o desmatamento não são acidentais — são escolhidos.
A injustiça ambiental, portanto, não é apenas ecológica, mas sociopolítica.
3. Povos da Terra: Resistências e Alternativas Culturais
Apesar das desigualdades, o mundo está repleto de resistências.
Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e movimentos ecológicos de base criam formas alternativas de relação com o ambiente — não como recurso, mas como parente, como casa.
Os povos originários amazônicos, por exemplo, articulam o conceito de floresta viva: um sistema espiritual, biológico e comunitário onde tudo está interligado.
No Cerrado e no semiárido, comunidades rurais desenvolvem técnicas de convivência com o clima, valorizando o saber ancestral sobre sementes crioulas e manejo da água.
No litoral, pescadores artesanais lutam contra a privatização dos mares, reivindicando o território pesqueiro como espaço de vida.
Essas práticas não são resquícios do passado — são epistemologias do futuro.
Elas ensinam que é possível habitar o planeta sem destruí-lo, propondo modelos de sustentabilidade baseados na reciprocidade e na partilha.
Como propõe o CEHASC, reconhecer essas vozes é essencial para construir uma justiça territorial decolonial, que valorize os modos de vida e de conhecimento marginalizados pelo capitalismo global.
4. O Espaço Urbano e o Direito Ambiental na Cidade
As cidades concentram as contradições mais visíveis da crise ecológica.
Enquanto áreas nobres desfrutam de parques, mobilidade verde e infraestrutura resiliente, as periferias enfrentam enchentes, calor extremo e ausência de arborização.
A geografia urbana mostra que a desigualdade ambiental é também uma desigualdade de cidadania.
Movimentos como o “Periferia Sustentável” e o “Rede Favela Sustentável” mostram que a transformação é possível.
Projetos de agroflorestas urbanas, hortas comunitárias e captação de água da chuva demonstram que a sustentabilidade pode nascer de baixo para cima, quando comunidades assumem o protagonismo da gestão ambiental.
Essas práticas afirmam um novo paradigma: o direito à cidade é também o direito à natureza — não como privilégio, mas como bem comum.
5. Geopolítica e Ecologia: Um Planeta em Disputa
A desigualdade ambiental é global.
O Norte industrializado impõe metas e acordos climáticos ao Sul global, mas continua sendo o principal responsável histórico pelas emissões e pela exploração de recursos naturais.
A chamada “transição verde” corre o risco de reproduzir antigas lógicas coloniais: países pobres fornecem minerais e energia limpa para sustentar o consumo dos ricos.
Essa ecologia política global evidencia que a sustentabilidade só será possível se vier acompanhada de redistribuição econômica e reparação histórica.
A justiça climática precisa incluir indenizações ambientais, transferência tecnológica e participação efetiva das nações do Sul nos fóruns internacionais.
Como afirmam os pesquisadores latino-americanos Arturo Escobar e Enrique Leff, é preciso descolonizar a ecologia, transformando o ambientalismo tecnocrático em ecologia de saberes — plural, comunitária e ética.
6. Caminhos para uma Justiça Territorial Global
O futuro da Terra depende de uma nova ética geográfica: uma ética do cuidado e da corresponsabilidade.
Isso exige políticas públicas que articulem justiça social, ambiental e territorial, garantindo acesso equitativo a bens naturais e combatendo a mercantilização da vida.
Mas exige também uma mudança cultural — uma nova forma de pensar o lugar do humano no planeta.
No CEHASC, a proposta de Justiça Territorial é compreendida como prática educativa e científica, que integra história, antropologia, sociologia e geografia para formar uma consciência planetária crítica.
Essa perspectiva defende que preservar o ambiente é preservar a dignidade humana, e que a luta pela sustentabilidade é inseparável da luta contra o racismo, o patriarcado e a desigualdade social.
A verdadeira revolução ecológica, portanto, não começa nas máquinas — começa nas relações.
O Planeta como Território Ético da Humanidade
A Terra é o nosso primeiro e último território.
Ela guarda as marcas das civilizações, os rastros do progresso e as feridas da injustiça.
Mas também conserva, em cada floresta e rio, a promessa de um recomeço.
Falar de justiça territorial é falar de um novo contrato moral entre o ser humano e o planeta — um pacto de cuidado, reciprocidade e equilíbrio.
O desafio do século XXI não é apenas tecnológico, mas ético: aprender a habitar o mundo com responsabilidade coletiva.
No horizonte do CEHASC, a educação ambiental e a geografia crítica convergem para inspirar uma nova consciência civilizatória — onde a sustentabilidade não é um slogan, mas um modo de existir.
A Terra não é herança dos nossos pais, mas empréstimo dos nossos filhos.
E o futuro, se houver, começa com a escolha de preservar — juntos — o lugar que todos compartilhamos.
Referências Básicas:
- Santos, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Hucitec, 1996.
- Harvey, David. Espaços de Esperança. São Paulo: Loyola, 2004.
- Leff, Enrique. Saber Ambiental: Sustentabilidade, Racionalidade, Complexidade. Petrópolis: Vozes, 2001.
- Shiva, Vandana. Earth Democracy. Cambridge: South End Press, 2005.
- Escobar, Arturo. Territories of Difference. Durham: Duke University Press, 2008.
- IPCC (2023). Relatório Síntese sobre Mudança Climática.
- CEHASC (2025). Justiça Territorial e Educação Ambiental: Por uma Geografia Ética da Terra.