A História da Odontologia na Antiguidade na África, América, Ásia e Europa
A odontologia na Antiguidade evoluiu de práticas empíricas baseadas na observação e no uso de materiais naturais para intervenções mais documentadas e sofisticadas, influenciadas pelos avanços médicos das civilizações do Egito, Mesopotâmia, Grécia e Roma.
Evidências arqueológicas — como papiros, múmias, tumbas e textos médicos — revelam tratamentos para cáries, abscessos e perdas dentárias, com ferramentas metálicas e substâncias orgânicas.

África: Pioneirismo Egípcio em Documentação e Cirurgia Bucal
O Egito Antigo, berço de avanços médicos, produziu os registros odontológicos mais sistemáticos da África, com foco em extrações, obturações e higiene bucal. Evidências provenientes de múmias e papiros demonstram que problemas dentários eram comuns, decorrentes de dietas ricas em areia e açúcar natural (mel e tâmaras).
Egito Antigo (~3000 a.C. – 500 a.C.):
Os egípcios documentaram extrações, obturações e cirurgias bucais em papiros como o Papiro Ebers (1550 a.C.) e o Papiro Edwin Smith (pré-3000 a.C.), que descrevem tratamentos para cáries, úlceras, abscessos e periodontite. Utilizavam cera de abelha, resinas, mel e cinzas de casco de boi para selar dentes e preparar pastas dentais primitivas.
Achados em múmias revelam perfurações dentárias e cavidades preenchidas, além de remoções cirúrgicas de lesões cranianas — possivelmente o registro mais antigo de neurocirurgia, datado de 4.000 anos. Estudos em restos mumificados confirmam alta prevalência de abscessos e desgaste dental, tratados com instrumentos de cobre.
Outras Regiões Africanas:
Em Núbia e Cartago (atual Tunísia, ~1000 a.C.), há evidências esporádicas de extrações em esqueletos, indicando influência egípcia. O uso de ervas analgésicas como mirra era comum no tratamento de dores dentárias.
América: Modificações Intencionais e Tratamentos Pré-Colombianos
Nas Américas, a odontologia pré-colombiana caracterizou-se tanto por modificações estéticas quanto por tratamentos terapêuticos. Perfurações e incrustações em dentes, associadas a rituais e status social, coexistiam com práticas voltadas ao alívio da dor. Dietas à base de milho contribuíam para o surgimento de cáries, estimulando técnicas de raspagem e higiene.
Mesoamérica (~2000 a.C. – 500 d.C.):
Em regiões como Tenochtitlán e sítios maias, crânios pré-hispânicos mostram perfurações dentárias intencionais para drenagem de abscessos e incrustações de jade, hematita e turquesa como adorno. Estudos de dentição maia e asteca indicam taxas de cárie de até 20%, tratadas com raspagens e pastas de ervas medicinais.
Em Áspero (Peru), o cálculo dental com resíduos de amido (~3000 a.C.) evidencia dietas ricas em carboidratos e práticas de raspagem manual.
América do Sul e Caribe (~3000 a.C. – 500 d.C.):
No Vale de Tehuacán (México) e na ilha Hispaniola, registros de antropologia dental indicam modificações dentárias intencionais (IDM), como ablações rituais e preenchimentos com resinas vegetais.
Em Costa Rica, foram encontrados dentes perfurados para drenagem de infecções, com taxas de cárie entre 5% e 15% nas populações formativas.
| Civilização | Contribuições Principais |
| Maias | Incrustações de pedras preciosas; tratamentos fitoterápicos para periodontite. |
| Incas | Extrações e próteses rudimentares de osso; evidências de cirurgias bucais em múmias. |
Ásia: Avanços na Mesopotâmia, China e Índia com Ênfase em Higiene e Analgesia
A Ásia foi palco de práticas odontológicas associadas à medicina holística e espiritual, integrando higiene, analgesia e técnicas de restauração. Dietas à base de grãos e especiarias impulsionaram o desenvolvimento de instrumentos e métodos preventivos.
Mesopotâmia e Vale do Indo (~3000 a.C. – 500 a.C.):
Na Suméria e Babilônia, tabletes cuneiformes relatam extrações e enxaguantes com sal e óleo para tratar abscessos. Estudos osteológicos indicam altos índices de atrito dental (95%) e periodontite (42%).
No Vale do Indo (atual Paquistão/Índia), perfurações dentárias datadas de ~7000 a.C. — prática que perdurou na Antiguidade — demonstram o uso de brocas manuais e, ocasionalmente, fios de ouro para estabilizar dentes.
China e Índia (~2000 a.C. – 500 d.C.):
Na China, registros indicam extrações rudimentares desde 6000 a.C., evoluindo para fixação dentária com arames metálicos e uso de acupuntura no tratamento da dor, conforme descrito no Huangdi Neijing (~200 a.C.).
As escovas de bambu com cerdas de porco, surgidas no século V a.C., refletem a preocupação com higiene oral.
Na Índia, o Sushruta Samhita (~600 a.C.) descreve extrações, enxaguantes com ervas e próteses de marfim. Evidências arqueológicas revelam o uso de betel e limão para clareamento dental e folhas de neem como antisséptico natural.
| Civilização | Contribuições Principais |
| China | Acupuntura e estabilização com fios metálicos; pastas de ervas para cáries. |
| Índia | Cirurgias bucais e higiene com neem; próteses de osso e marfim. |
Europa: Influências Etrúscas, Gregas e Romanas em Próteses e Teoria Médica
Na Europa mediterrânea, o conhecimento odontológico foi consolidado a partir da fusão entre práticas etruscas, gregas e romanas. Roma, em especial, transformou essas técnicas em modelos amplamente difundidos no Império.
Etrúria e Grécia (~700 a.C. – 500 a.C.):
Os etruscos, na Itália central, desenvolveram as primeiras próteses dentárias (~700 a.C.), com faixas de ouro fixando dentes humanos ou de marfim.
Na Grécia, Hipócrates (460 a.C.) e Aristóteles descreveram extrações, o processo de erupção dentária e o uso de fios de ouro para ligar dentes soltos. Crânios gregos revelam raspagens e drenagens de abscessos como prática comum.
Roma (~500 a.C. – 500 d.C.):
O médico Aulus Cornelius Celsus (século I d.C.), em De Medicina, descreveu próteses de marfim e dentes humanos, além de extrações com alicates.
Arqueologia romana evidencia pontes dentárias de ouro, enxaguantes com vinagre e tratamentos com mel e ervas. Escavações em Pompeia apontam alta incidência de cáries (até 10%), provavelmente ligada ao consumo de alimentos ricos em amido.
| Civilização | Contribuições Principais |
| Etrúria | Próteses de ouro e dentes falsos; influência direta sobre Roma. |
| Grécia | Teoria dentária (Hipócrates); extrações e ligaduras. |
| Roma | Próteses avançadas e tratados médicos (Celsus). |
A Dor, a Técnica e o Cuidado na Antiguidade
Essas práticas antigas — sustentadas por evidências arqueológicas como múmias, tabletes, túmulos e textos médicos — pavimentaram o caminho para a odontologia medieval, demonstrando a universalidade da busca humana por alívio, estética e preservação da saúde bucal.
A odontologia antiga revela não apenas técnicas, mas também valores simbólicos e culturais, mostrando como o ato de cuidar dos dentes reflete a evolução do pensamento humano sobre o corpo, a dor e a cura.