O Massacre do Zong: A Carga Humana que o Mar Não Escondeu

Por Equipe Cehasc, em 29 de outubro de 2025
Resgatando Vidas Afogadas em Memória e Justiça
Em um ano como 2025, marcado por intensos debates globais sobre reparações históricas e o combate ao racismo sistêmico — com iniciativas como o Fórum das Nações Unidas sobre Povos de Ascendência Africana ganhando tração —, surge uma obra que não apenas ilumina as trevas do passado colonial, mas as usa como farol para o presente. O Massacre do Zong: A Carga Humana que o Mar Não Escondeu, de Josué Barros Neto, é esse farol: um e-book que mergulha no abismo do Oceano Atlântico para exumar o horror de 1781, quando 133 africanos escravizados foram deliberadamente lançados vivos ao mar a bordo do navio Zong. Com uma narrativa que funde precisão historiográfica, lirismo poético e fervor ativista, Barros Neto erige um memorial literário, transformando vítimas anônimas em símbolos eternos de dignidade negada e resistência inquebrantável.

O Zong: Um Navio de Correntes e Contabilidade Cruel
O Zong, outrora um navio holandês batizado Zorgue e capturado pelos britânicos para servir ao infame comércio de escravos, partiu de Liverpool em setembro de 1781 com cerca de 470 africanos aprisionados na costa ocidental da África. Rumo às plantações jamaicanas de açúcar e tabaco, a embarcação era um inferno flutuante. Porões superlotados, onde prisioneiros — acorrentados como mercadorias — sucumbiam a doenças como disenteria e escorbuto, em meio a um ar pútrido de urina, vômito e desespero.
Um erro de navegação do capitão Luke Collingwood prolongou a viagem. A suposta escassez de água — um pretexto duvidoso, dado que reservas existiam — pavimentou o caminho para o massacre: de 29 de novembro a 1º de dezembro, 133 almas (homens, mulheres e crianças) foram arrastadas dos porões e atiradas às ondas. O motivo não era salvação coletiva, mas sim garantir indenizações de seguro, avaliando cada vida em torno de £30 como “carga perdida”.
Josué Barros Neto reconstrói essa “Passagem do Meio” — o trecho letal da rota triangular Europa-África-Américas — com imagens vívidas e impiedosas. O autor não se limita a fatos secos; ele invoca o fedor sufocante, os gemidos abafados e a frieza mercantil que equiparava humanos a barris de rum. Uma pergunta ecoa como um refrão: “Quantas vidas cabem no porão de um navio? E quantas delas cabem em nossa memória coletiva?” Essa interrogação é um chamado à reparação, ancorada na lógica perversa do capitalismo colonial, que via o mar como solução para “excedentes”.
Temas que Transcendem o Tempo: Desumanização, Resistência e o Poder da Voz
O e-book pulsa com análises profundas. Nos capítulos centrais, Josué Barros Neto disseca o julgamento de 1783 no Tribunal do Banco do Rei, em Londres — o infame Gregson v. Gilbert, onde o foco não foi homicídio, mas prejuízo financeiro. Presidido por Lord Mansfield, o processo revelou a cumplicidade do direito britânico: o diário de bordo “desaparecido”, testemunhos enviesados e argumentos que retratavam os perpetradores como “homens respeitáveis”.
É nesse vórtice de injustiça que irrompe o Capítulo 6, dedicado a Granville Sharp (1735–1813), o abolicionista britânico que rompeu o silêncio como uma lâmina afiada. Ao saber do Zong em 1783 — possivelmente via Olaudah Equiano —, Sharp ficou “estarrecido”, vendo ali não um litígio comercial, mas um “assassinato coletivo”. Ele reuniu provas, mobilizou a imprensa, a Igreja e círculos abolicionistas, transformando o episódio em escândalo moral global. Sua genialidade brilha no uso do termo “massacre”: em uma era de “propriedade humana”, essa palavra reintroduziu a humanidade das vítimas, exigindo respostas nas ruas e parlamentos. Como Josué Barros Neto poetiza, “nomear é resistir” — um ato revolucionário que desnaturalizou a escravidão e pavimentou o caminho para a Sociedade para a Abolição de 1787.
O livro prossegue, explorando a necropolítica de Achille Mbembe, onde Estados e mercados ditam “quem vive e quem morre”; e celebra resistências sutis a bordo, como cânticos e suicídios voluntários como afirmações de autonomia. A estrutura é fluida: introdução impactante (“Quando o Lucro Vale Mais que a Vida”), , conclusão transformadora e recursos práticos — glossário, sugestões de filmes (Amistad, 13ª Emenda), músicas (Bob Marley, Clara Nunes) e atividades pedagógicas. É uma obra que educa sem entediar, inspirando sem idealizar.
O Autor: Escavando Memórias para Semear Justiça
Josué Barros Neto, historiador, cientista social e especialista em antropologia e políticas étnico-raciais, escreve como um “arqueólogo da memória”. Seu prefácio delineia uma missão inabalável: unir “rigor acadêmico e sensibilidade humana” para converter sangue histórico em reflexão ética. Influenciado por psicologia social e diversidade sociocultural, Josué Barros Neto não apenas resgata o Zong, mas o projeta para o presente, questionando como heranças escravagistas alimentam exclusões atuais.
Por Que O Massacre do Zong Importa em 2025?
Neste outubro de 2025, com o mundo ainda processando legados coloniais — de memoriais expandidos em Black River, Jamaica, a campanhas globais por reparações —, o e-book é um antídoto vital ao esquecimento. Ele nos confronta: “Quais vidas ainda hoje são tratadas como descartáveis?” Em meio a crises migratórias, desigualdades digitais e negacionismo racial, o Zong ecoa como alerta: o oceano, antigo cemitério, pode ser reinventado como espaço de memória coletiva, se cultivarmos empatia como ação.
Em síntese, O Massacre do Zong transcende o gênero histórico; é um manifesto vivo. Josué Barros Neto nos admoesta: “Recordar o Zong é lembrar que a humanidade naufraga sempre que o lucro vale mais que a vida.” Baixem, leiam, debatam — e atuem. Porque, como o autor finaliza, “escutar o mar é escutar a história — e quem escuta tem o dever de agir.”