A Dança da Peste de 1518

O Mistério das Multidões Que Dançaram até a Exaustão
Introdução
No verão de 1518, na cidade de Estrasburgo (atual França, então parte do Sacro Império Romano-Germânico), ocorreu um dos episódios mais enigmáticos da história europeia medieval: a chamada Dança da Peste ou Epidemia de Dança. Centenas de pessoas começaram a dançar incontrolavelmente pelas ruas, sem motivo aparente ou música, até o colapso físico – com relatos de exaustão extrema, desidratação e, em alguns casos, mortes por parada cardíaca ou derrames. Registrado em crônicas contemporâneas, sermões da catedral e atas municipais, esse fenômeno durou cerca de dois meses e afetou entre 50 e 400 indivíduos, tornando-se um símbolo de histeria coletiva e da fragilidade humana em tempos de crise. Até hoje, a Dança da Peste intriga historiadores, psicólogos e antropólogos, representando um mistério que mescla fatores biológicos, sociais e psicológicos. Para a seção Doc.X do CEHASC, este artigo aprofunda o evento, explorando seu início, teorias explicativas e legado cultural, separando fatos históricos de especulações.
O Início da Epidemia de Dança
O surto irrompeu em 14 de julho de 1518, quando uma mulher identificada como Frau Troffea (ou possivelmente acompanhada de sua filha) saiu às ruas de Estrasburgo e começou a dançar freneticamente, sem acompanhamento musical ou motivo aparente. Ela continuou por quase uma semana, colapsando de exaustão apenas para retomar os movimentos espasmódicos. Dentro de poucos dias, mais de 30 pessoas se juntaram a ela, exibindo convulsões, tremores e expressões vazias, incapazes de parar apesar da fadiga. As crônicas da época, como as do cronista Sebastian Brant, descrevem o caos: dançarinos gritando, colidindo uns com os outros e dançando em transe, como possuídos.
Em agosto, o número atingiu seu pico, com cerca de 400 habitantes – homens, mulheres e crianças – dançando compulsivamente nas praças e ruas. O conselho municipal, alarmado, inicialmente interpretou como doença física e contratou músicos profissionais e dançarinos pagos para “curar” os afetados, acreditando que o movimento liberaria o “mal”. Essa abordagem piorou a situação, com relatos de até 15 mortes por dia no auge. O episódio diminuiu misteriosamente em setembro, após rituais religiosos e peregrinações ao santuário de São Vito, o santo padroeiro dos dançarinos. Estrasburgo, assolada por fomes, epidemias de peste e sífilis, insegurança política no Sacro Império e medos apocalípticos, forneceu o pano de fundo perfeito para esse surto, similar a eventos anteriores como a mania de dança de 1374 ao longo do rio Reno, que afetou milhares, ou incidentes na Saxônia no século XI, atribuídos a julgamentos divinos.
Para contextualizar, Estrasburgo era uma cidade próspera mas instável, com uma população de cerca de 20.000 habitantes, marcada por desigualdades sociais e religiosas. A Reforma Protestante estava emergindo, e crenças em maldições divinas eram comuns. O surto coincidiu com colheitas ruins e inundações, exacerbando o estresse coletivo, o que sugere que fatores ambientais e sociais desempenharam um papel chave no desencadeamento e propagação do fenômeno.
Explicações Históricas e Científicas
Ao longo dos séculos, diversas teorias tentaram decifrar a Dança da Peste, combinando visões médicas medievais com análises modernas.
Teoria Médica da Época
Os médicos de 1518, influenciados pela teoria dos humores de Galeno, diagnosticaram “sangue superaquecido” ou desequilíbrio humoral, recomendando mais dança para “expelir” o excesso de calor. O conselho construiu palcos e contratou guildas de músicos, prolongando o sofrimento. Paracelsus, que visitou Estrasburgo oito anos depois, sugeriu “veias risonhas” que provocavam sensações de cócegas, espalhando-se como uma praga pela imaginação coletiva. Essa visão reflete a medicina renascentista, que misturava ciência com superstição, ignorando fatores sociais. Outros médicos propunham tratamentos como imersão em água fria ou orações, mas a crença em punição divina, ligada a São Vito, levou a rituais de expiação, como peregrinações ao monte Ste. Marie, onde os afetados usavam sapatos vermelhos aspergidos com água benta.
Teoria do Ergotismo
Historiadores como John Waller propõem envenenamento por ergot (Claviceps purpurea), um fungo psicoativo no centeio que causa alucinações, convulsões e gangrena, semelhante ao LSD. O ergotismo, conhecido como “fogo de Santo Antônio”, foi associado a “possessões” medievais. Em Estrasburgo, colheitas ruins de 1518 poderiam ter contaminado o pão, explicando sintomas neurológicos. No entanto, o ergotismo tipicamente causa rigidez e não dança prolongada, e padrões regionais não coincidem perfeitamente, tornando a teoria plausível mas incompleta. Pesquisas indicam que o fungo prospera em climas úmidos, como o do Reno em 1518, mas não explica a seletividade do surto ou a ausência de outros sintomas como gangrena em relatos.
Teoria Psicossocial
Pesquisadores modernos, como Waller em “A Time to Dance, A Time to Die” (2008), defendem histeria coletiva ou transtorno psicogênico em massa, desencadeado por estresse extremo: fomes recorrentes, epidemias de peste e sífilis, insegurança política no Sacro Império e medos apocalípticos. A sugestão social amplificou o surto, similar à coreia de Sydenham ou tarantismo italiano, onde mordidas de aranha eram culpadas por danças compulsivas. Fatores como pobreza e superstições criaram um “caldeirão psicológico”, onde o medo coletivo transformou sofrimento em comportamento contagioso. Estudos contemporâneos de epidemias psicogênicas, como surtos de tiques em escolas alemãs em 2022, ecoam isso, reforçando a visão de que estresse social pode manifestar-se fisicamente. Outras visões incluem o papel de seitas religiosas ou danças como forma de protesto social contra a opressão feudal.
Outras Teorias
Teorias alternativas incluem possessão demoníaca, comum na época, ou envenenamento por metais pesados como mercúrio em poços contaminados. Pesquisas recentes sugerem uma combinação: ergotismo como gatilho biológico e histeria como amplificador social, explicando a duração e escala do surto.
Impacto Cultural
A Dança da Peste é um dos maiores exemplos de histeria coletiva documentada, inspirando obras como o curta “Strasbourg 1518” de Jonathan Glazer (2020), a canção “Choreomania” de Florence + The Machine (2022) e o romance gráfico “The Dancing Plague” de Gareth Brookes (2021). No Brasil, eventos semelhantes, como a “Dança de São Guido” em Pernambuco no século XIX, ecoam o fenômeno. Culturalmente, simboliza a vulnerabilidade humana ao medo e opressão, influenciando discussões sobre saúde mental coletiva e pandemias modernas, como a COVID-19, onde estresse gerou comportamentos irracionais. Em literatura, autores como H.G. Wells em “The War of the Worlds” (1898) usaram epidemias como metáforas para caos social, enquanto na arte, gravuras de Pieter Bruegel o Velho capturam cenas de danças medievais como alegorias de loucura coletiva.
Conclusão
A Dança da Peste de 1518 permanece sem explicação definitiva, mas revela como toxinas, crises psicológicas e fatores sociais podem interagir em tempos de crise, produzindo fenômenos imprevisíveis. Seja ergotismo ou histeria coletiva, o evento destaca a interseção entre corpo, mente e sociedade. Para mais sobre fenômenos sociais inexplicáveis, explore a área Doc.X do CEHASC e mergulhe em histórias que desafiam a lógica.
Que texto interessante, obrigada por compartilhar essa história, amando o site.
Que bom que voçê gostou em breve estarei lançando o E-Book
Muito interessante! Eventos desse tipo servem para exemplificar a psique das pessoas, quando comportamentos inesperados colocam em cheque a razão!
Obrigado por nos acompanhar! Sua leitura e seu apoio são essenciais para que possamos continuar a promover o debate e a democratização do conhecimento. Esperamos você no próximo artigo!”
Realmente foi um caso registrado .
Qual teria sido a causa desse fenômeno? Talvez algum sintoma ligado a alguma peste da vez?
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